7 de fevereiro de 2007

Correios de Salreu passam para a responsabilidade da Junta (Diário de Aveiro)

Os Correios de Salreu vão passar para a responsabilidade da Junta de Freguesia. A mudança acontece a partir da próxima segunda-feira, passando esta estação a estar aberta apenas durante a manhã.

A partir da próxima segunda-feira, o posto dos CTT de Salreu vai passar para a responsabilidade da Junta de Freguesia local. Os Correios mantêm-se no actual edifício, mas vão passar a estar abertos ao público apenas durante os períodos da manhã, entre as 9 e as 12.30 horas. Esta é a alteração mais significativa que a população irá notar. Joaquim Henriques, presidente da Junta de Freguesia de Salreu, garante que os serviços actualmente disponibilizados pelos CTT se irão manter. «A única alteração reside na redução do horário de funcionamento do posto dos Correios», afirma o autarca.

As negociações entre a administração dos Correios e a Junta de Freguesia de Salreu duraram quatro meses. «Penso que conseguimos um bom acordo», sustenta Joaquim Henriques. O protocolo firmado entre a Junta de Freguesia e os CTT prevê que seja a Junta a assumir a responsabilidade pelo funcionamento do posto dos Correios e será uma funcionária desta autarquia que estará no atendimento. Por seu lado, os CTT responsabilizam-se por dar formação à funcionária que irá prestar serviço no posto dos Correios e transferem para a Junta de Salreu uma verba mensal para fazer face às despesas que esta autarquia irá ter com o funcionamento da estação dos CTT.

José Manuel R. Silva
Diário de Aveiro, 6.02.2007. pg.s 18
http://www.diarioaveiro.pt/

5 de fevereiro de 2007

1 DE JANEIRO DE 1960: ASSEMBLEIA POPULAR EM TEMPO DE DITADURA

Aos anos heróicos da Primeira República que culminam, em 1920, com a consagração da independência política e administrativa de Bustos, seguem-se outros em que “ a velha ordem”, desta vez tutelada por Salazar, impõe o silêncio.
Instala-se a ditadura do Estado Novo (1926), chega a crise provocada pela Segunda Grande Guerra Mundial (1939-45) e o povo de Bustos labuta de sol a sol sem horas ou razão para grandes festas.

Quatro décadas de resistência surda passam, e o tempo, que parece quieto, não pára de rodar. Surge o ano de 1960, inicia-se uma década de grandes conquistas tecnológicas e científicas. Gagarine torna-se o primeiro homem a dar a volta à terra a bordo de uma cápsula espacial, os Estados Unidos lançam o primeiro porta-aviões movido a energia nuclear, em África multiplicam-se as independências, os Beatles invadem as telefonias e marcam uma nova ruptura geracional, é lançada no mercado a primeira pílula anticoncepcional.

Longe do fervilhar que parece contagiar o planeta, Portugal permanece fechado num destino agrícola, voltando as costas à renovação e à democracia. A abrir o ano de 1960 Álvaro Cunhal escapa-se do forte de Peniche (3 de Janeiro), enquanto os de Bustos vivem dias invernosos que provocam atrasos na labuta das vinhas. “Os poços deitam fora e nos terrenos de barro é impossível o trabalho.”(1)
A vida é dura, mas no meio da intempérie há quem sinta os ventos de mudança que atravessam o mundo. Estes, na urgência de agir, reúnem-se, organizam-se. O movimento, agora liderado pelos filhos da geração que no início do século XX se bateu por Bustos e pela República, surge com o título de Comissão de Melhoramentos de Bustos. A ambição dos seus fundadores vai muito para lá da mera retórica. Têm projectos, são gente de acção e numa corajosa afirmação de cidadania, desafiando o poder estabelecido, começam por devolver ao povo o direito à palavra.

Panfletos espalhados por toda a freguesia, colados nas montras dos cafés, nas portas das tabernas, aparecem a convidar a população para uma assembleia magna no Bustos Sonoro Cine. O desafio é claro e assumido. Na noite do primeiro dia do mês de Janeiro de 1960 o “Clube de Bustos” abre as suas portas para uma afirmação de democracia em tempo de ditadura.
“O povo, desejoso de encarar uma renovação séria da vida local” (2) ocorre em grande número, a sala fica cheia e com muita gente em pé. Há no ar um frémito de agitação, os olhos de muitos resplandecem. E a agitação cresce, o burburinho aumenta quando entra na sala o único homem que, verdadeiramente, não tinha sido convidado, o padre Vidal.

À mesa da assembleia, ricamente atoalhada e com uma flor no centro, tomam assento o Dr. Manuel dos Santos Pato, como presidente, ladeado pelos secretários, Tavares da Silva e Manuel Simões dos Santos (na foto). Sentados no palco estão ainda: Engenheiro Pato, Dr. Jorge Micaelo, Dr. Horácio, Arsénio Mota e Graciano Simões Luzio.

Envergando um elegante casaco comprido de três botões, o engenheiro Pato explica à assembleia as intenções da Comissão de Melhoramentos, as suas funções. Refere propósitos, objectivos, insistindo sempre na “ausência de qualquer espécie da carácter político ou religioso” (3) da iniciativa. Estão ali para “desenvolver o progresso da nossa terra e realizar necessários melhoramentos. Incita mesmo a que todos mandem instruir os filhos para que possam um dia “ser úteis à terra natal” (3).

Feita esta introdução levanta-se na plateia o Sr. Mário Caiado que pede para intervir. O que é aceite. Quer chamar à atenção para o facto de se estar numa terra de agricultores “classe que não está representada na comissão de melhoramentos” (3), com o que discorda. E conclui, dizendo ser desejável que também se dedique alguma atenção “aos pobres que enxameiam a freguesia” (3).
O povo responde com fartos aplausos. É então que o padre Vidal se levanta de forma intempestiva. Sentindo-se visado, talvez por considerar pertencer-lhe o pelouro dos pobrezinhos, apressa-se a exibir os galões e vem dizer, “que ele e umas senhoras dão uma sopa aí a uns cinquenta pobrezinhos, e que era muito justo que tal fosse divulgado.” (3)
Até já enviara a notícia para o jornal.

“Não custa dar o que é dos outros” (3), diz num aparte Mário Caiado. E o prior, nervoso, cortante, agitando os braços, ataca a mesa da assembleia, diz que ali deveriam estar sentadas as autoridades locais, entre as quais ele próprio. Responde o engenheiro Pato, mas o pároco, enrubescido, não aceita réplicas e insiste nas suas teses. O caso promete não ter fim…

Tentando sanar o conflito o engenheiro leva à votação da assembleia as propostas do reverendo. Seguem-se duas votações e por duas vezes as pretensões do pároco são esmagadoramente recusadas. O burburinho aumenta, ouvem-se alguns comentários jocosos, e o Padre Vidal, incapaz de aguentar a desfeita, “revolta-se, perde a tramontana e diz que tem todo o direito de estar naquela comissão, pois que não admite que haja qualquer entidade em que ele não intervenha. Que está colocado em Bustos por direito e como tal não admite a sua exclusão em qualquer parcela da vida da freguesia. O seu rancor é manifesto, as ameaças surgem, mas ele sai desautorizado daquela reunião, a primeira da Comissão de Melhoramentos.” (3)

Bem ao invés do exaltado pároco a força da Comissão fica reforçada. A adesão popular não só legitima os autores da ideia, como lhes concede apoio para novas iniciativas. Mas todos sabem que as ameaças do reverendo António Henriques Vidal não podem ser ignoradas, terão que lhe disponibilizar um lugar no palco.
Antes da sessão ser encerrada dá-se a chamada para a Comissão de “Mário Caiado, Manuel Augusto dos Reis, e da professora Benilde, filha do Ferreira da Silva” (3). Tudo acaba em grande concórdia, nem falta um Grande Final, a demonstração de que aquela reunião é apenas o início de uma marcha. Fica assente, é solenemente anunciado um novo compromisso: a organização dos festejos assinalando o 40º aniversário da criação da freguesia.

Todos partem na certeza de um novo encontro estar marcado para o dia 18 de Fevereiro.

(continua)

Belino Costa

1- Jornal da Bairrada, 2 de Janeiro 1960, pag4
2- Desdobrável editado pela Comissão.
3- Vitorino Reis Pedreiras, livro de memórias, volume VI

4 de fevereiro de 2007

ELEIÇÕES PAROQUIAIS

Com o resultado previsto no último número deste jornal, efectuaram-se, no
Domingo, em Bustos a Mamarrosa, as eleições para a Junta do Freguesia.
Em Bustos não houve oposição aos candidatos apresentados pelo Partido
Republicano Português, o que veio demonstrar quanto o eleitorado daquela
nova freguesia está reconhecido pelos benefícios ultimamente recebidos.
Na Mamarrosa, os conservadores, monárquicos, ou lá o que são, prepararam-se para
a luta contra os democráticos, mas, à última hora, vendo que a derrota era
certa, abandonaram a urna.
Em contrário do que a oposição fizera constar, não houve qualquer incidente
desagradável, tendo entretanto comparecido no local uma força da Guarda
Republicana.
A Junta da Mamarrosa ficou constituída pelos cidadãos:— Manuel Simões dos
Santos, Manuel José de Almeida; Manuel Domingues Ferreira Tavares, Sebastião
Rodrigues da Silva e José dos Santos Pato (efectivos), José Gonçalves da Graça,
António Martins, José Francisco Frazão, Joaquim da Silva e Martinho Martins
(substitutos).

A de Bustos pelos cidadãos:
— Jacinto Simões dos Louros, Duarte Nunes Cipriano, Manuel Francisco Domingues
Júnior, Manuel dos Santos Rozário e Manuel da Silva Novo (efectivos).
Diamantino da Silva Tarrafo, Daniel Francisco Rei, Manuel Nunes Mota, Artur
Baptista e Sebastião Grangeia Martins (substitutos).
A Alma Popular saúda os seus correligionários eleitos, bem como o povo daquelas
duas freguesias, na convicção de que os novos corpos administrativos saberão
dignamente cumprir o mandato que lhes acaba de ser confiado.

“Alma Popular", 15 de Maio de 1920.

2 de fevereiro de 2007

PARABÉNS!



Ele é um homem de Fevereiro, um homem de Bustos. Nasceu em 2 de Fevereiro 1923, “no tempo da enxada e da picareta”, faz hoje 84 anos. Mário Reis Pedreiras, o nosso Presidente da Assembleia de Freguesia, apesar da provecta idade continua activo, dinâmico, e sempre empenhado civicamente.
Ele é o exemplo vivo da força bustuense. Já viveu muitos anos, mas ainda não chegou à condição de velho. Pois que viva muitos mais. E com saúde!

1 de fevereiro de 2007

BUSTOS: 1920-2007


A lei nº 942, de 18 de Fevererio de 1920, criou a freguesia de Bustos. Cumpre-se este mês o 87º aniversário desse momento fundador da nossa autonomia administrativa e política. Ao longo deste mês iremos invocar alguns dos momentos decisivos dessa batalha política travada pelos republicanos de Bustos, falaremos de algumas das personagens que mais se bateram pela nossa “independência”, revelando alguns documentos inéditos. Como sempre tentaremos olhar Bustos segundo múltiplas perspectivas. Ainda que a imagem seja apenas uma, é enriquecedor diversificar as formas de olhar, admitir diferentes perspectivas. A pluralidade é sinónimo de democracia. Por ela se tem batido gerações de bustuenses, na certeza de que tão importante quanto aquilo que nos une são as nossas diferenças.
Decisivo é sermos livres. E tolerantes.



















BC

31 de janeiro de 2007

LUCIANO FREITAS - UM HERDEIRO DA DIÁSPORA PORTUGUESA


Luciano Freitas – Um Herdeiro da Diáspora Portuguesa.

Ter um destino é não caber no berço
Onde o corpo nasceu.
É transpor as fronteiras uma a uma

(...)
(Miguel Torga, Fernão de Magalhães, Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, 5ª edição, 1999. um excerto)

Foi “um emigrante durante toda a sua vida” (Élio)

Para todos nós ...“foi uma felicidade termos tido o prazer de viver perto dele durante todos estes anos” (Alcides)


Luciano Gomes da Silva Francisco de Freitas
nasceu em Manaus, Brasil em 12 de Julho, 1914. (Pais oriundos de Samel)

Aos 9 anos veio, com os três irmãos, para Samel, depois da súbita morte da sua mãe Francisca Gomes da Silva no Brasil. O pai, Joaquim Francisco de Freitas, voltou a casar e teve duas filhas, Maria e Humbertina, ainda vivas, residentes com família em Manaus, Brasil. Os irmãos Joaquim, Menano e António já faleceram em Portugal.

Luciano aprendeu a alfaiate e foi assim que chegou a Bustos.
Nos 30s e 40s, era costume os alfaiates e costureiras irem fazer roupa para casa dos clientes, agricultores ricos da região... A jorna era ‘a de comer’, para que se perdesse pouco tempo de trabalho.

Em 1934, casou na Póvoa de Bustos com Eugénia dos Santos (Fabiano), filha de Sebastião Simões Fabiano e de Maria dos Santos, passando a residir na 'Rua da Póvoa' até emigrar para a Venezuela.

Uns anos depois de casar, convidou um amigo, Adriano Rodelo, a formar sociedade com ele na Póvoa. Foi assim que o Ti’Adriano conheceu e casou com Caurina Luzio, vizinha da ‘Rua da Póvoa’.

O Ti’Adriano Alfaiate veio e ficou em Bustos para sempre.

Em 1945, já com os filhos nascidos (Alcides com 7 anos e Élio com 1) Luciano emigrou para Venezuela, onde viveu até 1975, ano em que os Freitas se juntaram na Califórnia. Aí viveu com a Eugénia até 2007, quando a morte o levou aos 92 anos de idade, no dia 20 de Janeiro de 2007, após 72 anos de casado.
Data de 1991 a sua última visita a Bustos.
Luciano Freitas é mais um exemplo da diáspora portuguesa. Foi “um emigrante durante toda a sua vida”. (Élio Freitas).

Ainda na Venezuela, Luciano Freitas mandou fazer a casa na Quinta Nova. No mesmo local, onde os filhos (que visitam assiduamante o seu terrunho) edificaram a moradia a perpetuar a homenagem a seus Pais.

Curvo-me perante a memória de Luciano Gomes da Silva Francisco de Freitas, enviando um abraço amigo à família: Eugénia dos Santos Fabiano,(sempre com Bustos no coração); ao Alcides e esposa Helen, ao neto Nelson e esposa Jeanne e ao bisneto Jack Freitas; ao Élio e esposa Anita e às netas Lisa e Marisol. A Maria e Humbertina e aos muitos sobrinhos/sobrinhas e aos ramos familiares de Samel, do Brasil e de Bustos.
sérgio micaelo ferreira

Nota:
Agradeço a Élio Freitas as preciosas notas biográficas.
Élio Freitas recorda que “Luciano era assinante do JB há muitos anos, jornal que lia sempre com muito interesse e saudades da terra que o viu crescer”.

srg

30 de janeiro de 2007

GENTE GRANDE

- Zé Valério!
O nome veio rasante e atingiu-nos em cheio. Nesses idos de setenta, ao Sábado de manhã, em pleno mês de Março, meia Luanda passava pelo Maria da Fonte. Suculentas, as bancas da fruta rescendiam a papaia, manga, mamão, abacaxi, e refrescavam-se os olhos nas verduras das hortas de Luanda.
- Eh, Zé Valério!

Fomos rompendo caminho até à voz que chamava. No cimo da banca, a Dona Isilda, era quitandeira branca, corpo e alma grande, génio assomadiço. Era a Bairrada amigada com o calor de Luanda. Era a mulher do Seabra, funcionário do Governador. Morava numa casa gandaresa, na sombra do Palácio, com uma mangueira no pátio e uma mesa longa, onde comia quem por bem chegasse.
- Conheci-te logo. És o Sérgio, o irmão da Alice, não és? Tal qual o retrato de teu pai. Dito e escrito. Grande homem, o Zé Valério!
Ali aprendi de ouvido que o Zé Valério era Bustos.
Depois, vi que era Aveiro, Águeda, Palhaça, Mamarrosa, era Seia, Costa Nova, era onde houvesse vida em festa. Era assobio de melro, artista em molde de pé, feirante de sol a sol, alma a abarrotar de música, com letra de fino traço, verão a pedir Vagueira, petisco de peixe fresco, palavra pronta na hora. Tertuliano de gema, tinha cardápio de amigos. Fossem janotas, pedintes, doutorados, artistas da sua lavra, todos lhe entravam em casa. Primeiro na oficina, depois na sapataria. Remoque era para a mulher. Retrucava, retrucava, mas quem mandava era ela.

A ti Adália só ria, de tanto bem que lhe queria. Ela esmerava, esmerava, cozinhava que nem chefe, num forno de ferro a lenha. À ceia havia escoado, a fumegar em travessas. Ao jantar era sopa à lavrador, rica de carnes e mimos, dos que criava na horta. Ao Domingo rescendia o frango assado no forno. Nos dias de festa rija, a chanfana era de reis. Dizia ele a mangar que ela tinha estagiado no Grande Hotel da Cúria. Cuidava a casa e o aido, tinha perus e coelhos, patos, frangos e galinhas, tratava horta e pomar, criou os filhos e netas. Que eu me lembre, não recebia ordenado. Ela não tinha patrão e não tinha profissão! Grande mulher, a ti Adália!
Gente Grande!

armigã

29 de janeiro de 2007

EM DEFESA DO PALACETE

Aproveito este meio para felicitar a equipa que está por detrás do “Notícias de Bustos”, pelo bom trabalho que tem exercido como bom difusor da Cultura e progressiva análise das problemáticas que envolvem a nossa terra. Aproveito agora, também pela primeira vez, para deixar a minha marca, não me escudando no anonimato, porque não há que ter receio por dizer aquilo que achamos que está mal.
Um dos problemas que a mim mais me incomoda, é o estado de degradação em que o Palacete do Visconde Bustos se encontra. E de salientar que este edifício que não tem o merecido respeito, porque o vemos todos os dias. Se assim não fosse e já tivesse sido derrubado era motivo para lamentação porque não tem paralelo no concelho de Oliveira do Bairro. Faz parte do património histórico de Bustos.
Para muitos o Visconde de Bustos não diz nada... Mas meus caros amigos, para muitos o Salazar também não, tal como Dom João V, mas certo é que todos eles fazem parte da História as duas primeiras figuras a nível nacional e o Visconde de Bustos a nível local.

É um edifício que se distingue por um traçado arquitectónico de grande relevo, quer no exterior pelos belíssimos azulejos ilustrando a belíssima flor-de-lis, de um interior requintado com frescos nos tectos, quer pelo belíssimo torreão, símbolo do poder para os aristocratas. Devemos ter em atenção que preservar o património histórico é preservar a memória. Hoje este edifício já não tem grande relevo, mas não terá sido motivo de orgulho para os bustuenses quando da sua construção, uma vez que no concelho de Oliveira do Bairro não havia obra tão imponente?
Preservar o Património Histórico é preservar a Memória dos nossos antepassados... Recordo o caso da Capela de São Lourenço, hoje as pessoas dizem que até era bonita, mas não há problema podemos contemplá-la num belíssimo painel de Azulejos…
Será que à semelhança do que aconteceu com a capela de São Lourenço quererão salvaguardar a memória do Palacete num painel de Azulejos?
Será que devemos acomodar todo o património histórico num cantinho onde não incomode ninguém? Deixo mais um convite à reflexão...

Por outro lado também a formas de dissimular as coisas... Imaginemos agora o Palacete transformado num Centro de Dia... Uma cozinha na antiga sala nobre do Visconde, ou outra qualquer função, a delapidar toda a identidade do edifício, quem sabe aumentar o espaço com paredes de betão a contrastar com o resto do edifício, que bela harmonia não teria o centro de Bustos...
Pode parecer assustador, mas a delapidação do património é algo que já não é novidade, contudo nunca pensei que se reflectisse em Bustos. Aproveito por este meio para lançar uma nota negativa à Associação de Beneficência e Cultura de Bustos, cujo nome deveria figurar como A.B. porque cumpre a parte de Associação de Beneficência, mas deixa francamente muito a desejar no que diz respeito a Cultura... Até a Biblioteca sai do espaço que ocupava há já muitos anos, mas a Cultura não faz parte do protocolo. No meu entender acho que se devia preservar o Palacete e quando digo preservar é restaurar e não alterar, este espaço devia servir para difundir a Cultura, elaborar exposições. Recordo que não faltam talentos em Bustos, mas não lhes é reconhecido o devido valor. De certa forma até não é de espantar. A Cultura não tem interesse porque não se traduz em Euros. Faço o convite para que todas as pessoas que partilhem deste ponto de vista passem palavra e se afirmem perante a degradação em que Bustos se está a envolver.

Alberto Martins
(Aluno de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

26 de janeiro de 2007

INF - INDÚSTRIA NACIONAL DE FERRAMENTAS CHEGA A MUITOS LONGES

.
.
A INF [Indústria Nacional de Ferramentas], de Manuel Simões dos Santos (Manuel da Barroca), esteve presente em 14.03.2006 no «discurso» de NB através de “Alberto, um Torneiro. Um Mestre. Uma Escola.”


Manuel da Barroca irmão de uma família de ferreiros (os ferreiros de Bustos merecem ser estudados), obteve a ajuda da ALBA e da Bóia & Irmão para «furar» a couraça do condicionamento industrial então em vigor e atira-se ao sector da fundição, não deixando de lado o sector das prensas, cinchos, etc. para além do fabrico das alfaias agrícolas, enquanto a mecanização tardava a chegar.
As encomendas mão paravam de chegar. Segundo informação - não confirmada - a INF recebeu elogios da célebre "Fundição de Oeiras".


Iniciada com altos e baixos, a fundição continua hoje a produzir panelas e fogareiros e também formas de sapateiro.
Tal como ontem, as “panelas de ferro”, “panelas de três pés” são as conhecidas ‘Panelas à Portuguesa’ dos circuitos comerciais. Classificadas de 1 a 12, a sua capacidade varia entre um litro e meio até cinquenta litros, pela mesma ordem.
Os “Fogareiros a Carvão” de 0 (19,5 cm) a 5 (28,00 cm).
As ‘Formas de Sapateiro’ são referenciadas de 1 a 5, esta com a referência “5 Pé alto”.
A INF é uma instituição que daria uma boa pesquisa. Desde o tempo do fabrico da enxadas, machados a partir de nacos ferro de carris das linhas de caminho de ferro malhados manualmente, antes de Manuel da Barroca ter construído o malho Pilão com molas de camioneta. Ainda hoje é recordado o estrondo que ele provocava.
...
A intervenção de BC para além de oportuna aviva a memória para que se não esqueça a serralharia artística de sempre e a ferraria criada pelo Vulcano.

Recordando.
Manuel Simões dos Santos colaborou com a Comissão de Melhoramentos de Bustos e foi membro da direcção do ‘Bustos’ , no início da década de 50. Era presidente o saudoso e não esquecido Álvaro Pato. Completava o elenco directivo Arménio Luzio, Domingos da Maia Romão (o Minguitos), Manuel Fontes, Mário Reis Pedreiras (hoje Presidente da Assembleia de Freguesia), Pompeu Aires e António Coutinho dos Santos [?]. (informação recolhida do Jornal da Bairrada)
sérgio.ferreira.3@netvisao.pt
Nota:
Por informação fundamentada de Belino Costa - que agradeço - a foto reporta-se à sessão da ‘memorável Assembleia Geral’ da Comissão de Melhoramentos realizada no 1º de Janeiro de 1960 no então Centro Recreativo de Instrução e Beneficência.

No dia 18 de Fevereiro/1960 aconteceu a homenagem a dois baluartes de Bustos: Jacinto Simões dos Louros (dinamizador primeiro do processo de criação da freguesia) e Dr. Manuel dos Santos Pato (‘da Barreira’ – o patrono da criação da paróquia “decretada em 7 de Março de 1925”[1] pelo Bispo de Coimbra[2]. As duas placas com os nomes destas Figuras Bustuenses colocadas no Centro Recreativo de Instrução e Beneficência tiveram de ser retiradas na fase de remodelação do edifício e foram entregues a Manuel Joaquim dos Santos, então tesoureiro da Junta. Estão/estavam na cave do novo Edifício da Junta. Estão impedidas de ver a luz do dia. A Assembleia de Freguesia poderá vencer a resistência do senhor presidente da junta, se fizer aprovar e colocar as ditas placas no salão das sua sessões . É de elementar justiça.

Graças à intervenção Hilário Simões da Costa, [HC], que dos USA liderou todo o processo, estes ilustres Bustuenses entraram na toponímia local no dia de Bustos/1973, (consultar Hilário Costa, Bustos-memória de um bustoense, 1984, pg.s 95 e sgs.s). Estas placas foram pagas por HC.
Aqui ficam simples notas para a História de Bustos.
sérgio micaelo ferreira


[1] In Arsénio Mota, Bustos – elementos para a sua história, Edição da Associação de Beneficência e Cultura de Bustos. 1983, pg.s 24.

[2] Não fora a influência do Dr. Manuel dos Santos Pato junto do bispado de Coimbra e teria sido retardada a criação da paróquia de Bustos, até porque na época, a luta anticlerical tinha atingido o auge: o Bispo de Coimbra decretara a interdição da Banda Escolar do Troviscal – provocada pela exorbitante “taxa” exigida em pré-pagamento pelo Juiz da Irmandade das Almas para se fazer acompanhar em funeral católico – e, em retaliação, o Povo Liberal da Freguesia, decretara a interdição do clero, impedindo-o de exercer a sua actividade nessa paróquia (bibliogr. sobre a interdição: Silas Granjo, “Banda excomungada, Clero Interdito no Troviscal Republicano”, Actas do Colóquio – Anticlericalismo Português: História e Discurso; Maria Leocádia Pato, Rio da Memória – A Banda do Troviscal, Edição da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, 1997; Troviscal – visão histórico-cultural, Edição da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, 2005).