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27 de setembro de 2014

CARLOS LUZIO  10º aniversário da sua morte

Uma breve Homenagem






Uma carta para ti... Algures...


Dez anos que passaram num piscar de olhos.
Desde o momento da tua partida decidi remeter-me ao silêncio e guardar para mim as lembranças do passado, as lembranças dos episódios das nossas vidas...nem imaginas as saudades que continuas a despertar nos nossos corações. Continua a ser um bate-bate muito forte!


Lembras-te das mil e uma conversas pela noite dentro, na casa dos Manolos, lá em cima na tua salinha; as discussões filosóficas sobre a vida, sobre o amor, sobre as pessoas... Só depois da tua morte fiquei a saber da tua escrita. Perguntei-me várias vezes porque o terias ocultado, porque não quiseste partilhar as tuas palavras, a tua poesia...Acabei por resignar-me ao longo do tempo e a achar que seria o teu baú, a tua vida...“Terrivelmente Só” . Acreditavas que escrevias “Poemas que se cobrirão de pó, Quando morrer, algum dia...”. Soubeste que fizeram um livro, com eles, com os teus poemas! Que bela forma de continuares por aqui, como brisa no passar de uma folha.


Desfiando ainda as nossas memórias, lembras-te de quantos filmes vimos juntos, que partilhámos... já para não falar das tuas longas metragens de realizador! Sempre que íamos de viagem levavas a tua câmara de filmar e congelavas a tua realidade do momento. Depois, só queríamos chegar a casa para rever as filmagens. Ler “Ainda estou vivo” no teu Pescador de Sonhos é ver o Sétimo Selo do Bergman.
E a música? Como esquecê-la? Tantas horas passadas.... e quando a mãe Silia se juntava a nós e partilhávamos todos de uma mesma emoção?! A música tem destas coisas e tu bem o sabes, pois que a levavas para toda a parte.

Foste embora cedo de mais. Já não conheceste a Ana. Apresento-a agora aqui, a oferecer-te a Pavana Para Uma Infanta Defunta, de Maurice Ravel, interpretada por ela em nossa casa. Ficámos com o teu livro, a tua poesia e o som do piano pela noite dentro.

Obrigado por tudo o que nos deixaste a todos e continua a sorrir assim, para todo o sempre.
Cuida-te e cuida os que agora estão contigo!


Com muitas saudades, teu sobrinho.
Paulo Luzio 

 
 
ps: Pavana.wmv



10 de agosto de 2014

CARLOS LUZIO continua a pescar sonhos.

Carlos Manuel dos Santos Luzio 
10.08.1947 - 27.09.2004   
foto cedida por Vanda Rafeiro

És o oásis onde campeia a minha liberdade,
Paraste o tempo para que eu tivesse sempre a mesma idade
20.11.1990,
Carlos Luzio, (Oásis).
 in Pescador de Sonhos


Lançamento do livro de poesia  'Pescador de sonhos'  (02.10.2005)
" ...a fronteira entre o mundo poético e o universo pessoal se revela muito ténue, quase inexistente" ( Michelle Mota).

17 de fevereiro de 2014

"….PORQUE É QUE NÃO ÉS COMO O NATALINO?" (1)


foto de arquivo da Família

 Natalino dos Santos Rodelo
19.01.1941 – 29.11.2013
Póvoa (Bustos) – Boliqueime (Loulé)

Filho de Adriano dos Santos Rodelo e de Caurina Mota
Casado com Irene Silva Ferreira Rodelo.
Os filhos, Dean Ferreira Rodelo e  Diana Ferreira Rodelo (e aqui),  são professores de Matemática 

“A minha paz
residia debaixo daquele tecto (2)
[na alfaiataria do Ti Adriano]
(Carlos Luzio)

Natalino Rodelo foi um cidadão exemplar da diáspora de Bustos, dedicado *a Família, profissional com nome firmado, autodidata em busca do saber e do belo, dirigente associativo, … a sua presença em atos públicos  era marcada pela discrição. Desde muito cedo revelou aptidões para a escrita e para o desenho.  
Casa de Bustos  –  Adriano Rodelo e Caurina Mota com o «Lorde» (5) (sentado)
A ponta de cigarro tenta passar camuflada   foto de arquivo da Família
O professor Manuel Pires, extraordinário preparador dos alunos para enfrentar o exame de admissão aos Liceus, elogiava amiudadas vezes as suas redações.
Ouçamos o loquaz Élio Freitas, companheiro e testemunha privilegiada do então vizinho e amigo Natalino:
Memórias da Rua da Póvoa






De toda a rapaziada 
da Rua da Póvoa, 
o Natalino 
era o mais escravo,
mais sacrificado de todos.

Desde que me lembro, o Natalino e a sua irmã Marlene trabalhavam todos os dias ao lado dos seus pais, Adriano e Caurina, na alfaiataria…
Caurina Mota  e  Adriano dos Santos Rodelo
foto de arquivo da Família

Enquanto a malta brincava e fazia trinta por uma linha, o nosso amigo Natalino lá estava todos os dias a ajudar na alfaiataria.

O Sr. Adriano era muito restrito com os filhos. A solução era simples:
Nós íamos ter com ele à alfaiataria. Quando eu e outros queríamos ler uma revista como o Mundo de Aventuras, ou Revistas de filmes, a nossa biblioteca era a alfaiataria Adriano. O Natalino assinava as melhores revistas juvenis e isso atraía os colegas para ler e visitar o amigo…
Rua da Póvoa – Alfaiataria antes da remodelação da casa (actual casa de Milton Luzio)

O local de encontro diário para muitos jovens da zona era a alfaiataria por causa da leitura das revistas…e o Natalino sabia que isso era uma maneira de compensar o facto de ele ter de estar sempre amarrado ao trabalho e não poder sair a brincar com e resto dos amigos da Rua.



foto de arquivo da Família

O Natalino era o modelo de rapaz que todas as mães da Rua da Póvoa usavam para exemplo dos filhos…."Porque é que não és como o Natalino?" E todos os que o conheciam tinham-lhe muito carinho e respeito, porque sabiam o sacrifício que ele fazia para obedecer ao pai Adriano…
Aos Domingos lá vinha a oportunidade de uma festa ou baile, e os colegas da Rua da Póvoa aí estavam todos contentes por acompanhar o modelo amigo Natalino a passar umas horas alegres como qualquer jovem da sua idade. 
Memórias que nunca morrem, dum amigo de sempre, dum jovem educado e totalmente dedicado á sua família(Élio Freitas, Califórnia) 

Um aparte: A “escola” dos seus Pais (Caurina e Adriano) deu frutos sãos e merece uma reflexão a ser feita pelos educadores de hoje.

O ambiente da Alfaiataria transposto por Carlos Luzio em dois poemas “Ti Adriano – Alfaiate” e “Entre Panos e Linhas” “oferecem-nos um retrato comovente daquele que fora noutros tempos, um importante ponto de encontro desta aldeia, …” (3) (Michel Mota).
Bustos - Casa do Sr. Adriano -  A Alfaiataria foi "um importante ponto de encontro" (Michele Mota)
foto de arquivo da Família 

É naquele primeiro poema que o Natalino fica a ser registado com o atributo de o «Linhas», conforme o excerto de “Ti Adriano-Alfaiate (4) …:

Recordo as tardes a ouvir música num velho gravador
Não era música do teu tempo, não senhor
Eram canções que ouvia como se fossem minhas
Que gostavam ao “Lorde” (5) e ao “Linhas” .
(Carlos Luzio, Pescador de Sonhos)

 Com naturalidade e muito trabalho, gosto e dedicação, o Natalino fez-se à vida.
Um vivo agradecimento às informações prestadas pela Irene Rodelo que vão preencher uma parte do seu invejável  

3 de outubro de 2012

SÍLIA DA SILVA SANTOS - FALECEU. Era viúva de Manuel Simões Luzio Júnior

a
SÍLIA DA SILVA SANTOS
(Viúva de Manuel Simões Luzio Júnior)
24.03.1923 - 3.10.2012

FALECEU

ADEUS, MÃE

Queria que nascessem flores
No teu regaço
Como nasci eu,
Para pores na minha campa
Se eu morrer …
Queria sonhar
Ter sonhos inocentes
E sentir o amor
Das tuas finas mãos
A afagar-me os cabelos
Se eu morrer …
Só não te quero ver chorar
Quando partir …
Cuida as flores do teu jardim
Que se também morreres
Algum dia, alguém as há-de apanhar …

                       Funchal, 04.Agosto.1970

 (in Carlos Luzio, “Pescador de Sonhos”,
 Dedicatória à Mãe,
edição póstuma, Bustos-2005).

Sília da Silva Santos – viúva de Manuel Simões Luzio Júnior – faleceu hoje, com 89 anos de idade.

O Corpo estará amanhã – 4 de Outubro.2012 – na Casa Mortuária da Freguesia de Bustos, onde as exéquias do funeral terão início pelas 18H00, com ‘Missa de Corpo Presente’.

Um abraço de condolências a
António Feliciano dos Santos Luzio
Élia Santos Luzio
Paulo e Diana

E demais Familiares.
___________
foto enviada por sérgio pato

1 de agosto de 2012

S. Lourenço de Bustos

faltam 8 dias para o início dos festejos deste S. Lourenço muito especial.
Especial, porquê, perguntarão os mais distraídos?
As respostas são 3 e simples de dar:
1ª - A imagem do S. Lourenço de Bustos é diferente das demais imagens com que o Santo da Igreja é retratado por esse mundo fora. 
A nossa é a mais bonita de todas, pois claro, mas gostos é coisa que não se discute. Muito menos se discute a fé de cada um, crente ou nem por isso.
2ª - No dia 10 de Agosto de 1947 nasceu um poeta de Bustos, um Pescador de Sonhos.
3ª - Porque o S. Lourenço de Bustos é mesmo especial, ponto final, mesmo que a hierarquia católica se mantenha equidistante, longe das paixões dos povos por onde o padroeiro se divide.
Como o S. Lourenço também é do povo, cada comunidade tem direito a achar que o seu S. Lourenço é venerado num único lugar do mundo cristão: aquele onde vive cada devoto do Santo.

Resta-me lembrar-vos que o então diácono Lourenço foi assado na grelha  em 10 de Agosto do ano de 258.
Cerca de 54 anos depois, o imperador romano Constantino converteu-se ao cristianismo. Poucos anos depois, convenhamos, para os tempos que se viviam.
Se o suplício de S. Lourenço ocorresse nos dias de hoje, a comunidade internacional demoraria uma eternidade a julgar e punir o vil e cruel imperador Valeriano, autor moral da morte do nosso Santo.
A explicação também é simples: embora as roupagens sejam outras, o mundo mudou muito pouco desde 258 depois de Cristo.
Só encontro uma explicação: os poderosos de hoje são discípulos dos cruéis imperadores romanos.
___
Imagem do cartaz do programa das festas, cedida pelo Tony da Artser, a quem o NB agradece.
A imagem voltará ao altar do NB, já com a publicidade dos generosos patrocinadores.

5 de maio de 2012

DIA DA MÃE


 Em fuga da Somália, mãe tem que decidir qual dos filhos salvar da fome (Refugees United Brasil)

**


MÃE
Dedicado a minha Mãe
[quando entrava na 
Escola Prática de Infantaria de Mafra]

  
Cabelos loiros de seara
Olhos verdes de mar
Rosto de pureza angelical
Rosto que sentiu
O caudal amargo das lágrimas,
Olhos verdes cheios de esperança
Que acabou por a ver sucumbir,
Olhos verdes que as noites de insónia
Não conseguiram fechar,
Olhos verdes que foram
Fonte pura de lágrimas,
Olhos tristes que viram partir
Outros olhos tristes, iguais,
Que para a guerra foram
E não voltaram mais …

              Bustos
              28.Junho.1969
 CARLOS LUZIO,
 pescador de sonhos – POEMAS DE GUERRA (Mãe).
 edição póstuma. Bustos.2005
___________________________________________________________________
imagem. O recém-nascido,  (fragmento) – Museu de Rennes

Georges de la Tour
1593 – 1652
 100 Obras-Primas da Pintura Europeia,  
Biblioteca Básica Verbo 2, Livros RTP,
 Editorial Verbo, 2ª edição. (pg.s 104, 5)

22 de abril de 2012

GUERRA COLONIAL. REGISTOS BREVES


áfrica 

Campos desesperadamente verdes
Queimadas fazendo a noite eterna
Batuques que nenhum vento cala
À sombra das acácias para um descanso
A garganta áspera em mil sedes
O pó infiel que nos governa
A morte triste na ponta de uma bala
Para falecer com um olhar triste e manso
Temos apenas vinte anos
E não sabemos o que nos espera
Atravessamos a sinistra picada
Com a vida já mais que perdida
A próxima mina destrói todos os enganos
Um morteiro que mata toda quimera
Chorar por ti não serve de nada
Nenhum pranto te devolve a vida
África, prostituímos a tua linda terra
Violamos a tuas indefesas mulheres
E roubamos os teus gados
E aos teus homens lhes impusemos castigos
Pagamos com corpos essa guerra
Com as nossas vidas se preferes
Espero que hoje estejamos perdoados
 E que voltamos a ser amigos.

              Chacaito (Caracas)
              21.Outubro.1995
in CARLOS LUZIO (10.08.1947 - 27.09.2004) , pescador de sonhos – POEMAS DE GUERRA, edição póstuma. Bustos.2005 

Registos da Guerra Colonial (Angola):



A Vila ou Cidade  "Salazar" do tempo colonial  é (e era a já conhecida) N'dalatando.

com a devida vénia para N’dalatando City Guide & Information 
As fotos cedidas por Andriano Simões, militar mobilizado para o teatro de guerra em Angola, fixam dois momentos a merecer uma nota de memória.

Mais uma recolha de Sérgio Pato, que estava em arquivo há vários meses.
Um bem haja aos intervenientes deste post.

27 de setembro de 2011

Carlos Luzio - E num segundo Como se fosse o fim do mundo Uma terrível explosão ... (Pescador de Sonhos)

Carlos Manuel dos Santos Luzio

10.08. 1947 – 27.09.2004

MOCÍMBOA DO ROVUMA

(11.Janeiro.1971)

O capim está prestes a estalar

O suor ácido a nublar-nos o olhar

O medo a fermentar

No silêncio fúnebre que paira no ar

O olhar cansado de estar atento

Um tique doloroso em cada movimento

Um gole de água a matar a sede

Por um breve momento

E nem uma pontinha de vento

Para nosso desalento

Um alto para comer o que sobra da ração

Para enganar a fome na última migalha de pão

Num descanso no regaço da inquietação

E num segundo

Como se fosse o fim do mundo

Uma terrível explosão

Pedaços de um corpo espalhados na picada

Um fumo negro e espesso

A esconder ferros torcidos

Um castigo que não mereço

Gritos a abafar o ruído da metralha

Vindo da emboscada

Um morto e tantos feridos

O preço desta guerra canalha

E chorei desalentado

Como se fosse eu o culpado

Daquele corpo mutilado

Lamentei não ter desertado

E até perdi a fé

Por Deus não estar do nosso lado.

16. Maio.2004

in Carlos Luzio,

Pescador de Sonhos (POEMAS DE GUERRA),

(edição póstuma) 2005

1 de março de 2011

50 anos da Biblioteca: outros heróis

MANUEL ANTÓNIO TAVARES ROMÃO 
Na exposição, junto dos seus livros e da célebre grafonola portátil

JOÃO MARTINS DE OLIVEIRA
O pintor acorda cedo
Para que o sonho não morra esquecido 
Pinta azuis ...
O pintor 
Escolhe com rigor
Cada tinta
Para dar a luz soberba a cada quadro que pinta ...
O pintor pinta apenas aquilo que sente
E eu saúdo-o humildemente,
Porque eu também pintava azuis
Nos tempos tristes da minha infância

*
- Poema do Carlos Luzio dedicado ao João Oliveira. O João pinta como Martins de Oliveira. Os Amigos pintam-no como João dos Barrocos.
[CARLOS LUZIO, O PESCADOR DE SONHOS, 2005, Edição dos Amigos. Autor da gravura da capa: João Martins de Oliveira. Título: talvez um dia!...]
- Fotos do TELMO DOMINGUES.

27 de setembro de 2010

CARLOS LUZIO - Poeta do amor e da guerra

Seis anos depois, continuamos a lembrar-te.
Como escrevias num dos teus poemas: ACASO NÃO SOMOS AMIGOS?
*
Poema das águas

Entre tantos poemas
este é feito de água apenas
Água benta
para quando o diabo atormenta
Água potável
para o corpo estar saudável
Água quente
para um banho urgente
Água fria
para começar bem o dia
Água de colónia
para cheirar bem na cerimónia
Água do mar
para lançar a rede e pescar
Água do rio
para servir de caminho ao navio
Água salgada
para aliviar os pés da longa caminhada
Água do Jordão
para dar baptismo ao novo cristão
Água do Sena
para inspirar este poema
Água canforada
para que a dor seja ultrapassada
Aguarela
para que o teu rosto fique pintado na tela
Gin com água tónica
para uma viagem supersónica
Aguardente
para bochechar quando dói o dente
Água mineral
com bolachas de água e sal
para quando o fígado andar mal
Água doce
para matar a sede que o Verão trouxe
Água destilada
para que a bateria não fique descarregada
Água oxigenada
para que a ferida fique sarada
Água inquinada
que não serve mesmo para nada
Água da chuva
que no Verão assenta como uma luva
Água pesada
com uma força astronómica
misturada com plutónio
faz uma bomba infamemente atómica
para nos queimar o último neurónio
que nos reduz a nada
Pobre povo ancestral do Japão
que ainda hoje não levanta os olhos do chão
Água do Tigre
Água do Eufrates
onde se morre em estúpidos combates
E eu passeio-me triste e cabisbaixo
vendo como o planeta vai por água abaixo...
___
- Carlos Luzio\Pescador de Sonhos\"Poema das Águas", escrito a 26-5-2004 \ Livro editado pelos Amigos em 2005.
- Post semi biográfico no BLOGUEDOOSCAR.