15 de julho de 2010

Troviscal: uma República solidária

A implantação da República em 1910 assentou na defesa da igualdade e da fraternidade entre as pessoas.
Caiu-me nas mãos um exemplo vivo desses ideais republicanos, cuja história passo a relatar.
Em 25 de Outubro de 1924 um grupo de 27 troviscalenses constituiu uma sociedade civil que adoptou a denominação de "Assembleia Republicana de Instrucção, Beneficência e Recreio".
O seu objecto imediato foi a construção duma casa num terreno dum dos sócios fundadores, com "um fim altamente patriótico, cívico, instrutivo, recreativo e moral".
No acto da sua constituição ficou logo previsto que a sociedade se regeria por estatutos próprios.
É destes que vos quero falar, porque representam a melhor herança do espírito republicano.
Impressos em 1926, os Estatutos da Assembleia Republicana do Troviscal serviram para constituir uma associação de carácter republicano, com os seguintes fins:
1º - Servir de laço de união e amor fraterno entre todos os republicanos seus associados;
2º - Promover instrução e recreio aos associados pelos meios ao seu alcance, proporcionando-lhes também passatempos agradáveis tais como: reuniões familiares, palestras, bailes, récitas e tudo o que possa servir para a prosperidade da Assembleia;
3º - Organizar um gabinete de leitura e respectiva biblioteca;
4º - Criar uma caixa de beneficência para socorrer os necessitados da freguesia;
5º - Criar, sendo possível, um fundo de reserva, destinado à compra de livros e vestuários de crianças extremamente pobres cujos pais ou tutores não tenham meios para os adquirir.
É certo que parte desses ideais se foram perdendo, a tal ponto que da memória da minha geração apenas ficaram os famosos bailes na Assembleia Republicana do Troviscal.
Como certo e adquirido é que, com a Revolução de Abril, a então chamada beneficência passou a ser assumida por instituições vocacionadas para a solidariedade social.
Mas foram os valores e objectivos que acima citei que marcaram o início da República.
Entretanto, a Assembleia Republicana do Troviscal não morreu. Antes pretende renovar-se e acompanhar os novos tempos, mantendo os verdadeiros ideais da República, cujo centenário passa este ano.
Festejar a República passa necessariamente por vivificar a memória daqueles que lutaram pela instrução, pela igualdade e pela solidariedade entre os homens.
Mas passa também pela lembrança de que foi por via dos erros cometidos na 1ª República que nasceu a ditadura, filha do golpe militar de 28 de Maio de 1926, curiosamente contemporâneo dos Estatutos da Assembleia Republicana do Troviscal.

13 de julho de 2010

RAZÕES DO FÓRUM: SILAS GRANJO E A FILARMÓNICA DO TROVISCAL



Corre o mês de Novembro de 1922 e Manuel, Bispo de Coimbra, decreta o interdito à música do Troviscal, filarmónica que assim se vê impedida de participar em festas e actos religiosos. E a proibição não se limita à banda, estende-se a cada um dos seus elementos, ainda que incorporados noutras filarmónicas.

E qual o motivo de tão severa pena contra músicos amadores? Apenas um, a banda ter integrado o cortejo de um funeral realizado sem cruzes ou padre. Um funeral civil!

À fúria persecutória do Bispo respondem os excomungados e demais ofendidos decidindo a interdição do clero na freguesia, até que à música seja permitido exercer a sua profissão em toda a parte. A partir desse dia e até ao fim da interdição, em 1939, mantém-se um braço de ferro que afasta o clero da aldeia.

Este é um notável episódio de solidariedade e resistência popular contra a intolerância e prepotência da Igreja. E é um marco na História da Primeira Republica, que transformou a banda do Troviscal num símbolo nacional.

Sobre esta questão existia um trabalho de Silas de Oliveira Granjo (Banda Excomungada, Clero Interdito no Troviscal Republicano), integrado nas Actas do Colóquio – Anticlericalismo Português.História e Discurso, que, a nosso ver, justificava e exigia uma publicação autónoma. Estava encontrada uma boa razão para o Notícias de Bustos se abalançar no campo da edição não digital e viajar ao tempo em que os livros tinham peso e eram feitos de papel.

Silas Granjo não só aceitou com entusiasmo a proposta para a edição do seu trabalho como, apesar de condicionado por prazos muito apertados, o valorizou, introduzindo um número significativo de novas páginas com informações, documentos e fotografias.

Maestro, compositor, investigador, professor, com uma marcante actividade cívica e cultural, Silas de Oliveira Granjo é uma figura ímpar e, escrevo-o com justiça, uma das maiores referências bairradinas. O livro, Troviscal Republicano: Banda Excomungada, Clero Interdito (1922-1939), que será lançado no Fórum de Bustos, no dia 24 de Julho, pelas 12 horas, é disso exemplo.

Para o Fórum 2010 será mais uma forma de assinalar o centenário da República. De uma assentada evocamos um episódio marcante da luta pela construção do estado laico e recebemos um magnífico representante da tradição musical e do rebublicanismo troviscalenses.
B.C 



SILAS DE OLIVEIRA GRANJO


Silas de Oliveira Granjo nasceu em 1945 no Troviscal e aí reside.

É Licenciado em Filologia Germânica – Ramo Literatura Inglesa, pela Universidade de Coimbra; Mestre em Estudos Ingleses e Doutor em Literatura, pela Universidade de Aveiro. Ambas as teses têm como objecto de estudo a obra da escritora canadiana anglófona, Marian Engel.

Tem vários artigos publicados em revistas da especialidade.

Leccionou Inglês e Alemão no Instituto de Promoção Social da Bairrada – Bustos e na Escola Secundária de Vagos.

Na Universidade de Aveiro, ao longo de mais de 25 anos, leccionou Literatura Inglesa, Teoria da Literatura, Língua Inglesa e Cultura de Expressão Inglesa.

Membro da Comissão Organizadora do Congresso Internacional dos 75 anos de A Selva, de Ferreira de Castro.

Coordenador das comemorações do Centenário do Nascimento de Arlindo Vicente (2006).

Coeditor do livro Arlindo Vicente, Óleo, Aguarela, Desenho e Ilustração.

Fundador da Banda da União Filarmónica do Troviscal (1989), que dirigiu durante 12 anos. Regente da Banda da Mamarrosa (1979-1991) e da Banda Marcial de Fermentelos (1979-1987).

"udbustos.blogspot.com" NÃO É BLOGUE OFICIAL DA UNIÃO DESPORTIVA DE BUSTOS

Esclarecimento:

A actual direcção não tem nada haver com a criação do novo site da União Desportiva de Bustos. Além disso queremos informar que até a data de hoje que nós tenhamos conhecimento, ainda não existe um grupo de trabalho que permita formar uma direcção. O Dr. Fernando Vieira assumiu que seria o Coordenador do Futebol 11, e o facto de não existir uma direcção para a próxima época desportiva, não o demove de continuar a preparar o Futebol 11.

Beatriz Costa
(Presidente da UDB)

UMA RELÍQUIA DA UNIÃO DESPORTIVA DE BUSTOS NA FIACOBA'2010


A Junta de Freguesia de Bustos está presente com dois módulos na FACOBA/2010, sendo um deles quase exclusivamente ocupado pela arte dos bordados.
Um painel de fotos e memórias preenche largo espaço da parede norte do primeiro módulo. A merecer uma paragem.
Um bouquet de bandeiras de Bustos decora a exposição. Uma relíquia de artesanato está escondida no meio de repeitáveis bandeiras: da União Desportiva de Bustos, com a data da fundação do clube em 20-2-48.
Mesmo com a confusão criada pelo cruzamento dos sons debitados pelas aparelhagens sonoras da Fiacoba e do Certame dos Cavalos, vale a pena passar pelo acolhedor Espaço Inovação.
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Nota: Inscreva o novo blogue da União Desportiva de Bustos nos Favoritos
http://www.udbustos.blogspot.com/

sérgio micaelo ferreira

12 de julho de 2010

UNIÃO DESPORTIVA DE BUSTOS VAI A VOTOS

AU.D.B. reentrou no mundo digital. Está preenchida mais uma lacuna no mundo da informaçãode Bustos. Parabéns.



Os Sócios da União Desportiva de Bustos estão convocados para eleger os Corpos Sociais(2010/2012) em Assembleia-Geral Ordinária.
Dia: 20 de Julho'2010 (terça-feira)
Hora: 20H00
Local: Instalações do Campo Dr. Manuel dos Santos Pato (Sobreiro-Bustos).
Aguarda-se que haja fumo branco...

9 de julho de 2010

CHICO HUMBERTO tem curriculum invejável














CHICO Humberto, assumido republicano-laico-socialista, é visceralmente Bustuense.


O registo das suas memórias é indispensável para ajudar a construir uma parte do passado recente.
srg

8 de julho de 2010

O CHICO - DIAMANTE PARA HUMBERTO REIS PEDREIRAS... CUMPRE 76 ANOS!


O CHICO
Humberto Reis Pedreiras
1934 - 8 de Julho - 2010
76 anos estão cumpridos.


O CHICO, no registo oficial: Humberto Reis Pedreiras, cumpre a passagem por 76 calendários. Interventivo para além do sol-posto, alcançou vitórias cimentadas em desaires. Nunca desistiu de ir à luta mesmo em situações eleitorais de fracasso pré-anunciado. Sempre em defesa das suas convicções. A participação em movimentos associativos ou político partidários vem já de longo tempo e de tradição da família.
O CHICO, teimoso à hora da bica, contestatário à hora da munhaca, nunca deixou de cultivar a solidariedade. Sem publicidade.
Um abraço com parabéns
do sérgio micaelo ferreira
___________
Nota:
Acerto de datas -
O Chico não precisa que se lhe tire um ano.
O Chico é como o Vinho Fino ...
srg

7 de julho de 2010

CICLOTURISMO. 18 DE JULHO

No próximo dia 18 de Julho o Orfeão irá organizar mais uma edição do Cicloturismo de Bustos, iniciativa que teve berço e evolução até 2008 com um conjunto de amigos de Bustos que consideraram ser esta uma iniciativa que interessava à freguesia, promovendo o convívio, o conhecimento e desporto saudável.

O Orfeão com a ajuda desses elementos, aproveitando a experiência acumulada, pretende também dar um contributo no sentido da continuidade da realização deste evento.

O percurso é o seguinte:

8:30h- Concentração no Parque da Junta de Freguesia de Bustos

9:00h- (Início do passeio) – Bustos – Mamarrosa – Feiteira – Vila Verde – Malhapão – Oiã – Giesta – Perrrães (Parque do Carreiro Velho) --» 19 Km

18:00h - ( Regresso a Bustos) – Perrães – Giesta – Oiã – Malhapão – Limeira – Feiteira – Sobreiro (Recinto da Feira)

5 de julho de 2010

RAZÕES DO FÓRUM: OS PRIMEIROS REPUBLICANOS DE BUSTOS



No início do século passado houve um grupo de homens ousou defender os ideais republicanos e lutar pela construção uma sociedade civilista e laicizada, acreditando que o ensino e o positivismo científico seriam o fermento de um “homem novo”.
A luta pela implantação da República foi bem mais do que o combate por uma nova forma de organização política onde, por exemplo, se passou a eleger um chefe de estado. Movidos por uma exacerbada ideia de missão, estes homens almejaram uma sociedade de cidadãos, acreditando que estava em causa a salvação de Portugal e a refundação da pátria portuguesa.

Em Bustos, e no concelho de Oliveira do Bairro, eles não eram a chamada arraia-miúda, pobre e analfabeta, mas sim distintos médicos, proprietários, e comerciantes. Idealistas que chegaram a investir as suas poupanças na causa republicana e arriscaram a vida na defesa do novo regime. Uns, como o Dr. Manuel dos Santos Pato, teceram argumentos e polémicas nos jornais, outros, como Jacinto Simões dos Louros, organizaram grupos, lideraram a luta pela criação da Freguesia.
Um deles, Augusto Simões da Costa, patrocinou o lançamento de jornais como o “Alma Popular” e o “Farol da Liberdade”, e outro, Manuel Simões Mota, arriscou a vida nas trincheiras da Primeira Grande Guerra. Houve também quem, por amor à liberdade e à República, fosse torturado e preso, como aconteceu a Manuel Reis Pedreiras que abandonou os calabouços da polícia política para vir morrer a casa. Em 6 de Junho de 1959 o jornal de Lisboa, República, assinalou a sua morte, ainda que a censura pouco tenha deixado revelar. Vivíamos no tempo em que Salazar impunha um discurso de diabolização da Primeira República e dos republicanos.

Quarenta e oito anos de ditadura fizeram com que os nomes daqueles que lutaram pela República e pela criação da freguesia de Bustos ficassem esquecidos. Impunha-se tentar recuperar os nomes e os rostos daqueles que, no início do século passado e suas primeiras décadas, abraçaram o ideário republicano em Bustos. Precisávamos de os resgatar do esquecimento.

A primeira fase dessa investigação levou-nos até aos livros de Vitorino Reis Pedreiras e Hilário Costa, aos manuscritos e correspondência de Jacinto Simões dos Louros, assim como aos jornais da época e outros documentos. Tarefa difícil porque aqueles que poderiam ter fornecido a mais detalhada informação, como Jacinto Simões dos Louros, viveram e escreveram em tempo de ditadura, assumindo a auto censura, por saberem que se tais nomes fossem apanhados pela polícia política, iriam denunciar e prejudicar os nomeados.
Não será por acaso que as referências encontradas entre os textos de Vitorino Reis Pedreiras tenham sido feitas já depois da revolução de 25 de Abril de 1974 e que Hilário Costa só no livro de 1984, Bustos, Memórias de um Bustoense, tenha indicado alguns nomes de homens muito dignos que lutaram pela criação da freguesia.

Elaborada a primeira lista de republicanos impunha-se depois divulgá-la e, muito especialmente, confrontar os descendentes desses homens, saber se ainda hoje os identificam como republicanos, e se o seu exemplo permanece vivo na memória familiar. É aqui que entram em acção duas mulheres de Bustos, Dina Costa e Ditosa Luzio, também elas, netas de republicanos. Consultando a lista e identificando os respectivos familiares, graças à ajuda de pessoas como Esmeraldina Reis Pedreiras, partiram para o necessário porta a porta. A experiência acabou por se revelar um assinalável sucesso, porque não só a lista cresceu, como foi possível reunir um significativo número de fotografias. Alguns nomes, alguns rostos, é certo, continuarão no esquecimento, mas no próximo dia 24 de Julho pelo menos 63 dos primeiros republicanos de Bustos serão lembrados e o seu nome ficará registado nas páginas da história bustuense.

São dezenas de boas razões para não perder o Fórum 2010, mas há mais.


Belino Costa

1 de julho de 2010

MARÉ ALTA: LEMBRANÇAS DO PASSADO (A POUCO DIFUSA) RÉCITA INFANTIL




A récita Infantil idealizada, coordenada e ensaiada pelo então recém formado padre Alfredo Rei em mil novecentos e quarenta e nove (1949)marcou profundamente o início de minha adolescência. E atrevo-me a dizer que, embora efêmera, marcou com simplória ternura, um momento da vida artística dessa nossa terra bustuense. Com o seu projetado objetivo iniciado no primeiro semestre daquele ano, o evento teve sua conseqüente
apresentação no clube de Bustos, depois de quatro ou cinco meses de ensaios semanais. O programa compreendia uma diversidade de quadros em que se intercalavam bailados folclóricos, cantos solo e esquetes quase todos, humorísticos.


Os pequenos artistas variavam de idade que se situava entre oito e quinze anos. Alguns dos componentes figuravam em mais de uma encenação:
Canto e quadro; canto e bailado; Bailado e quadro; Canto, bailado e quadro. Houve partes especiais com trajes típicos e cantos brasileiros, apresentadas pelos filhos (as) de um senhor Mota morador nas Coladas, que retornara do Brasil com a família, para viver em definitivo, no seu Bustos.

Filhos e filhas do sacristão; Felipe Rei e sua irmã; Os brasileiros citados; Isaura Vieira; Aidinha Ferreira; Um dos menores artistas, sobrinho do Chico Gueso (morador no cabeço, visinho de Reis Pedreiras); Samagaio da Azurveira são alguns dos participantes que guardo na lembrança, além do meu par feminino, cujo nome sumiu de minha memória: Filha única, era da Póvoa, morando na rua principal, depois do largo dos Moras.


A récita infantil de Bustos, cuja receita apurada era destinada à Igreja, foi também representada no Troviscal e depois, atendendo a pedidos, novamente levada ao palco no Clube de Bustos. Muitos dos que já haviam assistido foram de novo. Muito mais os que ainda não haviam visto a récita, graças aos comentários favoravelmente elogiosos, compareceram em massa, lotando mais uma vez aquela casa de espetáculos. Meu imaginário guardou a idéia de que cada quadro, cada cantar, cada bailado, ficou para sempre gravado na memória dos que assistiram á demonstração artística dos pequenos notáveis.



Quando do segundo jantar (1993) dos alunos da freguesia que concluíram o primário em 1947, na hora da saudade, de repente, Samagaio referiu-se a uma Récita Infantil em que tomara parte, mas não se lembrava de nenhum dos participantes. Antes que eu me manifestasse, Arcílio Barreiro, de saudosa memória, antecipando-se começou a cantar:

Não vás ao mar Tónio,
Hum... Hum!
O mar é bravo Tónio,
Hum... Hum!
Podes morrer Tónio...
Ai Tónio, Tónio!
Não vás ao mar, não vás...
Ai Tónio, Tónio!
Sabe Deus se voltarás...


Pode parecer pedante de minha parte, mas é fato que fiquei marcado por este quadro de pescador!

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Em mil novecentos e setenta e um (1971), após precisamente 20 anos de ausência, voltei pela vez primeira em visita, à minha terra natal: Bustos.
Um parente residente aqui no Brasil pedira-me para fazer uma visita a sua idosa mãe, que se encontrava doente, em Portugal. Logo na primeira semana na terra, tratei de entrar em contato com a família daquele meu aparentado, a fim de marcar o dia da visita que me comprometera realizar, tendo consciência que a melhor hora seria à noite, já que durante o dia, normalmente, as pessoas ocupavam-se com o trabalho do campo.
No dia marcado, fui brindado com uma lauda ceia a lembrar dos tempos de criança: Uma baciada de batatas, couves, e bacalhau, regado a um bom azeite e o irrecusável vinho tinto da casa. A conversa rolou cheia de amenidades até eu poder encontrar o momento oportuno para expor o principal motivo daquela minha visita, sucedendo-se uma série de lacónicas informações sobre a respectiva progenitora, onde havia uma explicita intenção de dizê-la já muito senil e desmiolada.



Não obstante, insisti em vê-la para poder dar uma satisfação ao parente do Brasil. Depois de muita relutância, finalmente convenci meus anfitriões a me levarem até junto da idosa.
Vou poupar-me de descrever as descuidadas quanto miseráveis condições em que se encontrava aquele ente familiar. Enquanto me apresentavam a ela, filho e nora de frente para mim, através de gestos iam me reafirmando o que já me haviam dito por palavras: Que aquela criatura já não regulava da cabeça tendo perdido a noção do tempo e quaisquer lembranças do passado, não reconhecendo mais ninguém. De repente aquele ser humano, que mais parecia apenas uma junção de pele e ossos, cabelos grisalhos, desalinhados, bastante compridos a lhe cobrirem os ombros, ergueu-se apoiado nos braços descarnados e, fixando-me, começou a cantar:

Não vás ao mar Tónio,
Hum... Hum!
O mar é bravo Tónio,
Hum... Hum!
Podes morrer Tónio...
Ai Tónio, Tónio!
Não vás ao mar, não vás...
Ai Tónio, Tónio!
Sabe Deus se voltarás...


Esta inesperada e surpreendente manifestação de memória foi um dos mais emocionantes momentos já vividos por mim!

Aristides C. Arrais