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23 de novembro de 2014

“BUSTOS EM CUECAS”, A RÉCITA QUE NUNCA ACONTECEU

Entre os papéis da falecida professora Zairinha encontrava-se um livro de contas com uma única folha escrita. Mas, nas colunas de deve e haver, em vez dos números encontra-se a ata de uma reunião da direção da Revista “Bustos em Cuecas”. Estávamos em 10 de janeiro de 1938, passavam nove dias sobre a última apresentação do espetáculo no Centro Recreativo de Instrução e Beneficência de Bustos, a última de que há notícia. Nessa reunião para além de outras questões decidiu-se “Que será dada uma récita em benefício das raparigas em Bustos, em dia determinado pela direção.” Tal acabou por nunca acontecer mas da vontade então expressa aqui fica  a recordação.

Publicamos cópia da referida ata, e as notas de Sérgio Ferreira quanto à lista dos subscritores.



A direção da Revista Bustos em Cuecas na sua reunião de 10 de janeiro de mil novecentos e trinta e oito deliberou o seguinte:
Primeiro
Que não sejam considerados sócios até esta data para a divisão de lucros os senhores David Pessoa, Rodrigues Cosme e Emitério Fernandes, por os julgar pagos dos serviços prestados com o produto das suas receitas dadas em seu benefício.
Segundo
Que são de facto considerados sócios nas receitas futuras ficando o senhor Emitério Fernandes com o direito de opção pelos seus honorários como sócio ou como músico.
Terceiro
Que todos os sócios sem distinção de sexo compartilhem igualmente dos lucros da mesma sociedade.
Quarto
Que o encarregado de dar o ponto, senhor Jorge Nelson Simões Micaelo não seja considerado sócio até esta data, mas sim ser remunerado dos seus serviços prestados por quantia estipulada pela direção d’acordo com o grupo em geral.
Quinto
Que o senhor Manuel Simões Micaelo, d’acordo com as suas declarações não é considerado sócio até à presente data, mas podendo ser de futuro se assim o desejar, sendo actualmente remunerado pela direção dos serviços prestados nas récitas anteriores.
Sexto
Que será dada uma récita em benefício das raparigas em Bustos, em dia determinado pela direção:
#Único. Aquele que sem motivo justificado abandonar o grupo após a dita récita perde o direito aos honorários que lhe couberem, sendo mesmo acrescido de multa de cincoenta escudos (50$00).
Bustos aos 13 de Janeiro de 1938


O presidente
Heitor Ferreira
O secretário
Herculano da Silva
O grupo e membros da direção
Manuel Sérgio
João Francisco Pedro Júnior
António Silva Tarrafo
Vergilio Simões da Silva
A rogo-Manuel dos Santos
David Pessoa
Manuel da Silva Tarrafo
Manuel Simões Micaelo
Manuel Augusto da Silva
Laurindo S. Capão
David Correia
Manuel Simões Luzio Júnior
João da Cruz
Sérgio
Emitério Fernando
José Valério Ferreira, filho Francisco…
Ercilia Simões da Silva
Por Estrela Simões: David Pessoa
Por Maria de Jesus Aires: David Pessoa
Clarinda de Oliveira Mota
Maria de Jesus Mota
Maria Rosa Simões
Célia da Silva
Rosa Simões
Lavínia da Silva Correia
Maria Clarinda Martins
Maria dos Anjos
____________________
Notas do Sergio:
Heitor Ferreira, suponho tratar-se do Dr. Heitor.
Tipo de letra.
A  seguir a
‘O O Grupo e Membros da Direcção’ vem o nome do principal responsável da revista ‘Manuel C(ruz) Sérgio & F (Filhos?)’. Quereria dizer que era a Família do Sr.Sérgio (filhos) que apoiavam a peça, inclusive a execução do adereços. Daí surgir o nome do Dr. Heitor,em representação da d. Palmirinha.   
A Firma, então, deveria ter o nome do Pai, o Sr. Manoel Joaquim de Oliveira Sérgio. Caso a estudar, junto do Dr. Rui.

Manuel da Silva Micaelo … Manuel Simões Micaelo Júnior,
 pai de Pompílio Micaelo e outros. O Óscar Micaelo, do Restaurante Micaelo, Sobreiro, único sobrevivente da Família, no massacre de 15 de Março de 1961,é um dos seus netos.
Foi Presidente da Junta da Freguesia de Bustos.
(Escapou à epidemia de ter o nome pendurado na toponímia, graças à contestação promovida pelo Chico em defesa do nome de Rua do Cabeço)
Teve polémica no JB com Hilário Costa, caso da Criação da Feira do Sobreiro, pois esqueceu-se de referir certos nomes que trabalharam para a execução de tal empreendimento.

João Francisco Pedro Junior
Tvz seja o João Pedro, publicado no NB ---JOÃO PEDRO, DE BUSTOS - " UM MÚSICO SINGULAR", 22 de Janeiro de 2010

José Valério Ferreira  “Filho” Francisco ….
É o mesmo José Valério Ferreira, meu Pai.
Francisco Sapateiro, ou Chico Sapateiro, como era conhecido. Tanto que na sepultura apôs ao seu nome Francisco Ferreira, o atributo da sua profissão… Sapateiro.
O Francisco Ferreira Sapateiro, ou Chico Sapateiro, foi registado em Arrifana, foi encontrado no Cruzeiro de Arrifana... Era, portanto um enjeitado. Pai e Mãe incógnitos,
No prolongamento da linha da assinatura do meu Pai, (reconheci a tendência da letra da assinatura),
A inscrição «Filho» Francisco Sapateiro, seguramente, não foi escrita pelo meu Pai.
Explicação? Seria para identificar o Zé Valério, que na altura cumpria a ronda do 25 anos?

O meu Avô Chico Sapateiro  parou de querer mais filhos quando nasceu um rapaz, o Pai Zé Valério.. Teve 5 filhos. A minha Avó foi sempre acarinhada pelo meu Avô, mesmo que ele gostasse de sair das balizas estabelecidas... 

25 de junho de 2014

O CHÃO QUE PISAMOS

Apesar dos meus 9/10 anitos, ainda recordo a inauguração da piscina, toda engalanada com luzes e papéis coloridos, como se fosse uma festa popular. O povo rodeava a sebe circundante e viveu entusiasmado a disputa dos nadadores (penso que do Galitos e Recreio de Águeda, pelo menos).
Com a piscina veio a Associação Académica de Bustos, cujos atletas ali praticavam e onde muitas provas foram disputadas. Um dos bons nadadores foi o James, retratado mais abaixo com aquele ar empinocado que a mãe californiana cultivava nele.
A par dele, tantos outros: o nosso Domingos alfaiate, bom nadador de “crawl”, mas que não atinava com os limites das pistas, o Vítor (bruços e mariposa) e o Gute (ambos filhos do Sr. Dário, fotógrafo e antigo pugilista, que vivia nos anexos da casa do Visconde), o Feliciano e o Carlos Luzio, o Beto do Dr. Assis, o meu irmão Rui Jorge, o Leão (prof. universitário em Lisboa), o Horácio Reis Pedreiras, o Rui Sérgio, o Zé Tribuna, eu - até eu, ó que pensam!
O Rui Sérgio e o Zé Tribuna, estudantes universitários em Lisboa, vieram a ser atletas de renome, tendo este último sido internacional de andebol, creio que pelo Sporting, mas também pela selecção nacional.
O empenho do Horácio (filho do grande lutador da vida que foi Vitorino Reis Pedreiras) foi determinante na dinamização da natação e doutros desportos, como foi o caso do lançamento do dardo e do peso. A ele se deve também a criação da efémera associação de que acima falei e cuja ação se perdeu com a ida dele para Angola. Dava direito a cartão de associado e tudo, como retrato acima. 
Foram tempos únicos, irrepetíveis, verdadeiras pedradas no triste e pobre charco que era este miserável país nos finais dos anos 50 e princípios de 60.
É bem verdade que esse estremeção contra o marasmo e a miséria social saiu das mãos da média e pequena burguesia rural de então; burguesia que, se tinha defeitos, também sabia ser virtuosa quando lhe dava nas ganas.
Nem podia ser de outra maneira! À grande maioria das gentes de Bustos nem uma côdea de broa sobrava para matar a fome, quanto mais para fazer piscinas!
A outra face dessa verdade é que essa piscina privada foi posta pelo lutador Vitorino ao serviço da população local - mediante regras de boa utilização, é certo - mas sem discriminar ricos e pobres, filhos de burgueses ou de malteses. Às vezes, eramos todos ao molho e fé em Deus. 
A nossa Aldeia deve ter sido um caso único no Portugal daqueles anos.

Teatro de revista, cinema desde 1937, com direito a assinatura à moda dos cineclubes que só apareceriam mais tarde, danças e contradanças [vejam AQUI e espantem-se], vários cafés e um restaurante afamado (o Pompeu dos Frangos da sua fase bustuense), farmácia, posto da GNR, estação telégrafo-postal, colégio, talho, peixaria e muito comércio e indústria pujantes, até com nome firmado no mercado nacional. 
E, vejam só:
Ainda nos sobrava  tempo para trabalhar os campos no duro, emigrar à fartazana para não morrer à fome e viver outras diversões, que os tempos de fome e miséria eram uma festa, a bem da Nação e nada contra a Nação. Excepto em Bustos, porque por cá
Até tempo nos sobrava para lutar contra a ditadura.
 
Em contraponto:
 
Os tempos de hoje não estão pelos ajustes:
querem acabar com tudo o que nos liga às nossas raízes,
querem queimar a sal o chão que pisamos,
querem arrasar tudo,
para que nada reste.
 
Qualquer dia
roubam-nos a luz que nos alumia.
Qualquer dia
roubam-nos o chão que pisamos.
 
Mas, quem sabe?
Pode ser que qualquer dia acordemos.
E voltemos a

ir à raiz das coisas. Ser solidários com as gerações passadas.
Criar diálogos. Encantamentos. Olhares inteligentes. Sentimentos de pertença. De identidade.
Enfim, ligar as pessoas ao seu património.
*
*
- O texto original deste post foi publicado em 17/6/2007 e pode ser lido aqui.
- As duas fotos seguidas (da malta a nadar na piscina e dum trecho da revista "Bustos em Cuecas") fazem parte dum conjunto de negativos, encontrados e recolhidos no edifício do Palacete pelo Alberto Martins.
- As palavras finais do post, em itálico, são da autoria do Licínio Mota, o Li, o Moncas, como queiram chamar-lhe.
A citação pode ser lida no prefácio do estudo sobre “A CAPELA DOS FERREIRAS DA BARREIRA”, da autoria do Li [editámo-lo a dois durante uma tarde e noite inteira sem parança nem dormir] e foi publicado em 9 de agosto de 2009 pela Comissão de Festas de S. Lourenço a que me orgulho de ter pertencido, como podem ver aqui.
O Li é um reformado do professorado, mas não é feito da areia pantanosa donde parecem ter sido paridos muitos dos membros deste governo e doutros que o antecederam, porque do que há-de vir só Deus e o dianho sabem.
O Li anda há vários anos à procura das nossas raízes.
O Li encontrou o seu modo de resistir, a sua G3, a sua granada de mão, a sua tática para defenestrar os miguéis de vasconcelos que pululam por aí.
Ele há muitas formas de resistir…

21 de dezembro de 2013

AS CRÓNICAS DE “BUSTOS DO PASSADO E DO PRESENTE”

EM CUECAS

 Óscar Santos
 
A Revista “Bustos em Cuecas” subiu ao palco em 1937, depois de três anos de ensaios. O ensaiador era David Pessoa, alfaiate e comerciante, o diretor musical Emitério Fernandes, da Palhaça, e o compére, Manuel Sérgio.
O elenco incluía dez homens e nove mulheres tendo o espetáculo sido levado à cena por nove vezes, sempre com lotação esgotada. O texto e as músicas ter-se-ão perdido, mas seria interessante tentar recuperar esse espólio.
Segue uma letra que terá sido destinada a uma cégada, ou integrado a Revista "Bustos em Cuecas". É uma recolha do Eng. Neo Pato, que indica Manuel João Moleiro com sendo o autor:
 
"Bustos, terra santa,
Cercada de pinheirais
Onde toda a ave canta
Melros, Rouxinóis e Pardais
Há Patos e há Carriços,
E também há Piscos
Que não levam bordoada
Por não andarem metidos
Com outra passarada."
 
Este cartaz original é propriedade de Manuel Simões Luzio Júnior, ao qual agradecemos, por o ter cedido a título de empréstimo a fim de ser divulgado neste blog.
Foi no dia 1 de Janeiro, do longínquo ano de 1938, que no Centro Recreativo de Instrução e Beneficência, se deu a última representação da peça "Bustos Em Cuecas", anunciada em cartaz, com tiragem de 1000 exemplares, impressos na tipografia S. Tavares Alves, em Anadia.
Logo depois da hora do espetáculo, 21 horas, pode ler-se: “Última representação com 4 números novos da Revista Regional Fantasia, que tanto sucesso tem alcançado nas representações anteriores BUSTOS EM CUECAS.”
Com letras de David Pessoa e 26 músicas originais de Emitério Fernandes, também maestro da orquestra que acompanhou o espetáculo, a Revista era composta por dois actos. O primeiro incluía a Abertura e 12 quadros (Mocidade/Recepção/Regedor e Seus Cabos/O Homem do foguete e a sua Música/As Papoilas/ O Vagabundo “Fado”/As Saias Curtas/Zé e Rosalina/Os Cavadores/A Luta de S.Pedro-S.Lourenço/O Telefonista/ As Ceifeiras - apoteose). Do segundo acto faziam parte 14 quadros (Ao Amanhecer/O Mercado/Tremoceiras/Broa e Pão de Trigo/Bombeiros/Tango/Tabernas e Seus Frequentadores/Os Homens das Aflições/Foot-Ball/As Leiteiras/O Operado a Carteirótomia/O Vaidoso/A Desfolhada/O Trabalho - apoteose).
Os atores:
David Pessoa (Bustos), Manuel da Cruz Sérgio (O Engenheiro), Clarinda de Oliveira (O Regedor), Maria Rosa da Silva Tarrafo, Ercilia Simões da Silva, Cilia Silva, Maria Micaelo Aires, Maria Rosa Tarrafo, Estrela Simões Pessoa, Labinia Correia, Clarinda Pedro, Maria dos Anjos Martins, Maria Mota, José Valério, João Pedro, Laurindo Capão, David Correia, Manuel Aires, João Sérgio, Manuel Tarrafo, António Tarrafo, Manuel da Silva, Manuel Simões Luzio, Manuel Barroco, Virgilio Silva e Manuel Simões Micaelo.
Outros participantes:
Ponto: Jorge Nelson Micaelo
Contra Regra: David Ferreira da Silva
Caracterizadores: José Vieira e José de Pinho de Aveiro
Guarda-roupa: Propriedade da Revista e da Casa Valverde do Porto


A foto revela um friso de jovens bustuenses, em 1937, na Revista “Bustos em Cuecas”. Da esquerda para a direita: David Pessoa (o “compère”, juntamente com o Manel Sérgio); Rosa do Tarrafo (ou do Campolargo); Ercília do Herculano (irmã da prof.ª Zairinha); Célia do Caçalho; Estrela Carradas (mulher do David Pessoa); Maria Mota (do Sobreiro); Clarinda do João Pedro; Lavínia do Correia; Maria Figueiredo (minha tia); Maria Rosa do Tarrafo (mulher do Mário da Barroca) e o Manuel Micaelo (pai do Vasco).
Acrescentando algo à história da revista, aliás relatada a págs. 31 do livro do Arsénio Mota: “Bustos – elementos para a sua história":
Os ensaios da banda de música, sob a batuta do maestro Emitério Fernandes, decorriam no sótão da demolida casa da minha avó (aqui mesmo), banda que incluía, além doutros, os seguintes músicos: Zé Valério, Figueiredo e Manuel Tarrafo (irmão da Rosa). O meu tio Figueiredo também fazia o papel do Sebastião da Reizinha (bêbado), tal como o Zé Valério desempenhava a figura do Abílio Crespo, a “andar à bosta”, dizendo a célebre frase, quando perguntado sobre o que andava a fazer: ”vou à bosta para tapar a boca à minha mãe”.

14 de novembro de 2011

JOSÉ CID NO TEATRO AVEIRENSE (24 Novembro) - SOLIDÁRIO COM OBRA FREI GIL (Praia de Mira)

JOSÉ CID - VOZ E PIANO

Concerto Solidário a favor das crianças carenciadas da Instituição Frei Gil. Organização Obra do Frei Gil – Praia de Mira

TEATRO AVEIRENSE - AVEIRO
Domingo - Dia 27 Novembro’2011 , 21H30

fonte: aqui
Um apelo
Amigos, 
como sabem, estamos a passar momentos difíceis, assim como muitas famílias portuguesas. Mas como não podemos baixar os braços e encontramos sempre, no nosso caminho, pessoas de grande espírito filantrópico, apelamos a todos Vós que não faltem a este Concerto Solidário-José Cid.



fonte: aqui

Não faltem a este Grandioso Concerto, no Teatro Aveirense: grandioso pelo ícone da música portuguesa - José Cid; grandioso pelo fim a que se destina.

Apoiem a Instituição - Obra do Frei Gil-Praia de Mira.
APOIEM-NOS, PRECISAMOS DE VÓS!

Divulguem a todos os vossos amigos.
Contamos convosco!


Bilhetes:
12 euros (plateia)
10 euros (balcão)

Os bilhetes serão vendidos:
- no site oficial do Aveirense aqui
-Na bilheteira do Aveirense;
-Reservados na Instituição.
O Concerto é para maiores de 12 anos.
Bilheteira/Recepção
Telefones:
234 400 922 (bilheteira)
234 400 920 (geral)
924 405 544 (rede telemóvel)
Caso necessite contacte bilheteira@teatroaveirense.pt
Horário:
Segunda-feira - das 9h às 13h e das 14h às 18h
Terça-feira a Sexta - das 9h00 às 20h00
Sábado - das 14h às 20h

________________________________

em tempo
FEIRA DA HORTA! – um FORTE Aplauso
Vamos todos para a feira
P’racabar co’a lazeira
dos que vivem em desgraça
É bom que a nossa gente
Agora felizmente
Não precise da Palhaça.
Da Póvoa, vem a hortaliça
Do Sobreiro, a nabiça
Da Barreira, o bom feijão
De Bustos, vem a batata
Negra, branca ou mulata

Do Cabeço, o pimentão.

“Feira”, Bustos em Cuecas

 (recolhido de Florinda Barreiro)



fonte: aqui
O IPSB (Colégio de Bustos) mais uma vez abriu as portas à comunidade, desta vez com a realização da 1ª Feira da Horta (21 de Outubro).
Bastou um clique de Rosário Santos: "Gostava tanto que fizéssemos uma feira de produtos hortícolas!" Rosária Santos (IPSB, Colégio de Bustos)

O desejo pôs-se a caminho, fez eco, reuniu saberes com vontades e houve Feira.
A primeira. A raiz está pegada.
Merece um especial destaque a visibilidade ao resultado da  agricultura de subsistência, uma prática que contribui para a “sustentabilidade da economia familiar”

21 de setembro de 2010

Inocêncio Caldeira: deixou-nos um dos últimos “Gavetas”

Faleceu hoje Inocêncio Simões Caldeira. Nascido no Sobreiro em 3 de Outubro de 1922, o Inocêncio, filho de Manuel Catroxo Capela (natural do Montouro) e de Maria Augusta Simões, do Sobreiro, foi um dos ases do Futebol Clube de Bustos, os “Gavetas”, um dos clubes precursores da União Desportiva de Bustos, a par do rival Futebol Clube os Azuis de Bustos, filial do Belenenses e conhecidos por “Canecas”.

«Canecas e Gavetas
Fazem jogo limpinho;
Cuidado com os Canecas
– estão cheios de vinho!»

O Inocêncio foi um dos grandes craques do futebol bustuense e só não foi jogador do padrinho Futebol Clube do Porto porque tinha 17 anos quando foi treinar no então Campo da Constituição.
Apesar das insistências do olheiro do FCP, no ano seguinte o pai proibiu-o de se mudar para o Porto, por achar que o futuro dele estava na arte de alveitar que abraçou durante uma vida e não na prática do futebol, profissão de vagabundos, como lembrou AQUI o Aristides Arrais.
Bustos deve-lhe ainda a sua participação no nascimento da união dos dois clubes rivais, que em 2/10/1948 deram lugar à União Desportiva de Bustos e cuja camisola ainda vestiu. Arrumadas as chuteiras, foi dirigente da UDB e esteve ligado ao alargamento e arranjo do piso do campo do Sobreiro, que até então não passava dum poisio adaptado à prática do futebol.
Inocêncio Caldeira foi também dirigente da Casa do Povo de Bustos durante vários mandatos.

A partir de hoje, o pequeno/grande jogador tem lugar reservado na 1ª divisão celestial.

O seu funeral realiza-se às 17H00 de amanhã, com saída da Capela Mortuária.
___
- Quadra da revista “Bustos em Cuecas” (1937), recolhida por Arsénio Mota no seu livro “Bustos – Elementos para a sua história, edição ABC, 1983.
- Baseado no texto do Serginho Inocêncio Caldeira treinou com o Hernâni, publicado em 11/4/2005 no antecedente “Bustos – do passado e do presente”, AQUI (o link não é directo, abrangendo todo o mês de Abril).

21 de novembro de 2009

BUSTOS EM CUECAS - [1ª exibição] 20.11.1937


... o elenco incluía ao todo dez homens e nove mulheres em cena. O espectáculo foi apresentado nove vezes, sempre com lotações esgotadas e grande êxito. Ditos em palco ficaram gravados na memória colectiva e passaram a fazer parte do refraneiro local.
Transcrito de Arsénio Mota e de NB, em 17.7.09
FERREIRA DA SILVA - «O BRASILEIRO» QUE MUDOU BUSTOS aqui
Bustos em Cuecas tem surgido no NB ou no blogue anterior, por exemplo:
em NB, a 29.8.05 MANUEL SIMÕES LUZIO JR: A HOMENAGEM QUE FALTAVA - 1 aqui
Merece uma consulta o trabalho editado em Bustos - do Passado e do Presente em abril 26, 2005
Memória: “Bustos em Cuecas”, de Paulo Alves aqui

Mas há uma nota que tem passado despercebida.
Manuel Sérgio foi o grande activista para levar à cena a Revista. Os seus vastos conhecimentos junto das tertúlias lisboetas do espectáculo e a troco de uns avantajados cobres trouxe material escrito que serviu de apoio ao «Bustos em Cuecas».
Nada está registado.
Os testemunhos não existem.
O pó nada diz.

Caneca e adepto e contribuinte líquido de Os Belenenses, Manuel Sérgio patrocinou convívios, “estágios” em Bustos de jogadores dos Azuis de Lisboa.
Quando houve a fusão da União Desportiva de Bustos (designação atribuída a Manuel Tavares da Silva), Manuel Sérgio tudo fez para que a UDB fosse filial de ‘Os Belenenses’.

Este pormenor pode ser polémico. Os gavetas podem não aceitar. Mas até agora não há conhecimento da UDB ser filial do Futebol Clube do Porto.
Seja qual for a descoberta, não vai retirar a influência que Manuel Sérgio teve na construção da equipa de futebol de Os Azuis de Bustos.
apesar do esquecimento a que foi votado.

21 de julho de 2009

VII Fórum de Bustos: recordar ideias humanistas - I

No passado sábado, tendo por palco o aprazível espaço exterior e interior do Restaurante Rafael, recordámos. Como disse Mário Reis Pedreiras no seu discurso, “recordar é viver duas vezes a vida”.
Como não podia deixar de ser, a decoração interior evocou Manuel Ferreira da Silva, de resto representado ao vivo pelo Joãozito no fato de emigrante de passagem pelos EUA e que o NB já reproduziu. Não faltaram memórias dos tempos do cinema sonoro, dos trajes dos anos 30 e 40 e dos bailes desses tempos (eu e o Jaime até fomos “desapertar” duas moçoilas que dançavam entre si, como que a pedi-las).
Muito lembrado e melhor documentado foi também o teatro de revista, de que foi paradigma a peça Bustos em Cuecas. Bem a propósito e porque se tratava de recordar, foi reconstituída (graças ao precioso trabalho de recolha da Clarita Aires) uma cena dos anos negros da II Grande Guerra, por sinal também recordada por Mário Reis Pedreiras:
Ferreira da Silva colocara no recinto redondo em frente ao salão um altifalante ligado a um rádio RCA, para que os bustoenses pudessem ouvir “os célebres noticiários da BBC feitos pelo nosso saudoso Fernando Peça… Era tal a nossa avidez pelas notícias que na altura avassalavam o mundo, que nos juntávamos às centenas para assim escutar no maior silêncio e apoiados ao cabo da enxada, o que no mundo se passava.
Pois acreditem se quiserem: até uma gravação original dos noticiários do Fernando Peça foi ouvida junto ao Bustos Sonoro Cine e, logo a seguir, no agradável espaço exterior do Rafael. Nem o cavador com a sua enxada faltou a compor a cena viva. Um mimo!
Só mesmo a Clarita do nosso sofrer seria capaz de tais pormenores etnográficos!
A regressada Irene Micaelo lembrou que o Fórum bebeu as suas raízes nos bancos das nossas escolas: “Estamos a falar de Cultura e estamos a falar de Afectos, porque este é também um encontro de amigos.
Isso e muito mais nos disse a Irene dos meus tempos de rapaz namoradeiro. Em remate sublime, trouxe-nos “
pela mão a jovem professora de 21 anos que, no início da sua carreira, se deslocava de Ílhavo à Quinta Nova para, também ela, nos abrir as fronteiras do conhecimento.”. Bem merecido foi o lindo ramo de flores que entregou à Prof.ª Maria Leonor Branco Marques.
E mais não conto por hoje, que o espaço e o tempo são curtos em demasia.
Felizmente, é longa a memória de quem sente e vive as Raízes de Bustos.

17 de julho de 2009

FERREIRA DA SILVA - «O BRASILEIRO» QUE MUDOU BUSTOS

Manuel Ferreira da Silva
Caneira (Mamarrosa) - Bustos
27.09.1901 - 16.01.1990


Arsénio Mota[1] no seu e desde 1983 nosso livro “Bustos – elementos para a sua história” faz um registo de iniciativas acontecidas na freguesia e que lhe mereceu o sub-título “Anos 30: uma «explosão».

Sem passar a pente fino lá encontraremos:

.«a construção da sua primeira escola pública»,
.«a feira bi-mensal»,
.«o cinema»,
.«a União Liberal de Bustos»,
.«a electrificação»
.a pavimentação com paralelepípedos das estradas nacionais de 3ª que a servir Bustos e Sobreiro.
.a passagem de «carreiras regulares de camionagem».
.o aparecimento do “«Ford» de Manuel Nunes Pardal” e a provocar espanto.

Apesar da sua população ter baixado para 1625 habitantes[2], Bustos transformara-se num estaleiro recheado de realizações.


E porque o VII Fórum de Bustos (2009) evoca Manuel Ferreira da Silva, aliás, vai concretizar uma aspiração de Mário Reis Pedreiras acalentada nas comemorações do Dia de Bustos’1990, “que, no próximo ano, lhe seja prestada digna homenagem” conforme o JB[3], considero oportuno divulgar o texto que Arsénio Mota dedica a Manuel Ferreira da Silva.

«Brasileiro» aposta no Cinema


Coube a Manuel Ferreira da Silva, de Quinta Nova, que se fixara no Brasil e onde fizera fortuna, a honra de introduzir o Cinema em Bustos, A sua aposta máxima teve o nome de Centro Recreativo de Instrução e Beneficência, fundado em 1936.
Foi um sonho, temerário, sim, mas coroado pelo melhor êxito, graças à visão rasgada, ao saber pioneiro e ao dinamismo de que deu amplas provas.
Manuel Ferreira da Silva criou no povo bustuenses e dos arredores, desde os «anos heróicos» iniciais, o gosto pelo Cinema, levando-o a frequentar semanalmente aquela casa de espectáculos. Lançou inclusive um sistema muito simples e aliciante, porque era económico, de «assinatura mensal», espécie de cineclube avant la lettre - algo de espantoso numa localidade rural e naquela época.
Bustos orgulhou-se, nos anos 30 e 40, e mesmo depois, quando tantas cidades de província ainda não podiam dispor de sala com cinema sonoro, de ser uma simples aldeia e possuir - mais: merecer! - a sua excelente casa de espectáculos.
No seu palco se representou, nomeadamente, a revista à Parque Mayer «Bustos em Cuecas», que deixou fama a perdurar muitos anos, e se realizaram assíduos bailes e outros actos públicos.
Em 4 de Setembro de 1977 reabriu após um interregno para obras de beneficiação, que de novo a colocaram na vanguarda das casas do seu género. Mudou então de nome, passando a designar-se Bustos Sonoro Cine e a exibir por norma três filmes por semana, com matinée ao domingo e baile à noite.

Voltando ao espectáculo que os bustuenses realizaram brilhantemente, anota-se que os respectivos ensaios se alongaram de 1934 até 1937, - ano em que «Bustos em Cuecas» subiu ao palco. O ensaiador (director) era David Pessoa, alfaiate e depois comerciante e emigrante; o director musical era Emitério Fernandes, da Palhaça; o compère, Manuel Sérgio. Mas o elenco incluía ao todo dez homens e nove mulheres em cena. O espectáculo foi apresentado nove vezes, sempre com lotações esgotadas e grande êxito. Ditos em palco ficaram gravados na memória colectiva e passaram a fazer parte do refraneiro local.

[Fim de transcrição]

(pg.s 30 e 31 )
______________
[1] Arsénio Mota, “Bustos – elementos para a sua história”, edição da Associação de Beneficência e Cultura de Bustos, 1983
[2] idem
[3] Jornal da Bairrada, 23.02.1990

9 de julho de 2009

CENTRO RECREATIVO: DO PRIMEIRO BAILE À INAUGURAÇÃO OFICIAL


Afinal em que dia foi inaugurado o Centro Recreativo de Instrução e Beneficência?

Fomos encontrar a resposta num jornal que, em 1918, começou por ser editado em Bustos, o “Alma Popular”.

No ano de 1936 o quinzenário era publicado em Oliveira do Bairro, sendo dirigido por Manuel dos Santos Pato e Tiago A. Ribeiro. Ao tempo tinha uma coluna intitulada “Notícias de Bustos” onde o correspondente local, que assinava com o pseudómino Xis ( na verdade era Manuel dos Santos Pato), dava nota dos acontecimentos da aldeia.

Pouca coisa escapava ao “nosso” Dr. Pato que no dia 3 de Maio de 1935, na página dois, assinalou o nascer do projecto:

Club - O nosso amigo, sr Manuel Ferreira da Silva, acada de adquirir um terreno no centro desta localidade destinado à construção dum club.
Que a ideia não fracasse – e não deve fracassar - como já aconteceu doutra vez, são os nossos desejos.”


Ao descobrir esta notícia fiquei optimista quanto à possibilidade de o jornal assinalar o grande momento da abertura. Eventualmente a minha expectativa tinha mais a ver com a realidade dos nossos dias do que com os hábitos dos anos trinta. Mas sempre me pareceu que, ontem como hoje, uma casa destas características, a precisar de ser conhecida e cativar públicos, não podia deixar de abrir portas com um acontecimento marcante. E continuei a consultar o jornal.


(clique sobre a imagem para a ampliar)

O Primeiro Baile e Sessão Política

Já o pescoço se queixava, farto de se manter na mesma posição, quando abro a edição do “Alma Popular com data de 5 de Outubro de 1936. Numa local intitulada “Bailes” descubro novas informações:

Bustos, 28 – Promovido por um grupo de tricanas realizou-se, a noite passada, o primeiro baile no Centro Recreativo (ainda em construção), que foi bastante concorrido e animado assistindo os três jazzs locais.
-Para o próximo dia 3 está anunciada uma soirée dançante, no mesmo club, iniciativa de uma comissão de senhoras e cavalheiros, a mesma que no ano passado promoveu o baile de beneficência.
Consta-nos que devem assistir muitas das famílias mais distintas desta região.- X
.”

Ainda em obras o Centro recebeu o primeiro baile na noite de 27 de Setembro de 1936. O segundo baile aconteceu logo a 3 de Outubro seguindo-se, dois dias depois, o primeiro grande momento cívico e político da sala com a comemoração do 26º Aniversário da Implantação da República.
Escreve o correspondente do “Alma Popular” na edição de 16 de Outubro de 1936:

Aniversário da República. O cinco de Outubro foi aqui ruidosamente festejado. Durante todo o dia a Bandeira Nacional tremulou no edifício dos Correios e no Centro Recreativo. Salvas de foguetes e morteiros se fizeram ouvir de manhã, ao meio-dia e à noite. De tarde o Floresta Jazz percorreu algumas ruas da freguesia juntando-se, à noite, no Centro Recreativo muito povo que entusiasticamente aclamou a República ao som da Portuguesa.
O Sr. Ferreira da Silva, proprietário do Centro Recreativo, declarou à numerosa assistência que, de futuro, a data da proclamação da República será todos os anos comemorada naquela casa com uma festa de Beneficência.
Esta atitude foi justa e calorosamente aplaudida
.”




Inauguração em 18 de Outubro de 1936

Um pouco mais abaixo, na mesma coluna, encontramos a tão procurada notícia da inauguração, que afinal aconteceu a 18 de Outubro de 1936.

Duas inaugurações – Está anunciada para o próximo domingo a inauguração do Centro Recreativo Instrução e Beneficência. O Programa é deveras atraente – música, teatro baile, e outras manifestações de regozijo. (…)”

Na edição seguinte do “Alma Popular” nenhuma referência é feita à inauguração “oficial” do Centro porque o destaque vai para outro grande acontecimento local, a inauguração da Feira. Mas a actividade a artística do “Clube” não deixa de ser referida:

Teatro – No Centro Recreativo tem sido muito apreciados os trabalhos de Madame Friorenza .Para domingo, 8 de Novembro, além de um número de variedades por aquela artista, está anunciada uma récita de amadores desta localidade. Xis.”


Visconde comemora a República

O ano de 1937 começou com um baile de beneficência:

Beneficência – O proprietário do Centro Recreativo, nosso amigo, Sr. Manuel Ferreira da Silva , distribuiu em 6 do corrente, pelos pobres desta freguesia, o produto liquido duma récita dada em seu favor no dia de Ano Novo." (“Alma Popular” 15-01-1937).



No dia 20 de Novembro de 1937 a sala assinala um outro grande momento da sua existência com a estreia do teatro de revista “Bustos em Cuecas”. Nesse ano não houve qualquer comemoração do 5 de Outubro (“Faltou o Hilário que com o seu fervor organizava alguma coisa” (Diário de V.R.P), mas no ano seguinte o improvável aconteceu com o Sr. Visconde de Bustos a presidir à comemoração republicana:

Aniversário da República – Como anunciámos, o 5 de Outubro teve aqui festiva comemoração no Centro Recreativo efectuou-se uma sessão solene, a que presidiu o sr Visconde de Bustos, tendo usado da palavra os académicos Manuel Augusto dos Santos Pato, Mega Fontes e António Almeida Pato e os Srs Vitorino Reis Pedreiras e dr. António Vicente.
Todos os oradores fizeram a apologia do regímen Republicano, tendo sido muito aplaudidos e a República entusiasticamente aclamada pela enorme assistência.
Três Jazzs – “Os Melros”dos Covões; “O Lúcifer” da Mamarrosa; e os “Galitos” de Bustos – abrilhantaram as festas que terminaram por um animado baile, cujo produto reverteu em favor dos pobres”
(“Alma Popular”, 21-10-1938).

Alguns filmes

12 de Março de 1939: É exibido o primeiro filme colorido, “O Jardim de Alah”.
19 de Março de 1939: É exibido “Os Fidalgos da Casa Mourisca” ,realizado por Duarte Cruz.
2 de Março de 1940: A exibição do filme “O Rei dos Reis” provoca a maior enchente de que há notícia. Mais de duas mil pessoas lotaram a sala tendo muitos desistido de assistir à sessão.

Belino Costa

28 de maio de 2008

"CHÉ MACANUDO, VÓS ESTAIS VIVO!"

Gente da Nossa Gente

UM CASO DE EMIGRAÇÃO

Neste rectângulo enclausurado entre o Atlântico e Espanha, a emigração tem sido sonho, anseio de vida melhor, modo de saciar a necessidade de aventura e uma maneira de conhecer novos espaços e gentes.

As motivações para deixar o torrão natal têm variado ao longo do tempo, mas a emigração alargou os horizontes e foi uma escola de vida para milhares de portugueses.

Ora, para António Bolo, bustoense de larga nomeada, o desejo de aventura nasceu cedo e a esse desejo tudo sacrificou e muitos sacrifícios passou para cumprir o seu destino.

Da escola nem queria ouvir falar e, não raras vezes, a trocava pela prática da natação na "bala do Sardo". Quem por lá passava não deixava de o repreender, mas este logo ripostava: "Más vále sabêre nâdáre que sabê lêre. Pôque se caira à máre se agarra à salguêra!"

Jovem adulto, parte com Pedro Crespo para a Argentina, destino pouco frequente dos nossos conterrâneos. Lá conseguiram facilmente emprego. Enquanto Pedro Crespo, que aprendera o ofício de Ferreiro com o velho Aires da Azurveira, se emprega nas oficinas da "Ferro Carril da Argentina, o António Bolo arranjou trabalho em "Las Pampas" e, mais tarde, dedicou-se ao comércio ambulante.

Embora separados, os dois aventureiros, passavam juntos o fim-de-semana para matar saudades e falar da terra e dos amigos que tinham deixado, tomar um copo e a banquetear-se com a divina parrilha argentina que se vendia pelas ruas da Buenos Aires.

Contudo, os ares argentinos foram contaminados por grave endemia febril, que prostrou o António no hospital.

Quando disso soube, o Pedro passou a visitar o amigo todos os dias à noite. Mas, certo dia, levado por um estranho pressentimento, foi visitar o amigo. Contudo, nem o pressentimento o preparou para a surpresa que o aguardava.

A emigração também é conhecida pela sua fertilidade em episódios rocambolescos, um deles protagonizado por António Bolo.

Na noite anterior, o António, debilitado pela febre, tresloucou quando a "irmã de caridade", lhe quis dar um "caldito". Delirante, supôs que aquela lhe queria dar o "caldo da meia-noite". Sem delongas, pontapeia a malga do fervente líquido que se derrama sobre o peito da "alma caritativa" e, sem papas na língua, exaspera-a com quantos filha sabe- se lá de quem... conhecia e, cai num profundo desmaio.

As pessoas que ocorreram aos gritos da escaldada "irmã" tiraram-no, sem contemplações, para a morgue para acabar com a pouca vida que lhe restava.

Todavia, a fria laje, para onde o arremessaram, teve o condão de lhe baixar a febre e acordar o "galo" que ganhara quando foi despejado na morgue, depois da sua proeza.

Na manhã seguinte, Pedro Crespo, é informado que o amigo falecera durante a noite. Consternado, pede para o ver. Chegado à morgue, para prestar a última homenagem, quase desmaia de susto ao verificar que o seu amigo estava vivo e lança esta expressão aprendida na Argentina: "Ché macanudo, vós estais vivo!"

Depois de se refazer do susto e de se exultar pelo facto de o amigo estar vivo, transporta-o para outro hospital até este se restabelecer.

Tempos depois, ambos regressam à terra natal. Pedro volta às lides agrícolas. António Bolo envereda pelo comércio da batata, jactando-se de ser muito rico.

Tanto se pavoneou com a sua riqueza que, os autores da revista ‘Bustos em Cuecas’, o satirizaram num dos seus quadros, deste modo:
«Quando eu vim do estrangeiro
trouxe muito dinheiro.
Não há ninguém comamim
Quando eu faço os meus comprados,
São logo pagados,
Porque trouxe muito pilim.»

Com o decorrer do tempo, cada um seguiu com a sua vida, mas o António Bolo sempre que matava o porco, pescava enguias ou fazia uma peixada, convidava o Crespo para a festança em honra da aventura e da amizade.

Infelizmente, hoje já não é assim, porque todos querem ser grandes antes de serem humanos.
Ulisses de Oliveira Crespo, cronista da vila.