28 de fevereiro de 2007

1983 * 28 de Fevereiro * 2007


BUSTOS NA ORDEM DO DIA NA ASSEMBLEIA MUNICIPAL


In Região Bairradina, 2007-02-27
Oliveira do Bairro
(com a devida vénia)

A freguesia de Bustos esteve, na passada sexta-feira, dia 23, em grande destaque na Assembleia Municipal de Oliveira do Bairro. Gladys Del Carmen foi a primeira a usar a palavra no período de antes da ordem de trabalhos. A deputada social-democrata chamou a atenção do Executivo para “a necessidade urgente de beneficiação de arruamentos que se encontram intransitáveis” e também para a falta de estruturas de saneamento básico que ainda não chegaram a muitos lugares da freguesia.

Gladys Del Carmen focou algumas das ruas que precisam de uma intervenção urgente, como a R. dos Reis, no Cabeço de Bustos ou a R. do Cabeço da Vila, que vai da Capela de S. João a Bustos, “onde o pavimento é praticamente inexistente, dificultando a passagem dos transeuntes, principalmente dos mais idosos”. O abandono do antigo cine-teatro, a falta de sinalética a indicar a Zona Industrial, bem como a necessidade de um limite de velocidade na EN 235, no limite com a freguesia da Palhaça foram outros dos assuntos focados pela deputada.
Aproveitando o balanço da intervenção da deputada, o presidente da Junta de Freguesia de Bustos, Manuel Pereira, também apresentou algumas preocupações. A primeira relativamente ao problema das águas fluviais, “que a Câmara garantiu resolver em 2006 e que continua na mesma em alguns lugares”. Depois, falou de uma situação “que é urgente tratar em termos de saneamento: na saída da Feiteira até ao cruzamento do Troviscal e junto à rotunda de Vila Verde as pessoas levam ali banhos, na totalidade, todos os dias. Há muita gente que aqui circula a pé, de bicicleta ou de motorizada sem segurança”.
Manuel Pereira também apresentou um problema ambiental, relacionado com os vendedores ambulantes de fritos, que “despejam óleos na valeta no final da feira [Feira do Sobreiro, nos dias 9 e 22 de cada mês]. No Verão, isso provoca pragas de ratazanas, de tal forma que eu, só no meu quintal, matei 50”, afirmou o autarca de Bustos, pedindo ao Executivo que mande uma brigada técnica ao local, para verificar a situação.
Quanto ao arranjo das estradas, Manuel Pereira agradeceu a espontaneidade e a persistência da deputada Gladys Del Carmen mas pediu ao Presidente da Câmara que não aceda ao pedido “enquanto não tratar do saneamento”.

Também o socialista Óscar Santos apresentou o seu descontentamento sobre o “progressivo esquecimento a que tem sido votada a freguesia de Bustos”. Por outro lado, sugeriu ao Executivo transformar a velha escola primária, “que tem grande interesse arquitectónico e histórico”, num museu. “Se fosse na Palhaça ou em Oiã, já ali estava um museu”, ironizou o bust[u]ense. “Por que não aproveitar o coleccionador de automóveis antigos, Fernando Luzio, e o irmão, Manuel Luzio, que colecciona rádios antigos e que tem uma das três melhores colecções a nível mundial, para dignificar aquele espaço”, propôs o deputado do PS.

Presidente responde

Respondendo a todas estas preocupações, o presidente Mário João Oliveira referiu que algumas das ruas indicadas pela deputada Gladys “nunca mais sofreram alterações, desde o alcatroamento inicial, situação que não tem apenas um, mas muitos anos”. Relativamente aos semáforos de limite de velocidade, “estão a ser equacionadas várias situações por todo o concelho”.

Quanto ao antigo cine-teatro de Bustos, o autarca relembrou que aquele imóvel é particular mas, “pelo que já representou, o concelho teria todo o interesse em que aquele espaço fosse dinamizado. No entanto, é preciso que os proprietários estejam também interessados em vender.”

Mário João Oliveira deixou também uma resposta ao presidente da Junta de Bustos, afirmando que conhece a situação dos feirantes, “que andamos a tentar regularizar”. “Vamos falar com a engenheira Manuela Pato e, juntamente com a Junta, montar uma operação ao local, para eliminar esse problema. E com certeza que haverá penalidades para os faltosos”, garantiu Mário João Oliveira.

27 de fevereiro de 2007

HILÁRIO SIMÕES DA COSTA: 1º CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO


MUSEU S.PEDRO DA PALHAÇA


A Palhaça é hoje, graças à inteligência e trabalho das suas gentes, a freguesia mais dinâmica do nosso concelho. Para defender esta afirmação bastaria invocar a Quinzena Cultural da Freguesia realizada no passado verão, envolvendo as múltiplas associações da vila e integrando valências tão diversas quanto a poesia e os livros, tapeçaria e bordados, musica ligeira e folclórica, teatro, exposições, marchas populares, internet, gastronomia, etc. E se esta foi uma iniciativa sem exemplo a nível concelhio outra há, ainda mais exemplar, e cuja importância ultrapassa bem os limites da freguesia. Dela somos todos devedores. Refiro-me ao Museu S. Pedro da Palhaça, graças ao qual se tem vindo a desenvolver um meritório trabalho na preservação da nossa memória colectiva. Caso único em todo o concelho de Oliveira do Bairro.

Para ficar o conhecer as origens do museu, cujos primórdios estão ligados à recuperação da antiga Igreja Matriz da Palhaça, deve visitar o site da instituição, aqui.

O objectivo inicial era preservar a arte sacra mas, ao saberem da existência do museu, os populares afluiram oferecendo as mais variadas “velharias”, obrigando a instituição a alargar a sua área de actividade, que hoje engloba também colecções etnográficas, estatuária, livros, postais, jornais, revistas, fotografias e toda a espécie de documentos. Entre os fundos próprios contam-se os espólios de Arlindo Vicente, António Cértima e Padre Acúrcio.

O factor humano

Apesar de estar ligado à igreja local o museu da Palhaça tem autonomia jurídica. O seu funcionamento depende do apoio financeiro da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia sem o qual muito do trabalho que ali está a ser desenvolvido, nomeadamente no capítulo da catalogação, digitalização, inventário, conservação, restauro, edição de livros, etc, não se poderia realizar.
Essencial e decisivo tem sido o trabalho de uma equipa de gente apaixonada que tem dedicado todo o seu tempo livre a tão envolvente projecto. Hoje com uma equipa de seis pessoas o museu muito deve a esse esforço individual onde se destacam os nomes do técnico de contas, Paulo Lourenço, e do enfermeiro, Adelino Batista. Este último, ligado ao projecto desde o seu início, é um belo exemplo de empenho cívico, de trabalho desinteressado, silencioso e constante em prol da comunidade. Ele é, pela sua dedicação, trabalho e autodidactismo um caso raro, e uma referência na vida cultural da Bairrada.
A todos eles o nosso reconhecimento. Muito obrigado.
Visitar o museu

O Museu S. Pedro está localizado na Rua da Vila Nova junto à antiga Igreja Matriz da Palhaça. Para visitas aconselha-se marcação prévia através do telefone e fax, 234754325, ou pelo e-mail museu.palhaca@gmail.com.

Belino Costa

26 de fevereiro de 2007

1907 * 12 de Março * 2007


LOUROS PARA JACINTO, DIA DE BUSTOS'07

18 de Fevereiro de 2007. Ílhavo. Cemitério. Preito de Homenagem a Jacinto dos Louros.


Familiares, Notícias de Bustos e demais amigos manifestaram o seu reconhecimento ao ‘grande obreiro’ Jacinto dos Louros e correligionários pela construção da Freguesia de Bustos alcançada em período frágil da 1ª República, acossada pelos monárquicos e pelo clero, e em condições adversas que chegavam a ameaçar a integridade física da Ilustre Figura Bustuense.

Eu também sou de Bustos’

Colocada a primeira coroa pela Família de Jacinto dos Louros, Mário Reis Pedreiras depôs a coroa do Notícias de Bustos. Um cartaz do Dia de Bustos adornava o testemunho de gratidão para com o Fundador da freguesia de Bustos. As duas irmãs, D. Cândida Simões Guerra e D. Benilde Simões Guerra e Silva, presentes de pé firme, na primeira linha da Homenagem a seu Pai, também sentiam orgulho pelo ‘glorioso dia’ 18 de Fevereiro, conforme ficou espelhado na afirmação ‘Eu também sou de Bustos’.

Jacinto dos Louros, um lutador

Belino Costa, pesquisador da História de Bustos do período da criação da Freguesia, realçou a luta travada por Jacinto dos Louros e recordou “todos os outros bustuenses que tiveram um papel importante, dignificando e levando mais além o nome de Bustos por esse mundo fora”. (Alberto Martins, 18 DE FEVEREIRO: MANTEIGA SEM SAL, 20. 2.07). Na sua intervenção, Belino Costa expressou a vontade que acompanhou o seu avô Vitorino Reis Pedreiras e correligionários em trasladar as ossadas de Jacinto dos Louros para Bustos. ‘Seria a satisfação de uma dívida de Bustos para com Jacinto dos Louros’. No entanto ficou bem claro que estava bem junto da sua esposa D. Maria da Conceição Guerra, senhora que “aceitou o desconforto, a agitação e as ameaças a que os inimigos políticos do meu pai os sujeitaram, na tentativa desesperada de resgatar a importância e os privilégios que o regime deposto lhes garantia”[1].


Jacinto dos Louros, Dr. Manuel dos Santos Pato, Vitorino Reis Pedreiras, sempre presentes!

Apesar de se sentir “exilado longe de Bustos” [2],Belino Costa inferia que através de trocas epistolares, Jacinto dos Louros adubara a Amizade com Vitorino Reis Pedreiras que se estenderia pelo tempo. Outro grande Amigo foi o Dr. Manuel dos Santos Pato[3], benemérito por excelência. Os reencontros em tempo de férias de Agosto e das vindimas na Casa da Barreira, ajudava a Família de Jacinto dos Louros a retemperar a fibra do sentir Bustos. Vem à colação o saudoso Eng.º Manuel dos Santos Pato (Neo Pato) .– cidadão sempre presente nos acontecimentos que dignificavam a sua terra natal. ‘Bustos deve-lhe uma homenagem’ – alvitrou Belino Costa e, erguendo a mão lá para o zénite, parecia espreitar a conversa de Jacinto dos Louros com Vitorino Reis Pedreiras e os seus correligionários, a tentar explicar porque Jacinto dos Louros saíra abruptamente de Bustos, pouco tempo depois da inauguração de um moderno estabelecimento comercial.

Saída abrupta de Jacinto dos Louros

A D. Cândida justifica essa partida com o aparecimento de uma doença da sua Mãe, associada à necessidade de mandar os filhos para o Liceu de Aveiro. E Ílhavo era tão perto. Recorda D. Cândida, que a Família saiu em dia chuvoso na charrete [era uma break] do Dr. Pato, ‘tivemos a companhia de uma multidão que se deslocou de bicicleta ou a pé até Ílhavo.’

Os melhores anos dos dois [Jacinto dos Louros e Maria da Conceição Guerra]
foram aqui passados [Bustos].

A cerimónia no cemitério de Ílhavo foi encerrada com o testemunho de D. Cândida Guerra em representação da Família, texto editado em 18 DE FEVEREIRO: COM EMOÇÃO. 20.02.2007, (merece ser lido).
_______________

Em BUSTOS, aconteceu

A reter

Como professora [Maria da Conceição Guerra] permaneceu sempre respeitada e reconhecida pelo empenho e rigor com que exerceu a sua actividade.Ensinou e educou com dedicação todos os seus alunos e amou Bustos como se aqui tivesse nascido (da intervenção de D. Cândida Guerra)­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

Cada bustuense deve sentir-se herdeiro das aspirações dos cabouqueiros que construíram a Freguesia. O prosseguimento na luta contra o esbatimento das desigualdades sociais e a busca progressiva do bem-estar deverão incorporar o melhor sentido de Homenagear Jacinto dos Louros e os seus correligionários.

Notas
a) Um agradecimento especial à Família de Jacinto Simões dos Louros pela disponibilidade e carinho com que participou nas actividades do Dia de Bustos. À ausente-presente D. Mariazinha Simões Guerra, o nosso desejo de melhoras.

b) O 9 de Maio de 1920 marca o dia das primeiras eleições para a Junta de Freguesia de Bustos. A efeméride deveria ser comemorado com pompa. Motivo não falta. E acresce ser o Dia da Europa.

c) Considerando que Jacinto dos Louros foi ‘o grande obreiro’ da criação da Freguesia de Bustos, proponho que a sua fotografia seja colocada em lugar nobre no hall de entrada do edifício da Junta e da Assembleia de Freguesia, ao lado do retrato do Dr. Pato. Para além das fotos, cada uma destas duas figuras são dignas de estarem representadas no respectivo busto exposto em local condigno.

d) O Almoço no Piri-Piri marcou o retomar de uma tradição vinda do tempo da Ditadura. NB apreciou a presença da família de Jacinto dos Louros, tendo D. Cândida e D. Beatriz (Guerra) prestigiado a mesa de honra, mesmo em condições de algum aperto.

e) A Belino, Milton (Costa), Chico (Humberto), Óscar e outros, um obrigado ‘por terem posto a máquina a funcionar’.

sérgio micaelo ferreira
_____________
[1] Da intervenção proferida por D. Cândida Guerra.
[2] Idem .
[3]Nos primórdios da Ditadura saída do golpe de 28 de Maio de 1926, o Dr. Manuel dos Santos Pato foi saneado do cargo de Conservador do Registo Civil de Oliveira do Bairro. Até hoje não houve qualquer manifestação de desagravo.

24 de fevereiro de 2007

ZECA AFONSO: 20 anos - rente ao esquecimento

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos
2 de Agosto 1929 * 23 Fevereiro1987*
( 20 anos depois, 2007)
*
Em vésperas de Natal, nos idos em Moçambique fardado de tropa, uma empresa hidroeléctrica ofereceu um bom recheio de embalagens de tabaco rodesiano e uns discos destinados à sala de oficiais. O Batalhão, de seu nome, companheiro dos baladeiros de Coimbra, pega nos single, mostra os títulos e o espanto atravessa os milicianos. Discos do Zeca... dentro da tropa? Bem. O gira-discos iria ter trabalho forçado. A cada intervalo, descanso, pernoita, lá ia o Zeca alternando o “Menino do Bairro Negro” com os “Vampiros”. Nunca se cansou. Nunca avariou. Nem foi avariado. Só o deixamos de ouvir quando voámos para Mueda. Aí a música era outra.
Vinte anos depois do Zeca Afonso ter entrado no carrossel da glória, a sua música já deveria constar de reportórios das grandes sinfónicas. Mas …
Zeca, 'Está próximo o castigo' (in quando os incêndios alastram).
Amanhã regressas à prateleira.

sérgio micaelo ferreira

Ainda estão no ouvido,
MENINO DO BAIRRO NEGRO

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Virá também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
(...)

VAMPIROS

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas
São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

(...)
(Excertos) José Afonso, Textos e Canções, Organização e Notas J. H. Santos Barros, 2ª edição revista e aumentada, organização Elfriede Engelmayer, Assírio &Alvim, 1988

CURSO DE KARATÉ COM MESTRES INTERNACIONAIS

[No Colégio de Bustos]

Nos dias 3 e 4 de Março, com o apoio da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, Junta de Freguesia de Bustos e do Colégio Frei Gil, vai realizar-se um Curso de Karaté, com a presença de dois mestres internacionais - Dirk Heene, belga e Velibor Dimitrijevic, sérvio - membros do Conselho Técnico da Shotokan Ryu Kasé Ha Instructors Academy.

Festejando os 30 anos do CKA e os 25 anos de Karate no concelho, conta-se com a presença de cerca de 250 atletas oriundos de vários pontos do país e ainda de outros países da Europa. A organização apela aos atletas e respectivas famílias a assistir ao treino de Domingo, das 10H30 às 12H00, no Pavilhão do IPSB.
(inRegião Bairradina, 23.02.2007)

20 de fevereiro de 2007

18 DE FEVEREIRO: MANTEIGA SEM SAL


No passado dia 18 de Fevereiro comemorou-se o 87º aniversário da Junta de Freguesia de Bustos. O programa oficial cumpriu uma vez mais a tradição de, no Dia de Bustos, a Junta de Freguesia promover uns festejos sem sal nem sabor.
O programa arrancou as 8:00 horas com uma salva de 21 tiros seguindo-se uma missa solene, uma romagem ao cemitério com deposição de flores aos mortos e, para cessar as comemorações oficiais, uma sessão solene no salão nobre da Junta de Freguesia de Bustos, nada esclarecedora sobre o que foi o dia 18 de Fevereiro de 1920. Do programa não constou a narração dos feitos dos obreiros que permitiram que a data fosse agora assinalada, não constou uma homenagem aos bustuenses que, arriscando o bem-estar pessoal, lutaram afincadamente pela separação da Mamarrosa.

O “Notícias de Bustos”, numa feliz iniciativa, promoveu uma homenagem a Jacinto dos Louros, pelo que um grupo de bustuenses se deslocou ao cemitério de Ílhavo para depositar uma coroa de flores no túmulo do primeiro presidente da Junta de Freguesia de Bustos. Estiveram igualmente presentes alguns dos familiares daquele que dedicou os melhores anos da sua vida lutando pelo progresso e afirmação da terra onde nasceu. Na ocasião também foram recordados todos os outros bustuenses que tiveram um papel importante, dignificando e levando mais além o nome de Bustos por esse mundo fora.
Como os familiares de Jacinto dos Louros tiveram o gosto de vir a Bustos acompanhar as comemorações do 18 de Fevereiro, foi muito positivo que a filha mais velha de Jacinto dos Louros tivesse sido convidada a participar na sessão solene, onde também estiveram presentes o Presidente da Câmara e da Assembleia Municipal, o presidente do Orfeão, o pároco, assim como os presidentes da Junta e Assembleia de Freguesia.
Espero e faço votos que, no futuro, a Junta de Freguesia organize uma comemoração mais rica, dinâmica e, de preferência, envolvendo as forças vivas da nossa terra. Algo tem de mudar para que Bustos cresça e recupere o orgulho perdido.


Alberto Martins

18 DE FEVEREIRO: COM EMOÇÃO


A presença de D. Cândida Guerra, filha de Jacinto dos Louros, na sessão solene da Assembleia de Freguesia que assinalou o 87º aniversário da criação da freguesia de Bustos, tornou-se no momento mais significativo de todas as cerimónias.
A sala de sessões do parlamento da freguesia, símbolo da nossa democracia, recebeu e deu a palavra à filha daquele que foi o nosso primeiro presidente e o homem que protagonizou a luta dos bustuenses pela criação da freguesia. Foi um momento de grande simbolismo e emoção. Um momento de reencontro com a nossa História.
Orgulhosa e emocionada Cândida Guerra, de 88 anos, também ela nascida em Bustos, dirigiu à assembleia as seguintes palavras:

“Como filha mais velha presente, e em nome de toda a família quero agradecer com toda a sinceridade, a simpatia, o apreço e a gratidão que o meu pai ainda inspira, e prestar igualmente a minha homenagem com o respeito e admiração a esse conterrâneo que sempre se sentiu exilado longe de Bustos, mas que nunca deixou de lutar, e às vezes em circunstâncias bem difíceis, pelos ideais republicanos que desde muito novo perfilhou.
Esses ideais formaram o seu carácter e orientaram toda a sua vida.
É, por isso, bem claro para mim que o meu pai, Jacinto Simões dos Louros, foi um pequeno herói ao serviço de uma grande causa.
Não posso, também, deixar de salientar o papel fulcral que a minha mãe, Maria da Conceição Guerra, desempenhou como garante da actividade política do meu pai.
Como esposa aceitou o desconforto, a agitação e as ameaças a que os inimigos políticos do meu pai os sujeitaram, na tentativa desesperada de resgatar a importância e os privilégios que o regime deposto lhes garantia.
Como professora permaneceu sempre respeitada e reconhecida pelo empenho e rigor com que exerceu a sua actividade.
Ensinou e educou com dedicação todos os seus alunos e amou Bustos como se aqui tivesse nascido.

Os melhores anos dos dois foram aqui passados.

Durante toda a sua vida o meu pai acalentou a esperança e a convicção de que o flagelo anti-democrático da ditadura desabaria.
Infelizmente, já não festejou o 25 de Abril...”

19 de fevereiro de 2007

A CEGADA ESTÁ NA RUA


O grupo carnavalesco, “Companheiros da Alegria - Recordar é Viver”, está na rua. Depois de um ano de interregno Carlos Alves e a sua trupe retomam a tradição cantando, dançando e criticando. A grande novidade deste ano vai para o recuperar da tradição burlesca, bem presente no diálogo com um bêbado, figura cómica que a brincar vai dizendo grandes verdades.
Desta vez com apoio camarário, a autarquia disponibilizou o autocarro para o transporte dos foliões, a cegada apresenta-se amanhã no Sobreiro ( 14:00 horas), Montouro ( 14:45 horas), Mamarrosa (15:30 horas), Palhaça ( 16:30 horas) e Bustos (17:30 horas).

18 de fevereiro de 2007

TENDER O TEMPO

Eu era transmontana, de um sítio apartado da Bairrada. O tempo e o modo também eram desiguais.



Em Bustos as mulheres esfalfavam-se nos aidos. Em Freixo as hortas eram dos outros. Nem sempre havia jeiras. Em Bustos trabalhava-se ao Domingo. Não havia tardes ao sol a fazer renda. Havia tremoços à sobremesa de Domingo. A ceia, à semana, era escoado. Em Freixo, às vezes, “fresca da nova”, sardinha da Ti Chica, vendida à porta de casa e assada nas brasas vivas do lume. Em Bustos o jantar era ao almoço e o almoço madrugava.



A Srª Celeste, a vizinha, também não era de Bustos. Era gandaresa de Quiaios. O tempo escorria-lhe mais lento. Não que não trabalhasse. E muito. Ela é que tinha aquele jeito de o tender. Ela tinha uma lareira, um lar, como em Freixo se dizia, e dava-me bilharacos ao redor do lume. Uma palavra, um sorriso, uma bonança. Vez à vez. Vestia roupas escuras, a assentar-lhe a viuvez. As quatro filhas da Srª Celeste eram todas lindas e costuravam. O filho construía a vida pelas Franças.



– Srª Celeste, quer ir comigo ao cinema?
– Ao cinema? Há que vidas que não vou!


A fita era a “Francisca” do Manoel de Oliveira.
O salão, curioso no começo, ia serenando mais e mais. Desistindo.


– Srª Celeste, se quiser, podemos ir.
– Não, o Domingo é o dia do vagar.


Na tela navegava a mestria de Oliveira, baloiçava uma carruagem, como berço de menino, lançavam-se palavras ao vazio, colava-se a desgraça aos amores de Fanny Owen, pendia a morte sobre a vida, com tocata do além.


Ressonava um resistente a sono solto.
A Srª Celeste presa a Oliveira.
A tender o tempo.

Escrito por odete ferreira


in amirgã

15 de fevereiro de 2007

BUSTOS EM DISCUSSÃO NO SENADO (1920)

No dia 10 de Fevereiro de 1920, no Palácio do Congresso da República, em Lisboa, reuniu-se o Senado. Entre a ordem de trabalhos encontrava-se a proposta de lei nº 243, criando a freguesia de Bustos. A discussão, segundo o diário das sessões, decorreu assim:
O Sr. Presidente: — Vai ler-se, para ser discutida, a proposta de lei n.° 243. Lê-se na Mesa. É a seguinte:
Proposta de lei nº 243
Artigo 1º- E criada a freguesia de Bustos, no concelho de Oliveira do Bairro, ficando constituída e limitada pelas povoações de Bustos, Coladas, Sobreiro, Azurveira, Barreira, Picada, Quinta Nova, Póvoa, Cabeço e Porto do Vouga.
Art. 2º - A freguesia de Mamarrosa, da qual são desanexados aqueles lugares, fica constituída e limitada pelas povoações de Mamarrosa, Quinta do Gordo, Martinhas, Malhapãozinho, Quinta da Gala, Azenha Nova, Quinta do Cavaleiro e Caneira, lugares estes que já lhe pertenciam.
Art. 3º - Fica revogada a legislação em contrário.
Palácio do Congresso da República, 14 de Janeiro de 1920. Domingos Leite Pereira— Baltasar de Almeida Teixeira— António Marques das Neves Mantas.

Senhores Senadores, má prática parlamentar ou regimental é a que faz baixar a uma Câmara, desacompanhada dos documentos que o instruem, qualquer projecto de lei apresentado e aprovado na outra Câmara do Congresso. Assim veio para o Senado este projecto com os documentos apensos, a que alude o parecer da respectiva comissão da Câmara dos Deputados. Temos de nos louvar no exame feito a tais documentos por aquela comissão? Embora de pouco rigor seria um critério de aceitar, à falta, de melhor.
Sem menosprezo, porém, seria mais curial cotejar directamente a documentação. É isso que se buscou fazer, com avocar os documentos arquivados. Por eles se prova a providência legal, quanto ao factor de população e ao referendum da pretensão constante do projecto, qual seja a criação duma nova freguesia ou paróquia civil — a de Bustos, desanexada da Mamarrosa, ambas do concelho de Oliveira do Bairro.
Em menos palavras: esta vossa comissão opina pela aprovação do projecto de lei.
Senhores Deputados.— A vossa comissão de administração pública é dê parecer que o projecto n.° 111-X, da iniciativa do Sr. António da Costa Ferreira, deve ser aprovado. Depois de examinados os documentos apensos, ao projecto, verifica-se que está em harmonia com a lei n.° 621, de 23 de Junho de 1916, artigo 3º e como a criação da freguesia, nos termos do artigo 4.° da citada lei, depende da autorização legislativa, é essa a razão por que nada há a opor-se à aprovação do projecto.

"A freguesia da Mamarrosa, do concelho de Oliveira do Bairro, que se desagrega para dar lugar às duas freguesias, era o velho e inexpugnável baluarte do feudal Visconde de Bustos. Os republicanos do concelho tão intensa propaganda desenvolveram e tão bem a dirigiram, que fácil se lhes tornou a organização dum núcleo numeroso de resistência republicana no lugar da Mamarrosa, progredindo Bustos, mais lentamente, porque sendo a terra de residência do soba estava sob o seu olhar vigilante e receava as suas ameaças. Mas a propaganda constante e pertinaz, com os seus comícios, manifestos, por meio da imprensa e ainda outros factores de combate, conseguiu vencer e dominar na freguesia a influência do monárquico visconde. Hoje a maioria da freguesia é republicana e livre daquela influência. Há porém rivalidade e dissenções constantes entre os lugares da Mamarrosa e Bustos, que vêm de longa data, e se opõem à sua republicanização quase total, sendo objecto de discussão eterna o lugar da sede da freguesia, A junta de freguesia é republicana, mas a casa de reunião da junta, querem-na uns na Mamarrosa e outros em Bustos.
De maneira que a República aproveita com a criação da nova freguesia, acabando com as lutas entre aqueles povos, que acordam com júbilo em que se produza dentro em breve este facto. Cada uma das freguesias fica com 1.200 ou mais habitantes. Fez-se o referendum em Bustos e está nas condições exigidas pelo Código Administrativo. Por conveniência dos povos daquela região e da República, é feito o seguinte projecto de lei:

Artigo 1.° É criada a freguesia de Bustos, no concelho, de Oliveira do Bairro, ficando constituída e limitada pelas povoações de Bustos, Coladas, Sobreiro, Azurveira, Barreira, Picada, Quinta Nova, Póvoa, Cabeço e Porto do Vouga.
Art. 2.° A freguesia de Mamarrosa, da qual são desanexados aqueles lugares, fica constituída e limitada pelas povoações de Mamarrosa, Quinta do Gordo, Martinhas, Malhapãozinhp, Quinta da Gala, Azenha Nova, Quinta do Cavaleiro e Caneira, lugares estes que já lhe pertenciam.
Art. 3.° Fica revogada a legislação em contrário.
-António da Costa Ferreira».

O Sr. Presidente.: — Está em discussão.
O Sr. Jacinto Nunes: — Assino o parecer porque me disseram que se tinha, realizado o referendum, o que vou verificar.
Pausa.
O Orador: — Asseveram-me que foi observado o disposto na lei n.° 621; não tenho pois dúvida em assinar.
Mais nada.
O orador não reviu.
O Sr. Machado Serpa: — Sr. Presidente: vindo este projecto da Câmara dos Deputados quis que me fornecessem os necessários documentos. Um funcionário do Congresso disse-me que os documentos não podiam ser entregues porque pertencia à outra Câmara e não era do Regimento virem os projectos da outra Câmara acompanhados dos documentos que os instruem. Acho isso extraordinário!
O Sr. Ferraz Chaves: — Pede a palavra para fazer idêntica declaração à do Sr. Machado Serpa.
Como único representante presente aqui daquele distrito, declaro que efectivamente se fez o referendum, e acordo houve entre os da freguesia nova com os da antiga. Não há relutância da parte daqueles de quem se desanexam. Os lugares que formam a nova freguesia, no que respeita à população, excedem o dobro do mínimo que a lei exige.
O orador não reviu
O Sr. Pais Gomes: — Não é para discutir o projecto que pedi a palavra. Desejo referir-me ao que acabou de dizer o Sr. Machado de Serpa, e que reputo grave, quanto ao exame de documentos relativos ao projecto era discussão. O não serem concedidos ao Senado os documentos, que instruem o projecto constitui uma lesão gravíssima dos direitos do Senado para a qual chamo a atenção de V. Ex.a a fim que reclame a plenitude dos seus direitos para esta casa do Congresso.
O orador não reviu.
O Sr. Machado de Serpa : — Chega-me agora às mãos um outro projecto para fim idêntico que não traz documento que prove ter sido feito o referendum,
O Sr. Presidente: — Vou enviar um ofício ao Sr. Presidente da Câmara dos Deputados pedindo para que os projectos remetidos ao Senado sejam acompanhados de todos os documentos, que lhe dizem respeito.
Posto à votação o artigo nº1 é aprovado.
São sucessivamente lidos e aprovados, sem discussão, os restantes artigos.
O Sr. Ferraz Chaves: — Requeiro a dispensa da última redacção. É dispensada.

14 de fevereiro de 2007

O DIA DECISIVO NA LUTA PELA SEPARAÇÃO DA MAMARROSA

Para a homenagem de 18 de Fevereiro de 1960 Jacinto Simões dos Louros tinha preparado um discurso onde narrava alguns dos momentos decisivos na luta pela emancipação da Mamarrosa. A pouca luz que iluminava o palco e uns olhos já cansados não lhe permitiram a leitura de tão importante documento, pelo que acabou por improvisar a sua intervenção na cerimónia. Mas uns meses depois, em carta de três de Maio, escreve a Vitorino Reis Pedreiras dizendo:
“Incluso envio uma cópia do que tinha escrito para ler na comemoração dos 40 anos da criação da freguesia que a falta de luz não permitiu. Como uma grande parte da gente nova não conhece os trabalhos que esse facto originou, e até muitos dessa época o desconhecem, a razão porque lhe envio essa cópia, para a tornar conhecida de todos pois que só o meu amigo e compadre Dr. Pato a leu.”
O documento acabou por ficar no fundo de uma gaveta até que hoje é finalmente divulgado, cumprindo-se assim a vontade do seu autor.

Jacinto dos Louros com um neto na Costa Nova


Exma. Comissão.



Os meus agradecimentos o pelo convite que V. Exas. tiveram a gentileza de me enviar para assistir a esta festinha comemorativa da criação desta freguesia. Tal acontecimento constitui padrão de honra para o povo de Bustos e ainda hoje é, e será para os vindouros, um marco a atestar a dedicação de quantos, pelo engrandecimento da terra onde nasceram. Encheu-nos de satisfação e constitui o coroamento de uma obra erguida com grande persistência, desinteresse e bastante sacrifício pessoal. Por isso é justa a vossa gratidão e aceito-a, na medida em que ela me é atribuída, mas nesta obra fui acompanhado por um grupo de homens de bem desta terra que por isso mesmo merecem também o vosso preito, muitos dos quais já faleceram. Mas mortos ou vivos, eu aqui os lembro sem os nomear porque foram todos os republicanos de Bustos, como também esse grande vulto já falecido que foi o Sr. Dr. Barbosa de Magalhães, que junto do governo patrocinou as minhas pretensões. Pelos que ainda são vivos, como eu, e em memória daqueles que já faleceram agradeço-vos o terdes lembrado da data da criação da nossa freguesia e a maneira como o lembrais. Muito obrigado.

ARRISCANDO A PRÓPRIA VIDA

E já agora a proveito a oportunidade para dizer que desde algum tempo eu vinha acalentando comigo a ideia de promover a criação da freguesia, em consequência das rixas constantes entre Mamarrosa e Bustos, rixas que iam sempre aumentando, quer por exigências injustas da sede da freguesia, quer por incapacidade de certos líderes locais. Alguns tendo originado conflitos gravíssimos que só a nossa intervenção evitou. Politicamente trabalhei sempre no sentido de fortalecer certas posições que permitissem, com a acção do tempo, alcançar a emancipação administrativa da minha terra. Trabalhando muito em tal sentido. Travámos duras lutas, arriscando muitas vezes, e não poucas, a própria vida e o bem-estar familiar. Tivemos grandes canseiras, mas também tivemos a compensação de atingirmos uma força tal que não podia deixar de ser atendida nas justas pretensões que se empenhasse.
Não vou maçar-vos com ao relato pormenorizado da conquista dessa força que obtivemos, através de actos praticados em largo período de tempo, porque isso demoraria muitas horas a contar mas não fujo à tentação de referir dois factos dessa força que conquistámos e por via da qual conseguimos a criação desta freguesia.
Quando fui eleito vogal e nomeado presidente da Junta de Freguesia da Mamarrosa, em 1915, apresentei no acto de posse o meu programa, que era de serem divididos os rendimentos líquidos da freguesia em 50% para a Mamarrosa e 50% para Bustos. Os elementos da sede protestaram contra o meu programa, mas ao fim e ao cabo, aparentemente, conformaram-se em virtude da nossa justa intransigência. E digo justa porque os rendimentos da sede eram muito inferiores aos de Bustos.
Em consequência desse meu programa Bustos alcançou uma posição que até ali nunca tivera. Dela só podíamos caminhar para a frente.

A ELEIÇÃO DE 1918

Vem depois a eleição da Junta de 1918 para a qual resolvemos, os republicanos da Mamarrosa e Bustos, disputar a maioria, sendo escolhidos dois representantes da sede e dois de Bustos, ficando a minoria para os monárquicos. Apesar desta resolução que tomámos em reunião conjunta, os republicanos e monárquicos da Mamarrosa vieram a fazer um acordo secreto para a oposição de Bustos no acto eleitoral. Como? Cortando os nomes dos representantes de Bustos nas listas e escrevendo o nome de João dos Reis. Mas o golpe não produziu efeito porque, conhecedor do facto há última da hora, ainda pude neutralizá-lo, levando os eleitores de Bustos a utilizarem o espírito do mesmo acordo mas em sentido contrário. E o resultado, depois na contagem das listas após o acto eleitoral, foi este: Bustos ficava na Junta com os dois representantes da maioria e com o da minoria. Claro, com este reverso com que não contavam, porque não sonhavam que o segredo fosse conhecido, os republicanos e monárquicos da Mamarrosa deram cavaco, e daí o terem resolvido, como represália, que os seus dois representantes não tomassem posse, como não tomaram. Durante algum tempo a Junta só funcionou com os representantes de Bustos.

APARECE O DR. BARBOSA DE MAGALHÃES



Podia eu, naturalmente, como presidente e de harmonia com a Lei chamar os suplentes, mas achei preferível não o fazer, manter em aberto o problema perante as instâncias superiores, e dar-me probabilidades de indicar a criação desta freguesia como única solução, e lá em cima admitirem-na.
Meu dito, meu feito. A indagar da questão política da freguesia aparece um dia em minha casa o Senhor Dr. Barbosa de Magalhães a quem eu pus, com lealdade, ao corrente do que se passava com a Junta de Freguesia sem os representantes da sede, por estes se recusarem a tomar posse. Momentos depois apareceram a bater-me à porta um grupo de republicanos da Mamarrosa que pretendiam falar com o Exmo. Sr. Barbosa de Magalhães. Mandei-os entrar e postos frente a frente comigo, pela própria boca dos homens da Mamarrosa pôde aquele ilustre político verificar que não fui eu quem lhe não quis dar posse, como eles o tinham informado, mas sim eles que não a quiseram tomar.
Em face desta prova diz-lhes: Os senhores não tomaram posse até agora mas vão tomá-la agora. O falecido senhor António Simões dos Santos diz: Nós não podemos tomar posse porque os nossos amigos diziam-nos que este senhor sempre nos tinha levado a beber água sem a gente querer. O Sr. Dr. Barbosa de Magalhães diz-lhes: Os senhores meteram-se num beco sem saída. Agora o que querem que eu lhes faça? Muita paciência tem tido o senhor Jacinto dos Louros, porque já vi que ele conhece bem a Lei e não quis chamar os suplentes para os não deixar mal colocados e os senhores teimam em não querer tomar posse. Repito: o que querem que eu lhes faça?

Como ninguém respondeu eu aproveitei esse silêncio e pedi licença para dizer: Como Vª Ex.ª há pouco disse, e muito bem, estes senhores meteram-se num beco sem saída. Se Vª Ex.ª concordar e estes senhores também eu vou indicar a única solução adequada ao problema de que estes senhores foram causa. Está mais do que provado de que não há possibilidades de nos podermos entender enquanto não estivermos separados.
É uma velha aspiração da minha terra emancipar-se para por cobro a estas rixas que vem de longe. Julgo ter chegado essa oportunidade de realizar essa justa aspiração para bem de todos.
É a solução que me permito indicar a V. Ex.ª para o problema que estes senhores levantaram, e eles mesmos hão-de reconhecer que é o meio para evitar grandes conflitos, que é de toda a conveniência evitar. Em face da minha proposta o Exmo. Sr. Dr. Barbosa de Magalhães, indagou dos representantes da Mamarrosa se concordavam comigo, ao que eles responderam: Em função do caminho que as coisas tomaram agora concordamos. Então o Exmo. Sr. Dr. Barbosa de Magalhães rematou a conversa com estes dizeres: O Sr. Jacinto dos Louros trata do plebiscito, e tudo quanto for necessário do Governo diga-me, porque tudo lhe será concedido.
Esta foi a fase final da luta que travámos para a criação desta freguesia, da qual saímos vitoriosos para honra e prestígio da nossa terra, criando-lhe assim esse padrão de glória. que fica eternamente a atestar aos vindouros o bairrismo e a dedicação dos republicanos dessa época.

Jacinto Simões dos Louros

13 de fevereiro de 2007

1º DE JANEIRO DE 1960 - COMISSÃO DE MELHORAMENTOS PROMOVE ASSEMBLEIA GERAL

No ano de 1960 também aconteceu
Junho, 16 - A Revolta de Mueda em Moçambique. Resultado cerca de 500 mortos.
Agosto, 14 - Morte de Jaime Cortesão
5 de Outubro - no 50º aniversário da Rotunda o Presidente Américo Tomás põe flores no túmulo de Manuel Arriaga no cemitério dos Prazeres.
Mário Soares é preso
...
De Belino Costa:
"Panfletos espalhados por toda a freguesia, colados nas montras dos cafés, nas portas das tabernas, aparecem a convidar a população para uma assembleia magna no Bustos Sonoro Cine ..."
Notícias de Bustos, 5.2.07, “1 DE JANEIRO DE 1960: ASSEMBLEIA POPULAR EM TEMPO DE DITADURA”.

Os panfletos eram a ' circular- convite' que foi redigida por Arsénio Mota, membro dinamizador e aglutinador de "um escasso grupo de ardorosos bairristas"[1] congrgados na Comissão de Melhoramentos.
Esta circular já continha as linhas programáticas a serem desenvolvidas em Bustos. Ainda hoje, uma ou outra realização está por cumprir.
[1] Arsénio Mota, Bustos - elementos paraa sua história, edição da Associação de Benefic~encia e Cultura de Bustos, 1983.
Eis a circular (com ligeira modificação na apresentação)
Comissão de Melhoramentos de Bustos
1ª Assembleia Geral (circular – convite)
….
"Conterrâneos bustoenses :
A nossa terra não é uma povoação qualquer. E nós, povo de Bustos, temos um princípio e um fim que é só nosso e apenas a nós compete realizar, para glória de nós mesmos.

Em 18 de Fevereiro de 1920 criou-se esta freguesia, quer dizer, há apenas trinta e nove anos. Quanto cresceu a nossa terra neste curto período de tempo! Cresceu tanto que se tornou depressa modelo de outras freguesias conhecidas, paradigma, exemplo de progresso a seguir. E isto honra a nossa capacidade de trabalho, glorifica a chama inapagável do nosso bairrismo!

Antigamente foi a Estação dos correios, a escola, o clube recreativo, a feira bi-mensal, a luz eléctrica, o clube desportivo; agora são os telefones automáticos e a nova Estação postal, a nova igreja, as indústrias, o comércio florescente, os modernos cafés», a piscina…

Mas se Bustos tem crescido, não se pode deixar de contemplar a necessidade orgânica de continuar, continuar sempre a crescer. As energias vitais de cada bustoense, do primeiro até ao último, são indispensáveis na tarefa comum da construção de uma Terra que nos mereça, como uma casa nossa. Todos são necessários, porque todos são bustoenses! Dormir à sombra dos louros já conquistados, quando podemos vir a merecer, a breve trecho, uma. «categoria» de Vila, é, pelo menos, uma renúncia criminosa.

Em Bustos tem-se falado, com insistência, de várias realizações e melhoramentos em perspectiva.

Lembramos aqui apenas estas:

1. Casa de Saúde
2. Colégio de Educação Secundária
3. A Igreja Nova
4. Agência Bancária
5. Agência de Viagens
6. Biblioteca Pública
7. Jornal semanal
8. Mercado semanal
9. Bair
[r]o de Casas Económicas
10. Aquisição do terreno da Feira para a Junta de Freguesia.

Quase todas estas realizações e melhoramentos estão dependentes apenas da iniciativa particular. E a Bustos sobram capitais e homens capacitados. Porque não estimular, então, a iniciativa particular, no sentido da concretização de todas (ou algumas) obras? Foi para responder a este quesito, que um grupo de conterrâneos de boa vontade e ideias arejadas se propôs organizar e pôr em funcionamento uma Comissão de Melhoramentos. E' para assistir à primeira Assembleia Geral que se convidam todos os bustoenses, sem excepção; por intermédio desta circular-convite.

A primeira Assembleia Geral. à qual deve assistir todo o povo da freguesia, terá lugar no próximo dia 1.° de Janeiro do vindouro 1960, às 4 horas da tarde, no Salão do Bustos Sonoro Cine.

Todos a assistir à sessão da Comissão de Melhoramentos, para o progresso da Nossa Terra!

A Comissão Organizadora

Dr. Jorge Micaelo
Dr. Assis Francisco Rei
Eng. Manuel Pato
Sr. Augusto Costa
Sr. Graciano Lusio
Sr. Arsénio Mota

...
(srg)

DIA DE BUSTOS/2007 NÃO OFICIAL HONRA A MEMÓRIA

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DIA DE BUSTOS
PROGRAMA OFICIAL DA JUNTA DE FREGUESIA DE BUSTOS
... Comemorações do dia 18 de Fevereiro, data da Elevação a Freguesia.

Programa:
08.00 h - Salva de 21 tiros

11.00 h - Missa Solenizada pelo Coral do Orfeão de Bustos

12.00 h - Romagem de Saudade ao Cemitério, com deposição de flores aos mortos

12.30 h - Sessão Solene no Salão Nobre, da Junta de Freguesia de Bustos

Será servido um Porto de Honra no final das comemorações nas instalações da Junta de Freguesia.


O Presidente da Junta de Freguesia
­­­­­­­­­­­­­­­________________________
(Manuel da Conceição Pereira)

...........................

Nota:
Este ano a previsível programação da Junta de Freguesia de Bustos para o Dia de Bustos inclui uma novidade: a celebração de missa acompanhada pela solene participação do Grupo Coral. – é também dia de festa aniversariante do Orfeão de Bustos.

Perante o vazio das celebrações oficiais do ‘18 de Fevereiro’ e o sistemático esquecimento das figuras e acontecimentos que ajudaram a construir a história de Bustos que o presidente da junta de freguesia de Bustos nos tem «brindado» ao longo dos seus reinados, chegou o momento de dizer: “Basta!”

Assim, uma comissão ‘ad hoc’ irá ao cemitério de Ílhavo prestar homenagem a Jacinto Simões do Louros, o grande obreiro e líder de deumgrupo de concidadãos que se bateram contra poderosos adversários locais para a criação da freguesia de Bustos.

Sendo 2007 o ano zero das comemorações do ‘Dia de Bustos’, o programa abrangerá outra(s) outras manifestação (ões) simbólica(s) em que os Bustuenses que ajudaram a engrandecer e que se sacrificaram pela sua terra não sejam esquecidos.

No entanto, aguarda-se que os discursos da sessão oficial na Sala da Assembleia de Freguesia tragam algum melhoramento (ou promessa) para o nosso terrunho.

“Abaixo os que pretendem destruir a história pré-colombiana de Bustos!”

“Viva o 18 de Fevereiro!”.
(participação pessoal de sérgio micaelo ferreira)

12 de fevereiro de 2007

REFERENDO SOBRE IVG: SIM VENCE

Resultados nacionais do referendo de ontem: Sim – 59,25%; Não – 40,75%; Abstenções – 56%.
*
No referendo de 1998 sobre a interrupção voluntária da gravidez o “não” venceu com uns escassos 51,3% dos votos, mas a percentagem das abstenções foi bem superior à de ontem.
Apesar de ter havido mais um milhão de votantes em 2007, ainda assim o número total não atingiu os 50% dos 8.832.628 eleitores inscritos, o que significa, de acordo com a Constituição, que o resultado deste referendo volta a não ser vinculativo.

Em 1998 respeitou-se o “não”, mantendo-se a lei penal inalterada durante 8 anos. Do mesmo modo, agora será respeitado o sentido do “sim”. Esta é a opinião quase unânime de políticos e analistas.
A tese dos que sempre defenderam a desnecessidade do referendo prevalecerá e bem.
Desde logo porque, em 1ª linha, se trata de alterar o artigo 142º do Código Penal, que passará a abranger numa das suas alíneas a despenalização da IVG “…se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde autorizado.
Seguir-se-á a regulamentação da lei, que envolve questões como a escolha dos estabelecimentos autorizados, a objecção de consciência dos profissionais de saúde, os procedimentos a adoptar relativamente à prática do acto e a inerente dimensão dos custos financeiros que o Estado suportará.

Importa ter presente que o Código Penal e em especial o seu art.º 142º não foram votados em referendo, antes resultaram de lei aprovada na Assembleia da República. Mas os limites da alteração legislativa a votar agora na AR terão de ser encontrados nos limites da pergunta referendada, isto é, nas 10 primeiras semanas de gravidez e em estabelecimento de saúde autorizado.

Cá por mim, não tenho dúvidas de que as grávidas ricas continuarão a ir a Espanha ou Inglaterra, nem que seja para garantir uma maior privacidade.
E as mulheres sem recursos financeiros? Irão sujeitar-se às mil e uma burocracias dos hospitais públicos, com a previsível devassa da sua vida privada? Alguém acredita que irão ser atendidas longe dos olhares da multidão?
E se a IGV for praticada em clínica particular devidamente autorizada, o Serviço Nacional de Saúde suportará alguma fatia dos custos? E se sim, qual?

As dúvidas que me assolam fazem-me pensar que pouco mudará se as mentalidades não evoluírem e se não houver um claro empenhamento da sociedade numa política de harmonização entre o chamado “direito à vida” e o “direito à IVG nas primeiras 10 semanas, por opção da mulher”.

O aborto sempre foi praticado em Portugal em larga escala, mas sob a maior clandestinidade e não será tão cedo que as mulheres portuguesas aceitarão sujeitar-se à via sacra dos serviços hospitalares, tal qual eles funcionam ainda hoje.

Em vez de esperar para ver,
é preciso intervir, para acontecer.
*
oscardebustos

SIM, MAS ...

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” foi a pergunta referendada em 11.02.2007.

Os resultados obtidos no País e em Bustos constam dos quadros seguintes.

A abstenção foi superior a 50%, ultrapassando, em Bustos, os três quintos dos inscritos.

No País, o “SIM” juntou mais de dois milhões de votos (excede ligeiramente um quarto dos eleitores inscritos) e o “NÃO” quedou-se pela franja do milhão e meio, representado um pouco mais de um sexto do eleitorado.

Em Bustos, o ‘SIM’ foi a opção de cerca de um sétimo dos inscritos, (313 votos) e o “NÃO” vai pouco além de um quinto do eleitorado local, atingindo 467 votos entre 2.161 eleitores inscritos.

Os ‘votos em branco’ alcançaram no País, 0,55% dos inscritos (que corresponde a 48.185 eleitores) e em Bustos 0,60%, (13 ). Bustos tem uma perccentagem ligeiramente superior (em 0,05%) à do País;

“Votos nulos”
. o País, com 0,30% do eleitorado (26.297 votos) ultrapassa metade dos “votos em branco”;
. e em Bustos, 0,14%, ( 3 votos) representa pouco menos do que a quarta parte dos ‘votos em branco’.

Conforme está confirmado pelos sucessivos resultados eleitorais, Bustos é uma fortaleza inexpugnável da direita e do centro-direita. Apesar do “Não” ter agregado 467 votos contra 313 do “Sim”, observando a repartição de votos nas duas Mesas, constata-se, com surpresa, que na «Urna 2» venceu a opção do ‘SIM’.

Por certo que este caso irá merecer alguma apreciação da parte das máquinas partidárias.
Ainda que esta "anomalia" não acarrete a mais pequena convulsão nas máquiansa partidárias do CDS ou do PSD.
Gráfico 1 (Urna 1)
Da leitura do gráfico 1, extrai-se: a opção do “Não” alcançou a vantagem de 16% dos respectivos votantes do “sim” e a soma das percentagens do “Sim” e do “Não” alcançam 37% dos votantes.

Gráfico 2 (Urna 2)
Do gráfico 2 extrai-se que a abstenção anda próxima dos dois terços do eleitorado (63,9%) e que as opções do “Não” e do Sim” atingem percentagens muito próximas, recolhendo o ‘Sim’ 18,7% (opção vencedora por estreita margem) e o ‘Não’ 16,5%.
A vitória da opção do ‘SIM’ na Mesa 2 foi a grande sensação dos resultados do referendo em Bustos, (como já está assinalado)

Gráfico 3 – Resultados das duas Mesas de voto de Bustos (em percentagem):
Em Bustos, a abstenção atinge uns expressivos 62,5% do seu eleitorado. [O peso deste absentismo deve provocar alguma preocupação à ‘classe política’ que quase tudo tem feito para afastar o cidadão de se preocupar com a ‘res publica’.]

O “Não” foi a opção de 21,6 % do eleitorado e o “Sim” alcançou 14,5% do eleitorado inscrito.

Os gráficos 4 e 5 permitem comparar a distribuição da percentagem dos votos expressos pelas quatro opções (“SIM”, “NÃO”, “Votos em Branco” e “Votos Nulos”) em cada uma das urnas da freguesia de Bustos.

Urna 1
O gráfico 4 mostra a maioria significativa alcançada pelo “NÃO” com 70,7% dos votos expressos contra 27,8% amealhados pelo “SIM”.

Urna 2
O gráfico 5 regista percentagem muito próxima entre asduas opções, com vantagem para o «SIM» : 45,7% dos votos expressos são a favor do “NÃO” contra 51,7% do “SIM”.

Do gráfico 6, pode-se extrair que cerca de dois terços dos votantes da freguesia de Bustos optaram pelo “NÃO”.
...
COMENTÁRIO DO FECHO:
A vitória do ‘SIM’ vem colocar na agenda política a problemática que envolve as condições sociais e pessoais relacinadas com a conservação da espécie através do tempo futuro e as sequelas adstritas à educação sexual, planeamento familiar, saúde, direitos, …

Mesmo que o “SIM” tivesse reunido uma expressiva votação, a elaboração do corpo jurídico terá de ser muito ponderada e não pode ser tratada em contra-relógio. O legislador tem de ter presente que a fronteira dos vencedores de hoje e os vencedores de ontem é muito difusa e, que a lei do estado tem de ser articulada na defesa da vida e proporcionando condições dentro da dignidade humana.

Votei na opção «SIM» por vários motivos e um deles foi o de não aceitar a hipocrisia do "estado de direito" que se permite (permitia) devassar a vida da mulher para depois vir a ser despenalizada.
Despenalização da interrupção voluntária da gravidez referendada,
SIM, MAS ...
sérgio micaelo ferreira (“Escrevam e anotem !”)

(nota; para editar o comentário é necessário clicar em # colocado antes de 'posted')

9 de fevereiro de 2007

SIM, VOU VOTAR


A questão do aborto é, todos o afirmam, uma questão de consciência. Há até organizações políticas (como é o caso do PSD) que não assumem uma “posição oficial” face ao referendo do próximo domingo porque, justificam, esta é uma questão de consciência. Querem assim dizer que cada um deve decidir em consciência e liberdade, pelo que o partido não se atreve a dar uma orientação de voto aos seus militantes. Significando isso que nem pessoas, nem grupos ou associações, nem o Estado devem atentar contra a consciência alheia e a liberdade individual.

Quem acredita que a vida começa no momento da fecundação ou quem defenda que todo o esperma é sagrado, pelo que só deve ser usado para procriar, tem todo o meu apoio e consideração. Nada tenho a contrapor. Mas é inadmissível que em nome de tão respeitosas convicções se persigam mulheres, se atire para a exclusão e clandestinidade uma das franjas mais carentes da sociedade. Não é sério, não é civilizado, não é cristão continuar-se a fazer de conta que o aborto clandestino não existe. Não é justo perseguir, podendo punir com prisão, quem mais necessita de ajuda, amparo e esclarecimento. É intolerável que por questões de fé se exclua do Serviço Nacional de Saúde os mais carenciados, aqueles que não podem ir já ali, a Badajoz.

Ir votar no próximo domingo e dizer SIM será uma afirmação de cidadania, mas também de tolerância e solidariedade. E de respeito pela consciência de cada um. E de consideração pela vida.

Belino Costa

MOURISQUENSE – UDBUSTOS (1 -2). AINDA JOGA NA SECRETARIA


MOURISQUENSE PROTESTA JOGO

O Mourisquense contesta um “erro técnico da arbitragem” no jogo com o Bustos, disputado a 5 de Novembro último, e que os “Pilatos” perderam por 1-2. Após o impasse criado pela Associação de Futebol de Aveiro, o clube vai fazer uma exposição dos factos à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Em causa está o facto de se encontrarem inscritos 19 atletas do Bustos na ficha de jogo.
Augusto Saraiva Santos, presidente da União Desportiva Mourisquense (foto), está agastado com a forma como o Conselho de Disciplina da Associação de Futebol de Aveiro está a encarar o “erro técnico cometido pelo arbitragem chefiada por João Salgueiro” no jogo frente ao Bustos.“Estou há um ano no futebol e enquanto aqui estiver quero estar de uma forma séria”, desabafou a SPD.O presidente do Mourisquense alega que o Bustos colocou 19 jogadores na ficha de jogo “e a lei não permite tais factos”. A exposição foi feita à AFA mas esta “não deu qualquer resposta até hoje, limitando-se a dizer que o Conselho de Arbitragem poderá punir o árbitro e mandar repetir o jogo”.
Augusto Saraiva Santos disse que já efectuou três reuniões com o presidente do CD da AFA, Almeida e Costa, mas “foram infrutíferas”. O caso vai agora avançar para a Federação Portuguesa de Futebol, uma vez que Augusto Saraiva Santos considera que “em parte alguma do mundo se joga com 19 jogadores”.
A ficha do jogo, a que SPD teve acesso, refere nas observações que “por motivos do jogador nº. 3 se ter lesionado no aquecimento jogou no seu lugar o jogador nº. 16 e no lugar do jogador nº. 16 entrou o jogador nº. 21, senhor Pedro Miguel Pereira Géni, cartão nº. 621158”.É exactamente a entrada em campo do atleta Pedro Géni, aos 80 minutos, que o Mourisquense contesta, alegando que “estiveram 19 jogadores ao jogo”.

SPD não conseguiu ouvir nenhum responsável do CD da AFA.
in Soberania do Povo

8 de fevereiro de 2007

18 DE FEVEREIRO DE 1960: DA HOMENAGEM À MANIPULAÇÃO

Foi grande o falatório sobre a reunião promovida pela Comissão de Melhoramentos, e a exaltação do prior, a ponto de ter dito que nada se podia fazer sem o seu consentimento e a sua participação. Entre o trabalho das vinhas, durante o jogo de cartas e do dominó, multiplicaram-se as críticas e os apartes, mas todos sabiam que o que o padre falara verdade. Ele não era apenas o líder espiritual da aldeia, também comandava os cordelinhos da política, não hesitando até em denunciar à polícia política as “ovelhas tresmalhadas”.
Nada se podia fazer contra a vontade de António Henriques Vidal que exigira um lugar à mesa. Inevitavelmente teriam que conciliar interesses. Diferentes, mas não antagónicos.
A Comissão de Melhoramentos queria homenagear os fundadores da freguesia, criar uma biblioteca, fundar um jornal, lutar pela instalação de uma casa de saúde, agitar consciências. O padre Vidal tinha outro objectivo, construir uma nova igreja. E sabia que só utilizando a seu favor a iniciativa, a energia, e a esmola de quem “não era frequentador da missa”, poderia lograr tal objectivo.
Jogou forte e claro na assembleia de 1 de Janeiro, sublinhando que não iria admitir iniciativas “independentes”. Os elementos da Comissão perceberam a mensagem, pois o pároco facilmente conseguiria proibir qualquer movimento, reunião ou homenagem. E os mais velhos logo se lembraram do ano de 1940, quando a festa do 18 de Fevereiro fora proibida pelo Visconde de Bustos, com o pretexto de que se podia ofender o povo da Mamarrosa.

O inevitável deu-se, e os festejos do 18 de Fevereiro de 1960 não só tiveram direito a missa, como contaram com a participação de dois padres, do presidente da Junta, Manuel Ferreira e do vereador da Câmara, Manuel dos Santos Vieira, todos ocupando lugar de destaque na mesa da sessão solene onde se homenageou Jacinto Simões dos Louros e Manuel dos Santos Pato.

O dia começou com uma salva matinal de 21 tiros. “Às 10,30 foi celebrada missa pelo pároco da freguesia, assistindo muito povo e as pessoas mais representativas do nosso meio” (…) “No final da missa, foi a romagem ao cemitério tendo tomado parte a irmandade de S. Lourenço”(1)

Jacinto Simões dos Louros, que tinha chegado a Bustos dois dias antes, participou na romagem e estranhou o ambiente religioso. Na ocasião nada disse, mas ficou de tal modo impressionado que, uns anos mais tarde quando escreveu as memórias, nas linhas dedicadas à homenagem de Bustos, apenas escreveu:
“Em 18 de Fevereiro de 1960 promoveu-se pela primeira vez a comemoração da criação freguesia em 1920, com um cortejo religioso ao cemitério em homenagem a todas as pessoas ali sepultadas.
Esse cortejo era justo mas devia de ser feito civilmente em homenagem aos republicanos, bem como a todas as pessoas que votaram o plebiscito favorável à criação da freguesia e até mesmo às pessoas que não podiam votar, mas que concordavam. Prestar homenagem a todos, inclusivamente aquelas pessoas que votaram contra, foi um autêntico contra senso. Eu discordei, nem logicamente podia concordar, muito embora no acto o não manifestasse, porque não quis ser desmancha-prazeres, como me poderiam alcunhar.” (2)

Pelas quatro da tarde, já com a presença de muito povo, no átrio do clube foram descerradas duas “lápides em honra de Jacinto Simões dos Louros, paladino e principal autor da criação civil da freguesia e do Dr. Manuel dos Santos Pato, paladino e autor da criação eclesiástica.” (3) Seguiu-se a sessão solene tendo falado: Dr. Assis Rei, Engenheiro Pato, Hilário Costa, Padre Rei (pároco da Moita), Vitorino Reis Pedreiras, Padre Vidal, Professor Pires, Jacinto Simões dos Louros e Dr. Manuel dos Santos Pato.
A sessão solene terminou com o discurso emocionado de Manuel dos Santos Pato, mas os trabalhos não terminaram aí.

Logo depois, quase sem intervalo, iniciou-se a segunda sessão pública da Comissão de Melhoramentos. Foi então que Padre Vidal fez alinhar o reforço trazido de fora, o reverendo Alfredo Simões Rei. Este, depois de dirigir à Comissão várias perguntas, introduziu a questão da construção da nova igreja.
“Indicou que a igreja devia ser a que tinha primazia em virtude de já estar em vias de começo. Depois dirigindo-se ao povo fez-lhe esta pergunta: Qual das obras considereis de maior urgência e necessidade, a igreja, a casa de saúde, ou outro qualquer melhoramento?
O povo não se manifestou. Nova pergunta do padre. É a igreja que quereis construir? Apenas meia dúzia de vozes disseram sim. Esta manifestação foi sintomática, não resta dúvida” (3)

Uns dias depois lia-se no “Jornal da Bairrada” (1):
“Tem sido o assunto de maior interesse nos últimos dias. Agitado o problema pela Comissão de Melhoramentos vemos que o povo quer começar por onde deve, a sua igreja nova. Tanto a Comissão de Melhoramentos como a Comissão da Nova Igreja estão de mãos dadas para levar a cabo uma obra que há 40 anos espera.”
A manipulação tomava forma impressa, espalhava-se a notícia de que a construção da nova igreja era a prioridade da recém formada Comissão de Melhoramentos. Isto escrito pelo correspondente local do “Jornal da Bairrada.” O qual respondia pelo nome de António Vidal e era padre. Em Bustos.

Belino Costa

(1) Jornal da Bairrada, 27 de Fevereiro de 1960, pag4
(2) Jacinto Simões dos Louros, Notas e recordações da minha vida particular e política, pag106
(3) Vitorino Reis Pedreiras, livro de memórias, volume VI

7 de fevereiro de 2007

QUEM SE LEMBRA DE CHICHARRO DE PAR?

A nova edição dos “Guardiãos (ou Guardiões) dos Sabores” teve lugar no dia 20 de Janeiro em casa do Fernando Silva, na Palhaça. Para aqueles que não puderam comparecer a esta assembleia, tais como os nossos conterrâneos residentes nos Estados Unidos (que já se queixaram de não poderem provar as nossas ementas tradicionais) tenho a dizer que desta vez comemos um prato de grande tradição local.

charros de par e camarinhas, de burro
Fechem os olhos e revejam na memória o chegar, a uma rua qualquer da nossa terra, de uma pessoa com um burro carregado de caixas de “chicharro de par” salgado ou fresco vindo de Mira ou da Vagueira. Quem se lembra das nossas mães comprarem um par de chicharros? Esses eram vendidos aos pares, enquanto as sardinhas e os carapaus compravam-se aos quarteirões ou fracções de quarteirões (naquele tempo, meio quarteirão eram treze). E quem se lembra de comprar, de vez em quando, camarinhas? Eram brancas ou rosadas, frescas e ligeiramente amargas, mas para os miúdos eram memoráveis e exóticas. Há vinte anos que não vejo camarinhas, quando nessa altura, as encontrei nos pinhais entre Mira e Tocha. Imagino que muitos dos mais novos da minha terra nem sabem o que são camarinhas pelas quais tanto ansiávamos quando éramos pequenos. Estas também vinham de burro das “areias (como se chamavam as terras para os lados do mar).
Pois o Fernando Silva foi à Vagueira e trouxe charro de par (o termo “charro” mudou com o tempo, mas garanto que não fumámos o peixe) e salgou-o durante três dias. Os charros que se compravam quando eu era pequeno eram maiores mas, infelizmente, os chicharros modernos já não têm o tamanho de outrora (este fenómeno de diminuição de tamanho e maturação sexual precoce de espécies é comum em peixes sobre-pescados).

guardiães/guardiões cumpridores
Estiveram presentes na ceia de “escorrido” de charro, batatas e grelos o Fernando Silva, Chico Pedreiras, Manuel Romão, António Sá, o “venerável” Agostinho Pires, Ulisses Crespo, Óscar Santos, Amândio “Azeiteiro” Ferreira, Milton Costa, Morais Aleixo, Mário Neto, José Carlos Santos e Paulo Barata.

Escorrido queria dizer antigamente que a comida era escorrida antes de a pôr na travessa ao contrário da sopa, por exemplo, que não se escorria. As pessoas muitas vezes usavam o termo “comida de azeite” porque se rega a comida com azeite (e tal como eu, também com vinagre).

aguardente bagaceira. método ancestral de medição do teor alcoólico
O chicharro estava salgadinho. A refeição foi regada com vinho tinto da Bairrada e no fim houve aguardente velha e aguardente bagaceira feita na máquina de destilar do pai de Fernando Silva, recordando velhos tempos quando eu também trabalhava na máquina de destilar do Manuel Simões da Costa (Manuel Serafim) e deliciava-me com o cheiro doce do bagaço e do produto. Tanto eu como o Fernando Silva tentávamos e conseguíamos fazer um produto final com um teor alcoólico por volta de 21-22 º Cartier (que corresponde a 51-52 % de álcool) quando destilávamos o bagaço nas máquinas de vapor. O teor alcoólico da aguardente bagaceira (ou de outra bebida forte) era fácil por observação do comportamento do “coral” (as bolhas que se formam quando se bate um copo meio de uma bebida alcoólica na palma da outra mão). Bolhas pequenas que se desfazem imediatamente indicam que o valor é menor que 20-21 º Cartier. Poucas bolhas grandes no coral indicam que a aguardente tem um teor alcoólico muito elevado. Bolhas com um diâmetro de 0,5 a cerca de 1,5 mm de diâmetro que perduram durante minutos indicam o teor alcoólico certo. Era, portanto, fácil calcular o teor alcoólico apropriado pela simples observação de bolhas num copo e, por isso, raramente se recorria a um alcoolímetro. O mais interessante é que por toda a Europa se calculava o valor alcoólico da mesma maneia quando não havia aparelhos para medir a densidade.
Eu sei que bebidas, com este teor alcoólico, são proibidas mas (só se permite até 40-43%, mas neste caso, a tradição é mais importante que a lei). Felizmente tenho mais de um almude de bagaceira guardado, porque sei que em poucos anos nada disto existirá na nossa terra.

guardiães/guardiões recordam antepassados
O Ulisses Crespo e o Fernando Silva disseram algumas palavras no fim. O Fernando Silva comoveu os amigos ao lembrar que estas ceias não serviam só para alguns amigos se juntarem para comer, mas sim para recordar os antepassados. Ainda há poucos dias foi lembrado o José Valério no “Notícias de Bustos” e espero que outras pessoas sejam continuamente lembradas para não nos esquecermos, nunca, de onde viemos.

para construir a história «escrevam e anotem!»
Há dias, ao reler um livro chamado “Holocaust” de Martin Gilbert, notei a história do massacre de muitos milhares de Judeus de Riga, na floresta de Rumbuli (onde já estive em homenagem a esses mortos). Nessa altura, o historiador Judeu de Riga, Simon Dubnov, gritou segundos antes de ser morto com um tiro na cabeça: “Escrevam e anotem!”. Dubnov estava a pedir aos possíveis sobreviventes do Holocausto que escrevessem tudo, porque todos os pormenores, por muito insignificantes que fossem, iriam contribuir para que as pessoas no futuro percebessem o que se passou nessa era de extermínio. Eu aconselho o mesmo, «Escrevam e anotem!» porque todos os pormenores, mesmo os mais insignificantes, ficam para a nossa história. E acreditem, … também estão a exterminar continuadamente e cada vez mais depressa os costumes, as tradições e a memória do nosso povo. Penso que em muitos casos, este extermínio é deliberado, propositado e com a finalidade de esquecer a história de uma terra.
E as histórias de Bustos precisam ser preservadas, nem que seja só em palavras.
“Escrevam e anotem !”

Milton Costa


“CHARROS DE PAR” À MESA DO HOSPITALEIRO FERNANDO SILVA

gente da nossa gente – 4


Em recente dia[1], o engenheiro FERNANDO SILVA, abriu as portas da sua elegante mansão, na Palhaça, para receber um grupo de amigos, na sua maioria Bustuenses. Tratava-se do grupo conhecido por ‘OS GUARDIÕES DOS SABORES”, (a saber), ... são o prolongamento dos que antes eram conhecidos por "os molhaqueiros" e "os taineiros",[2] mas agora este grupo incumbe-se de zelar pela continuação e cultivo das nossas velhas tradições.

Desta vez, tratava-se de um "ágape" de charros de par com batatas e grelos. O bodo ressaltava à vista, não só pela maestrina cozinheira (a irmã do anfitrião) e também por se desfrutar de um momento acolhedor.

O agasalho contou com a assistência de bons vinhos, de colheita particular com origem demarcada na zona de Sangalhos.

“charro de par”, porquê?
Antes da intervenção degustativa, abordou-se o porquê de se chamar "charro de par". Uns afirmavam que as suas mães lhes explicaram que antes vinham as sardinheiras e sardinheiros com charros salgados metidos um dentro do outro, outros insistiam porque eram vendidos a cada dois, ao fim concluiu-se que era charro de par, por ser "um par de dois".

Acto contínuo divagou-se sobre a degustação, afinando gostos e paladares: o Chico Humberto, jactando-se de batateiro credenciado, garantia que estes tubérculos estavam dentro da qualidade para este tipo de comida, e, para credenciar a robustez do seu parecer, afiançara que “de batatas sei eu”.

O amigo Manuel Romão, como técnico em panificação, foi insistente em afirmar, que “estes charros estavam bem adubados ao que ao sal se refere e foram preparados por quem é conhecedor”.

Mas o ponto culminante, tocou a Milton Costa, constante em afirmar que na qualidade de professor de microbiologia, era a pessoa indicada para falar de hortaliça, porque ademais de grelos sabia ele.

hora do “plus café”
Chegou a hora do "plus café" e com o decorrer das conversações que abonavam a dignidade do anfitrião, não podia haver silêncio, e foi aí que o “escriba destas linhas" ergueu a sua figura para expressar umas poucas palavras, por tão galharda recepção.

O anfitrião, não quis ficar impávido ante as palavras do "cronista da vila”, donde manifestou o regozijo da presença dos convivas. Fernando Silva foi terminante em afirmar que estas reuniões são salutares para a convivência e que contassem sempre com a sua modesta participação.

próximo capítulo[3]
Falou-se dos próximos encontros dos “Guardiões dos Sabores” e soaram algumas vozes a propor uma reunião para a xácara do Romão, o já conhecido “El Rincon”.

Oxalá que sim… que voluntários há sempre.

GENTE DE BUSTOS
a recordar os seus antepassados!

Ulisses Oliveira Crespo,
(Comendador, cronista da vila)
*
(notas de ‘altino’)
[1] Aconteceu no dia 20.01.2007
[2] “molhaqueiros”, fiéis ao culto da “molhaca” (?); “taineiros”; praticantes das ‘tainadas’
[3] Está marcado para o dia 08.02.2007

Correios de Salreu passam para a responsabilidade da Junta (Diário de Aveiro)

Os Correios de Salreu vão passar para a responsabilidade da Junta de Freguesia. A mudança acontece a partir da próxima segunda-feira, passando esta estação a estar aberta apenas durante a manhã.

A partir da próxima segunda-feira, o posto dos CTT de Salreu vai passar para a responsabilidade da Junta de Freguesia local. Os Correios mantêm-se no actual edifício, mas vão passar a estar abertos ao público apenas durante os períodos da manhã, entre as 9 e as 12.30 horas. Esta é a alteração mais significativa que a população irá notar. Joaquim Henriques, presidente da Junta de Freguesia de Salreu, garante que os serviços actualmente disponibilizados pelos CTT se irão manter. «A única alteração reside na redução do horário de funcionamento do posto dos Correios», afirma o autarca.

As negociações entre a administração dos Correios e a Junta de Freguesia de Salreu duraram quatro meses. «Penso que conseguimos um bom acordo», sustenta Joaquim Henriques. O protocolo firmado entre a Junta de Freguesia e os CTT prevê que seja a Junta a assumir a responsabilidade pelo funcionamento do posto dos Correios e será uma funcionária desta autarquia que estará no atendimento. Por seu lado, os CTT responsabilizam-se por dar formação à funcionária que irá prestar serviço no posto dos Correios e transferem para a Junta de Salreu uma verba mensal para fazer face às despesas que esta autarquia irá ter com o funcionamento da estação dos CTT.

José Manuel R. Silva
Diário de Aveiro, 6.02.2007. pg.s 18
http://www.diarioaveiro.pt/

5 de fevereiro de 2007

1 DE JANEIRO DE 1960: ASSEMBLEIA POPULAR EM TEMPO DE DITADURA

Aos anos heróicos da Primeira República que culminam, em 1920, com a consagração da independência política e administrativa de Bustos, seguem-se outros em que “ a velha ordem”, desta vez tutelada por Salazar, impõe o silêncio.
Instala-se a ditadura do Estado Novo (1926), chega a crise provocada pela Segunda Grande Guerra Mundial (1939-45) e o povo de Bustos labuta de sol a sol sem horas ou razão para grandes festas.

Quatro décadas de resistência surda passam, e o tempo, que parece quieto, não pára de rodar. Surge o ano de 1960, inicia-se uma década de grandes conquistas tecnológicas e científicas. Gagarine torna-se o primeiro homem a dar a volta à terra a bordo de uma cápsula espacial, os Estados Unidos lançam o primeiro porta-aviões movido a energia nuclear, em África multiplicam-se as independências, os Beatles invadem as telefonias e marcam uma nova ruptura geracional, é lançada no mercado a primeira pílula anticoncepcional.

Longe do fervilhar que parece contagiar o planeta, Portugal permanece fechado num destino agrícola, voltando as costas à renovação e à democracia. A abrir o ano de 1960 Álvaro Cunhal escapa-se do forte de Peniche (3 de Janeiro), enquanto os de Bustos vivem dias invernosos que provocam atrasos na labuta das vinhas. “Os poços deitam fora e nos terrenos de barro é impossível o trabalho.”(1)
A vida é dura, mas no meio da intempérie há quem sinta os ventos de mudança que atravessam o mundo. Estes, na urgência de agir, reúnem-se, organizam-se. O movimento, agora liderado pelos filhos da geração que no início do século XX se bateu por Bustos e pela República, surge com o título de Comissão de Melhoramentos de Bustos. A ambição dos seus fundadores vai muito para lá da mera retórica. Têm projectos, são gente de acção e numa corajosa afirmação de cidadania, desafiando o poder estabelecido, começam por devolver ao povo o direito à palavra.

Panfletos espalhados por toda a freguesia, colados nas montras dos cafés, nas portas das tabernas, aparecem a convidar a população para uma assembleia magna no Bustos Sonoro Cine. O desafio é claro e assumido. Na noite do primeiro dia do mês de Janeiro de 1960 o “Clube de Bustos” abre as suas portas para uma afirmação de democracia em tempo de ditadura.
“O povo, desejoso de encarar uma renovação séria da vida local” (2) ocorre em grande número, a sala fica cheia e com muita gente em pé. Há no ar um frémito de agitação, os olhos de muitos resplandecem. E a agitação cresce, o burburinho aumenta quando entra na sala o único homem que, verdadeiramente, não tinha sido convidado, o padre Vidal.

À mesa da assembleia, ricamente atoalhada e com uma flor no centro, tomam assento o Dr. Manuel dos Santos Pato, como presidente, ladeado pelos secretários, Tavares da Silva e Manuel Simões dos Santos (na foto). Sentados no palco estão ainda: Engenheiro Pato, Dr. Jorge Micaelo, Dr. Horácio, Arsénio Mota e Graciano Simões Luzio.

Envergando um elegante casaco comprido de três botões, o engenheiro Pato explica à assembleia as intenções da Comissão de Melhoramentos, as suas funções. Refere propósitos, objectivos, insistindo sempre na “ausência de qualquer espécie da carácter político ou religioso” (3) da iniciativa. Estão ali para “desenvolver o progresso da nossa terra e realizar necessários melhoramentos. Incita mesmo a que todos mandem instruir os filhos para que possam um dia “ser úteis à terra natal” (3).

Feita esta introdução levanta-se na plateia o Sr. Mário Caiado que pede para intervir. O que é aceite. Quer chamar à atenção para o facto de se estar numa terra de agricultores “classe que não está representada na comissão de melhoramentos” (3), com o que discorda. E conclui, dizendo ser desejável que também se dedique alguma atenção “aos pobres que enxameiam a freguesia” (3).
O povo responde com fartos aplausos. É então que o padre Vidal se levanta de forma intempestiva. Sentindo-se visado, talvez por considerar pertencer-lhe o pelouro dos pobrezinhos, apressa-se a exibir os galões e vem dizer, “que ele e umas senhoras dão uma sopa aí a uns cinquenta pobrezinhos, e que era muito justo que tal fosse divulgado.” (3)
Até já enviara a notícia para o jornal.

“Não custa dar o que é dos outros” (3), diz num aparte Mário Caiado. E o prior, nervoso, cortante, agitando os braços, ataca a mesa da assembleia, diz que ali deveriam estar sentadas as autoridades locais, entre as quais ele próprio. Responde o engenheiro Pato, mas o pároco, enrubescido, não aceita réplicas e insiste nas suas teses. O caso promete não ter fim…

Tentando sanar o conflito o engenheiro leva à votação da assembleia as propostas do reverendo. Seguem-se duas votações e por duas vezes as pretensões do pároco são esmagadoramente recusadas. O burburinho aumenta, ouvem-se alguns comentários jocosos, e o Padre Vidal, incapaz de aguentar a desfeita, “revolta-se, perde a tramontana e diz que tem todo o direito de estar naquela comissão, pois que não admite que haja qualquer entidade em que ele não intervenha. Que está colocado em Bustos por direito e como tal não admite a sua exclusão em qualquer parcela da vida da freguesia. O seu rancor é manifesto, as ameaças surgem, mas ele sai desautorizado daquela reunião, a primeira da Comissão de Melhoramentos.” (3)

Bem ao invés do exaltado pároco a força da Comissão fica reforçada. A adesão popular não só legitima os autores da ideia, como lhes concede apoio para novas iniciativas. Mas todos sabem que as ameaças do reverendo António Henriques Vidal não podem ser ignoradas, terão que lhe disponibilizar um lugar no palco.
Antes da sessão ser encerrada dá-se a chamada para a Comissão de “Mário Caiado, Manuel Augusto dos Reis, e da professora Benilde, filha do Ferreira da Silva” (3). Tudo acaba em grande concórdia, nem falta um Grande Final, a demonstração de que aquela reunião é apenas o início de uma marcha. Fica assente, é solenemente anunciado um novo compromisso: a organização dos festejos assinalando o 40º aniversário da criação da freguesia.

Todos partem na certeza de um novo encontro estar marcado para o dia 18 de Fevereiro.

(continua)

Belino Costa

1- Jornal da Bairrada, 2 de Janeiro 1960, pag4
2- Desdobrável editado pela Comissão.
3- Vitorino Reis Pedreiras, livro de memórias, volume VI