20 de março de 2007

“Hilário Costa … fez da sua terra a matéria-prima para o seu canto e arte. (Ulisses Oliveira Crespo)



“Enganaste (...) a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez. E quando vamos para debaixo da terra vida (...) não será isso morte sem recurso. Se estamos falando dele, nasce (...). Mas ele não o sabe. Tal como nós não sabemos bastante quem somos e estamos vivos.”

(José Saramago, Memorial do Convento)


Não vou dizer que em Bustos o conhecimento não abunda e o reconhecimento escasseia, tão-só erigir um memorial de toscas palavras para celebrar o centenário do nascimento de um bustoense que fez da sua terra a matéria-prima para o seu canto e arte. Falo, bem o sabeis, meus caros conterrâneos, de Hilário Costa (1907-2007). Falo de um homem que conheceu as agruras da emigração; conheceu os sabores da saudade do seu Bustos natal; cantou as suas gentes e prestigiou o nome de Portugal, quer nos Estados Unidos, quer na Venezuela, onde foi distinguido com a medalha de mérito Diego Losada. Contudo, também não esqueço a meritória campanha que desenvolveu em Bustos para dotar as escolas de pára-raios e a luta que travou para as equipar com cantinas escolares. Preocupações que evidenciam a ternura sentida pelas crianças.


Similarmente, nesta singela homenagem, reconheço a singularidade do seu carácter, a magoada saudade dos seus versos e, ao fazê-lo, tenho como desígnio evitar que a morte não seja «sem recurso» e a memória da sua passagem pela terra definitivamente amortalhada pelo esquecimento.


Acredito que uma das poucas obrigações dos vivos, no meu humano entender, é preservar a mem6ria dos mortos, não apenas em epitáfios os quais apenas inscrevem o começo e o fim de uma vida, senão em transmitir o legado ou legados que distinguiram a sua vida de homem. A 12 de Março de 2007, cumprir-se-á o centenário do nascimento de Hilário Simões da Costa. É tempo, pois, de dar a conhecer a sua poesia, de assinalar o centenário do seu nascimento com uma homenagem oficial e digna. É tempo de acabar com a falta de amor pelo autóctone; de consagrar a memória dos bustoenses dignos de mérito.


Assim, embora Hilário Costa já não esteja entre nós, ingratos vivos, cumpre às entidades oficiais homenageá-lo e, àqueles que o conheceram presentificar os seus feitos de homem, entoantando um hino à memória do:


Pintor de alma pura

Que pintas quadros de paixão em fogo

Para isso tens muito jeito.

Não me pintes cenas de guerra…

Já que nasceste com coração no peito,

Não te esqueças do meu povo

E se te sobrar pintura;

Pinta-me a gente da minha terra!...


Ulisses Oliveira Crespo, Crónicas de Bustos,
publicado em folha A4, com circulação restrita, anterior a 11 Novembro de 2006
.


12.03.2007, Com lágrima


.Partilhado o minuto de silêncio com Hilário Simões da Costa, o Comendador Ulisses de Oliveira Crespo dirigiu-se “ao sarcófago de Hilário Simões da Costa e disse:
Amigo Hilário, se há algum sítio no mundo donde possa estar, creio que nos está a ouvir…
Hoje, 12 de Março de 2007, viemos aqui …
Ponha-se forte que sábado vai encontrar aqui muitos amigos que nunca o esquecerão.
Até sábado, Hilário”, concluiu.
Aconchegados pela memória do ilustre bustuense, Hilário Costa, foi lida a peça de Belino Costa editada para a sua evocação no Notícias de Bustos:“ÀS VEZES TUDO PARA MIM ERA POESIA” – HILÁRIO COSTA NA PRIMEIRA PESSOA”. O dardo da emoção vidrou os olhos.
...
O encerramento aconteceu ao jantar, no Piri-Piri, que trouxe "mil” memórias e ainda houve tempo para perspectivar o próximo, e já acontecido, 17, dia da evocação de Hilário Costa.
sérgio micaelo ferreira



19 de março de 2007

A NET NA PAPELARIA


Portugal está a atravessar uma transformação profunda. Um novo ciclo de desenvolvimento está em marcha, deixando para traz o ciclo da construção civil e do consumo interno. Desta vez são as exportações a promover a recuperação económica, são as novas tecnologias e a industria de ponta a substituir as industrias tradicionais como o calçado ou os texteis. Portugal está em mudança e aos poucos o "choque tecnológico" vai integrando o nosso quotidiano, assumindo formas que ainda há poucos anos seriam impensáveis.


Talvez este seja um pequeno exemplo mas, em nosso entender, é bem revelador da evolução que começa a marcar o nosso quotidiano. É um sinal. A Papelaria Cristal, na Rua do Sobreiro, nº30, sentiu necessidade de corresponder às novas necessidades. Até agora vendia, jornais, revistas, livros, cigarros e fotocópias, mas precisou de introduzir uma nova "mercadoria", passando a disponibilizar o serviço de internet.



Papelaria Cristal

De segunda-feira a sábado, das 8h30 às 20 horas. Trinta minutos de internet por 1 Euro.




15 de março de 2007

HILÁRIO COSTA: SEMPRE!


“Onde estão os corpos daqueles que inventaram mundos? A questão interessa-me porque quem gosta da morte gosta da vida.” François Mitterrand

Hilário Simões da Costa faleceu a 30 de Novembro de 1994. Repousa no cemitério de Bustos, coberto pela bandeira da República.
Hilário Simões da Costa foi mais do que o lutador pela democracia, mais do que o presidente bustuense do 25 de Abril, mais do que o benemérito, mais do que o jornalista, mais do que o poeta popular, mais do que o artista ingénuo, mais do que o activista cívico empenhado, mais do que o trabalhador, mais do que o amigo, mais do que o emigrante apaixonado pela sua aldeia. E mais ainda.

Sendo tudo isso ele tornou-se um exemplo, a síntese de uma geração que correu mundo e comeu o pão que o diabo amassou. Ele é parte da gente que criou a identidade de Bustos; homens formados no gosto pelo trabalho, marcados pela ambição de serem livres.

Belino Costa

14 de março de 2007

LER OS SABORES


A passada 6ª feira foi dia de provar outros sabores. Vá-se lá saber se o pretexto foi a inauguração da vasta biblioteca do amigo Manuel Romão da Azurveira, ou se o verdadeiro mote foram os saborosos rojões caseiros.
Rodeados por milhares de livros e velharias, tudo recolhido ao longo dos anos pelo Romão, degustámos os tradicionais rojões fritos em banha de porco.

Os convivas foram mais que muitos e ficámos a saber pela voz do Milton que o próximo encontro terá como tema a chanfana de carneiro em forno de lenha. O Xico já está em pulgas pelo novo encontro, mortinho por voltar a partir a loiça toda e desancar a torto e direito, como é seu uso.

Como sempre, foram várias as teses ali defendidas. O Milton continua virado para os temas exotéricos e, desta vez, ensinou-nos que o Corão (Al Corão) se aproxima mais da génese humana que a nossa Bíblia: afinal e ao contrário do que muitos aprendemos, o homem não foi feito apenas de barro; na palavra de Maomé, o homem foi feito de barro e também de esperma. Diferentes leituras da palavra do mesmo Deus.
A natureza médico-científica do livro sagrado dos muçulmanos foi o melhor convite para o Nunes usar da palavra e falar da nossa terra e da liderança que Bustos vem perdendo nos últimos anos.
Foi outra lição, que se espera tenha sido bem escutada pelos políticos e autarcas presentes.
*

oscardebustos

12 de março de 2007

ÀS VEZES TUDO PARA MIM ERA POESIA

HILÁRIO COSTA NA PRIMEIRA PESSOA


Nasci na madrugada do dia 12 de Março de 1907. A minha mãe, Maria dos Santos Silva, que era muito bondosa, acarinhou-me durante o tempo que vivi com ela. Faleceu em 1936, com 77 anos, tendo sofrido muitos anos de uma úlcera no estômago. O meu pai, Domingos Simões da Costa, faleceu quando eu tinha dois anos de idade, ou seja em 1909.

Aos sete anos de idade dei entrada na Escola da Quinta Nova, tendo feito a 4ª Classe na Escola de Bustos, no dia 3 de Agosto de 1918, com 11 anos de idade; e assim terminaram os meus estudos oficiais.

Depois fui trabalhar para o estabelecimento do meu tio Augusto Costa, onde permaneci cerca de um ano; mas aos 13 anos, abri loja de mercearias e taverna na minha casa, o que durou 3 anos. E os 3 anos seguintes – de 1923 a 1926 – passei-os em suave convívio duma alegre mocidade.

Tinha 19 anos quando me despedi da minha mãe e de alguns familiares e amigos tendo saído de minha casa e da minha terra, a caminho da América. Em Oliveira do Bairro embarquei no comboio que me transportou a Lisboa e dela segui para Cherbourg, na França. E, naquele porto francês, embarquei no navio americano “George Washington”, que me levou a New York. Saí da minha terra aos 12 dias do mês de Dezembro de 1926 e cheguei aos Estados Unidos da América no dia 22 do mesmo mês.

Enquanto o navio seguia o seu destino pensei em coisas que me eram muito queridas e escrevi esta quadra em louvor da minha mãe:

Suprema entre as mulheres
Sejas sempre, mãe querida
E vai guiando, se puderes
Os passos da minha vida

Depois a luta pela vida. Fui trabalhar numa fábrica com o título “ Terra Cotta”, fábrica de esculturas feitas com barro e diversos materiais, por competentes artistas, para museus e frontarias dos edifícios do Estado e de casas particulares, muito em uso naquela época. Era eu que mexia o gesso com uma betoneira eléctrica.

Gostava de ver os artistas transformarem o barro em figuras humanas, animais, flores. Mas pouco tempo permaneci naquela fábrica tendo ido para New Rochelle, bela cidade do estado de New York, onde vivi parte dos meus 48 anos de emigrante. E lá comecei a trabalhar na construção de estradas. Alguns desses trabalhos eram feitos com pá e picareta, ou com um marrão pesadíssimo a partir pedra, como escravo.
Em 1928 fui secretário da Assembleia Geral do Portuguese Sporting Club, de Perth Amboy, New Jersey.

Em 1932 a grave crise económica que o Presidente Hoover criou (ou não evitou) atirou para o desemprego milhões de trabalhadores, obrigando-nos a abandonar a América e vir para as nossas terras; para não termos de caminhar, em bicha, de mãos estendidas, e não passarmos fome. Tinha eu 25 anos.
Regressei a Portugal em 1932 e, a 29 de Dezembro, fui eleito secretário do “Luzitano Foot-Ball Club”. O primeiro clube a ser fundado em Bustos para a realização de futebol e bailes.

Passados dois anos de uma vida activa em Portugal, pintando os quadros que ofereci às escolas de Bustos, eis-me novamente a caminho da América.

Trabalhei em restaurantes na cidade de New Rochelle e New York. Devido ao frio contraí grave doença, tendo sido levado para o Hospital onde fui operado. Doente, triste e sem o carinho da minha mãe e dos meus familiares e amigos, eis a realidade dum emigrante!

Tive novamente de regressar a Portugal para recuperar da saúde, onde permaneci cerca de 2 anos. Mas não desanimei. Era necessário emigrar, procurara longe da Pátria – o que a Pátria não oferecia…
Em Junho de 1935 eu e alguns bustuenses avistámo-nos com o Senhor Doutor Manuel dos Santos Pato, para cedência do seu terreno para a feira e ele, com muita satisfação, cedeu ao nosso pedido. Era eu presidente da União Liberal de Bustos, organização cívica de republicanos de Bustos, Mamarrosa, Troviscal e Palhaça e Taboaço, com a finalidade de realizar enterros civis e de protecção aos pobres da freguesia.
Na América, de 1937 a 1946, fui empreiteiro de jardins em casas particulares e jardins de restaurantes famosos. Regressei à minha terra em 1946, não me sendo possível regressar mais cedo por causa da Guerra. Fui feliz por ter regressado e casado com a mulher, Aldina Mota e Gala, que eu desejei para esposa, cujo enlace matrimonial se realizou a 28 de Setembro de 1946. Tinha 39 anos e ela 21. Do nosso casamento nasceram dois filhos: Milton e Hilário.
A 8 de Outubro de 1939 eu e um grupo de portugueses fundámos o “Portuguese -American Club”, em New Rochelle, New York. E, a 27 de Dezembro de 1942 fui eleito presidente, sendo reeleito a 9 de Janeiro de 1944.

Fui e regressei algumas vezes. E lá fora lutei muitas vezes com sacrifício. E sempre levava no pensamento a minha aldeia. E nela a minha mãe, os meus familiares e as pessoas da minha amizade.

Em Portugal, a 30 de Julho de 1953, foi inaugurado um pára-raios que ofereci à Escola de Bustos. Por duas vezes ofereci pára-raios à Escola da Quinta Nova. Durante 12 anos, pelo Natal, eu e a minha esposa oferecemos magustos às crianças da freguesia.

Escrevi no meu primeiro livro “ Versos de um Emigrante” e, em 1955, o livro de versos “Rosas e Espinhos.” Em 1968 fiz o meu busto em barro, tendo sido copiado para o bronze numa das mais famosas oficinas de New York.
Às vezes tudo para mim era poesia, a encorajar-me para prosseguir na luta. E assim, nas minhas horas de descanso escrevia, pintava ou moldava. Procurava aprender alguma coisa, ser alguém.

Em 1969, na América, publiquei o jornal “Farol da Liberdade”. Nele, entre outros artigos e notícias escrevi “Carta Aberta ao Professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho do Governo Português”, lembrando-o que os portugueses não podiam continuar a viver em ditadura e sob a lei opressora da PIDE, e era a ele que competia dar ao povo liberdade e democracia. Mas Marcelo Caetano não me quis ouvir e daí a cinco anos, na madrugada do dia 25 de Abril, briosos e valentes soldados lhe bateram à porta, exigindo para se afastar do país. E Marcelo Caetano embarcou para o Brasil, onde faleceu e foi sepultado.

Regressei a Portugal e assisti a diversas sessões de propaganda democrática, durante a ditadura e discursei em Estarreja, Ílhavo Bustos, Mamarrosa e Troviscal. Com alguns dos homens de maior prestígio do distrito de Aveiro, como cidadãos e democratas convictos. Muitos deles sofreram na prisão as torturas da tenebrosa PIDE e eu, se não fui preso é porque me afastei da casa à pressa, porque sabia que no dia seguinte me vinham buscar. Pois no dia seguinte bateram à minha porta e a minha esposa mostrou-lhes um telegrama que dizia: - Cheguei bem.
Cheguei são e salvo à terra da Liberdade! E os Pides seguiram o caminho de Coimbra, desgostosos!”

Chegou o 25 de Abril do meu contentamento, pela restauração da democracia e liberdade em Portugal. E o meu amigo Dr. Manuel Santos Pato, da Mamarrosa, telegrafou-me para a América convidando-me para regressar imediatamente, para publicarmos um jornal. Regressei e o jornal foi publicado com o título “Bairrada Livre”, jornal quinzenário democrático e defensor da região bairradina”, com redacção e administração na minha casa do Sobreiro. Iniciámos a sua publicação a 12 de Julho de 1974. E a 6 de Julho de 1975 terminei a sua publicação. A razão deve-se ao facto de ter falecido o meu amigo Dr. Santos Pato e eu não querer continuar com tantas despesas e responsabilidades.”
Após a minha chegada a Bustos, vindo dos Estados Unidos da América, em 1974, e ainda no alvor da Revolução de Abril, foi convocado o povo da nossa terra para o Salão do Café Primor, tendo comparecido grande número de pessoas. E ali se discutiram assuntos de grande importância para o progresso de Bustos, tendo sido eleita a nova Junta de Freguesia, por unanimidade, ficando assim constituída: Hilário Costa (Presidente), Jó Ferreira Duarte (Secretário) e Amaral dos Reis Pedreiras (Tesoureiro).”
No dia 1 de Novembro de 1979, eu e 10 conterrâneos reunimo-nos muito animados com a ideia de comprar o Palacete dos herdeiros do Visconde.

Em 1980, eu e a minha esposa, fomos à Venezuela para visitar familiares e amigos e promover uma campanha no sentido de angariar fundos entre os nossos conterrâneos e amigos, para ajudarem a pagar a compra do Palacete. E isso contribuiu para que os nossos conterrâneos, naquele país, tenham enviado cerca de 3.200 contos.

Em 1982, nas festas do dia 18 de Fevereiro e 62º aniversário da nossa independência da freguesia da Mamarrosa, eu e o Sr. Vitorino Reis Pedreiras, hasteámos na varanda do Palacete as bandeiras, a nacional e a nova bandeira, símbolo de Bustos, com a presença de centenas de pessoas, a quem eu, com voz forte, disse:
- Viva Bustos! Viva o 18 de Fevereiro!”
Foi a primeira vez que estas bandeiras foram hasteadas no Palacete. E eu disse ao Sr. Vitorino: “ Se o Visconde aparecesse agora aqui, com sua juventude e o grande amor pela monarquia, atirava-nos desta janela à rua!”

Em 1983 fui eleito Presidente da Assembleia da Casa do Povo.

Em 1984 publiquei o livro “Bustos – Memórias de um Bustoense”.

Hilário Costa

A partir de: “Árvore Genealógica da Família Costa” (1988) e “Memórias de um Bustoense” (1984), edições do autor.

11 de março de 2007

15. 10.1911 * MANUEL DA FONSECA * 11.03.1993

MATARAM A TUNA, Manuel da Fonseca
Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.

Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor…
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar…)
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almandanim!

Enquanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
que era indecente aquela marcha
parecia até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.

Mas José Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

Meus companheiros antigos de bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas…
— onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita
despertemos e vamos
eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

[Homenagem a Manuel da Fonseca, extraído do livrete do CD (imperdível), "SOLTAR A LÍNGUA", Trigo LimpoTeatro Acert. Tondela. http://www.acert.pt/
Um bem-haja a Zé Rui Martins & Colectivo
sergio.ferreira.3@netvisao.pt]

ONTEM - AUDIÇÃO EM RASTREIO NO ORFEÃO DE BUSTOS

A AUDIÇÃO foi a rastreio e fechou com um Colóquio orientado pela Dr.ª Teresa Jorge. A “Associação Orfeão de Bustos”, promotora da intervenção do foro de Saúde Pública, pode ter dado mais um alerta para que o combate ao ruído seja mais eficaz, já que o ouvido é a porta de entrada de um poderoso agressor do nosso organismo (o som). Talvez uma campanha de contagem de decibéis viesse a fornecer dados preocupantes. Um dia, há-de chegar o ‘radar do som’.
Do cartaz do “Rastreio Gratuito – Acústica Médica” de 10 de Março de 2007, há um destaque que merece boa nota.

A acção mereceu o apoio institucional (Câmara Municipal) e do sector privado (Restaurante Piri-Piri). A merecer aplauso.
sergio.ferreira.3@netvisao.pt

9 de março de 2007

SOPA D’OSSOS, vista pelo "cronista da vila"

SOPA D’OSSOS
GENTE DA NOSSA GENTE

“Falar da sua terra, é manter a chama viva da sua gente”

São sempre oportunas as ocasiões para a convivência, e foi assim que, no dia 7 de Fevereiro, se juntaram na sala polivalente d’O BARRILITO uns amigos que compartem o grupo dos "guardiões dos sabores".

Nesta ocasião a ementa foi uma soberba "SOPA DE OSSOS", os quais estavam maravilhosos! A sopa roçava a excelência.

Na verdade, o amigo Agostinho, esmerou-se na sua culinária.

Durante o manjar, à parte da sã convivência, foram abordados alguns temas relativos à vida quotidiana Bustuense.

Houve conversações e promoções de todo o tipo, e oxalá que do muito aí conversado, alguns temas venham a ser concretizados.

No meio de tudo isto, há casos que fogem ao conhecimento dos presentes!...Um deles é digno de reparo.
Vamos a ver…
É que o vice-presidente Agostinho Pires senta-se sempre ao lado do comendador, para que este seja o seu "escanção" particular.

É dentro desta fraterna convivência, que os amigos se juntam, para dialogar sobre Bustos, as suas tradições e o seu passado.

Falar da sua terra, é manter a chama viva da sua gente.

Ulisses de O. Crespo, comendador
(cronista da vila)

--
Nota do editor Altino
ROJÕES, LIVROS & COPOS - programa de Manuel Romão, para os 'guardiões dos sabores' capitularem.

Os “guardiões dos sabores” são chamados a capítulo pelo «colega vice-presidente» M Romão a fim de se poder cumprir a tarefa de Março.
Ao cair o último tlim das 19H00, abrirá a sessão de cumprimentos.

Antes de se ocupar a posição guerrilheira em frente de cada talher, para defrontar os rojões confeccionados segundo preceito coevo, a tesoura cortará a fita da inauguração da biblioteca de livros antigos que escaparam à fogueira ou à lixeira. De igual modo, o salão dos copos não escapará à intromissão dos paparazzi.

Está confirmada a audição de discos da 1ª geração: de Amália, de Alfredo Marceneiro, e de outras raridades…
Milton Costa proferirá uma sapiente oração do domínio teológico-científico.
Bustos também estará na agenda.
O comendador Oliveira continuará a desempenhar a função de escanção do Agostinho e no intervalo da oratória entregará convites do 1º Centenário do Nascimento de Hilário Costa.

Boa vi(nh)agem!

7 de Março – Dia da Mulher.


Neste especial dia da Mulher, deposito excertos do conto “HAMINA «FAZ HARA-QUIRI» NOS TEMPLOS DA RUA ARAÚJO”, do grande senhor Zé Craveirinha:

Toda a gente sabia que a Hamina era rainha, gato-bravo, dançarina de primeira. E quando Hamina volteava no meio da sala os marinheiros abriam os olhos escandinavos e estendiam as mãos à procura da cintura de caniço. E a cintura fugia, vinha, esquivava-se, entregava-se, retraía-se.

Quem é que dançava melhor do que Hamina? Quem é que era capaz de rir mais alto do que Hamina? Quem é que era capaz de fazer dois metros de marinheiro loiro ficarem um passarinho xindjingueritana com nembo nas asas e bico mergulhado no suco da flor encarnada?
Hamina, come here – Hamina, anda cá – Hamina, buia aleno, Hamina, venez ici - e uma gargalhada feria os tímpanos da noite: - Ah!Ah!Ah! e os olhos de gato-bravo de Hamina relampejavam no algodão espesso dos cigarros de todas as marcas.

(…)
Quem fez Hamina? Quem ensinou Hamina? Quem mandou Hamina? Quem chupou Hamina? Foi saraveja. Foi cigarro. Foi uíque de chá. Foi vinho de água.
(…)

Ontem, Smith foi à Rua Araújo. Entrou. Atirou a madeixa loira para trás e Hamina não apareceu. Puxou o pacote de cigarros Lucky Strike e também nada.
Hamina nada. Smith jogou a última cartada: meteu a mão no bolso e tirou um punhado de dólares. Veio Joana. Veio Esperança. Veio Felicidade. Mas Hamina, isso. Hamina ficou escondida na ausência.
(…)
Hamina está estendida na cama. Um pulmão tem rock n'roll lá dentro. É dança dela. Dança de dançar estendida no Xipamanine.

Hamina está estendida na cama. Cama de colchão de milho. Cama de dormir; cama de serviço; cama de não levantar mais. Cama de Hamina grevar para sempre.

(in José Craveirinha, Hamina e outros Contos, “HAMINA «PAZ HARA-QUIRI» NOS TEMPLOS DA RUA ARAÚJO” excertos, Ndjira, Maputo, 1996, retirado – com a devida vénia, da Antologia do Conto Moçambicano, “As Mãos dos Pretos", organizada por Nelson Saúte, Publicações D. Quixote, 1ª edição, 2001)

7 de março de 2007

A ESCOLA COMO ALTAR


Quando ponho diante de mim a vida destes homens curvo-me com admiração e espanto. Os construtores de Bustos eram homens que contrapunham à ideia de linhagem os valores da liberdade, do trabalho e da honra. Em alternativa à religião postulavam a escola e o conhecimento. Vivendo numa sociedade com mais de 80 por cento de analfabetos eles acreditaram fervorosamente que pelo estudo e pelo ensino criariam uma nova sociedade e um novo homem.
A República não foi apenas a revolução que refundou Portugal e as suas instituições, foi um projecto, um sonho visando modificar a ordem cultural existente. Também os republicanos de Bustos tomaram a escola como altar, e nem quando chegou a ditadura salazarista deixaram de lutar por esse grande desígnio.

Um dos momentos mais significativos da afirmação dessa fé republicana em tempo de ditadura aconteceu em 1934 quando a União Liberal de Bustos – uma associação criada em 1932 tendo “por fim organizar e acompanhar enterros civis e mais actos de interesse colectivo, mas puramente liberais e civis” (estatutos - artigo 1º) –, organizou uma festa escolar a propósito da inauguração de um conjunto de quadros pintados e oferecidos por Hilário Simões da Costa.
Era então presidente da U.L.B Vitorino Reis Pedreiras, sendo coadjuvado por Manoel Francisco Domingos e Manoel Rosário. A oferta de Hilário Costa, também ele membro da União Liberal, motivou uma manifestação de republicanismo como há muitos anos não se via em Bustos. O jornal “Alma Popular” descreveu assim o evento:

EM BUSTOS: FESTA CÍVICA

“Para solenizar a inauguração de dez artísticos quadros, pintados e oferecidos pelo nosso amigo e colaborador, Sr. Hilário Simões da Costa, realizou-se, em Bustos, no penúltimo domingo, uma encantadora festa, em que tomaram parte professores e alunos das quatro escolas da freguesia.
Seriam 15 horas quando, junto do novo Edifício Escolar, se organizou um cortejo cívico que, acompanhado pela Banda de Música do Troviscal, se dirigiu para a Escola do sexo feminino, onde foram colocados dois quadros. As alunas recebem os visitantes com flores, entoam a Portuguesa e incorporam-se depois no cortejo que de novo se põe em marcha para a Escola do sexo masculino, na qual são inaugurados os restantes quadros e tem lugar a sessão solene.
Presidiu o Sr. Dr. Manuel dos Santos Pato, ladeado pelos Srs. Presidente da Junta de Freguesia, Dr. Carlos Pereira, Manuel Joaquim de Oliveira Sérgio, Professorado, etc.
Aberta a sessão foram distribuídos pelas criancinhas pobres numerosos artigos escolares, tais como livros, cadernos, lousas, canetas, etc., ofertados pela União Liberal de Bustos.
Alguns alunos recitam poesias alusivas ao acto, depois do que, fazendo a apologia da Instrução e prestando homenagem aos Sr. Hilário Costa, usaram da palavra os Srs. Manuel Francisco Rei, o presidente da Junta de Freguesia a quem se deve a construção daquele Edifício Escolar; Vitorino Reis Pedreiras, presidente da U.L.B.; professor António de Jesus Craveiro; professor Albino Sarabando da Rocha; e, por último, o Sr. Hilário Costa que agradeceu as saudações que lhe haviam sido dirigidas e prometeu continuar a interessar-se pelos progressos da sua terra.
Encerrada a sessão solene, em que foram entusiasticamente vivados o homenageado, a Instrução, a Pátria e a República, é servido um lunch a todas as crianças. E a Junta de Freguesia, associando-se à festa, mandou plantar 4 árvores no recinto da Escola.
Durante o resto da tarde, a excelente Música do Troviscal, sob a regência do maestro José de Oliveira, fez-se ouvir com geral agrado.
Como nota discordante, apenas o tempo agreste e chuvoso obstou a que todo o povo pudesse ouvir, na sessão solene, os recitativos das crianças e os patrióticos discursos dos oradores.
Apesar disso, foi uma festa encantadora, consagrada à Arte, festa de crianças, sorrisos e flores, absolutamente estranha a qualquer política partidária, o que por certo deixou as melhores impressões em todos quantos a ela assistiram.
(Alma Popular, 4.Maio,1934, 1ª página)




ACTA DA SESSÃO SOLENE DA FESTA ESCOLAR
Apesar do livro de Actas da União Liberal de Bustos ter sido apreendido pela polícia política (PVDE) em 1936, um rascunho da acta descrevendo a “Festa Escolar” foi cuidadosamente guardado pelo então presidente da associação. Aqui fica a respectiva transcrição:

“No dia 22 de Abril de 1934, pelas 14 horas, nas escolas primárias de Bustos onde se achavam o presidente da União Liberal, Hilário Simões da Costa, professores, Dr. Manuel dos Santos Pato, presidente da junta de freguesia, muitos membros da União Liberal, as crianças das escolas e muito povo.
O nosso presidente propõe para presidir aquela sessão solene o Dr. Manuel dos Santos Pato. Este, ocupando a presidência, faz-se secretariar pelos professores e pelo presidente da junta e declara aberta a sessão. Ressoa uma salva de palmas e faz-se o descerramento dos quadros artísticos e históricos que o nosso prezado consócio Sr. H.S.C pintou expressamente para as escolas de Bustos.
A música, postada dentro do edifício escolar, rompe com os seus acordes musicais enquanto as crianças com seus cantos e flores dão ao momento solene que decorre um brilho inexcedível. As crianças formadas em semi-círculo aguardam o momento da distribuição dos prémios que a União Liberal propôs oferecer às crianças mais necessitadas. Procede-se à chamada das crianças indicadas na lista dos contemplados, tendo o nosso presidente entregado, a um por um, os donativos.

Terminado este acto algumas crianças recitam poesias alusivas ao acto agradecendo em nome dos contemplados os favores prestados pela União Liberal às criancinhas pobres das escolas, a quem deviam o prazer daquela festa.

O senhor presidente dá em seguida a palavra a Manuel Francisco Rei que em palavras breves faz o elogio da instrução, dizendo-se satisfeito por ter sido ele o fundador daquela escola terminando por homenagear H.S.C, nosso consócio e ilustre benemérito da instrução. Usa depois da palavra o nosso presidente pondo em foco os fins altruístas da nossa sociedade, cujo lema tem por fim instruir o povo fazendo cidadãos conscienciosos e rectos, libertados de preconceitos erróneos onde o dogma impera, chamando-os à vida prática. Dirigindo-se aos professores e às crianças mostra quanto nobre é a sua missão, pedindo às criancinhas que estudassem e que amassem os professores pois que eles eram os seus pais espirituais, terminando com palavras de grande apreço para o insigne benemérito H.S.C, que se orgulha em ter na sua sociedade.
Fala depois o professor Craveiro que agradecendo à U.L e ao senhor H.S.C as grandes e honrosas dádivas com que brindara as crianças e a escola, e agradeceu em nome dos contemplados.
Fala ainda o professor Sarabando da Rocha que, com palavras magistrais de orador, mostra quanto bela e magnânime é a instrução, tendo palavras de louvor e incitamento para a União Liberal e para H.S.C.
Fala por último Hilário Simões da Costa que comovido agradece as palavras de louvor a ele dirigidas e diz que a simples dádiva com que dotou as escolas de Bustos são simples lampejos da sua alma apaixonada pela sua terra e pela instrução, e promete continuar na senda do bem para poder dar satisfação aos impulsos do seu coração. No final todos os oradores foram sempre muito aclamados dando-se vivas a Hilário Costa, à Instrução, à Pátria e à República.
Em seguida procede-se à plantação das árvores no recinto das escolas cantando e recitando as crianças até ao seu desfile, tendo, por fim, sido distribuído pelo nosso presidente um lanche a todas as crianças das escolas. Depois de não haver mais nada a tratar deliberou-se lançar na acta um voto de louvor aos sócios da União Liberal que concorreram com os seus obulos para esta festa, aos professores primários e a todos aqueles que por qualquer forma contribuíram para o prestígio da União Liberal.”

Bustos 23 de Abril de 1934


A ESCOLA COMO MÃE

Mário Reis Pedreiras, então aluno da escola de Bustos, foi uma das crianças que declamou algumas quadras alusivas ao momento. Estas tinham sido escritas pelo pai e presidente da União Liberal, Vitorino Reis Pedreiras. São de uma ingenuidade tocante e bem representativas do ideal que empolgou a geração dos nossos avós.

Companheiros, a Escola
É como a nossa mãezinha
Ela ensina e consola,
Como o sol que nos ilumina

De suas salas iluminadas
De esperanças mais sedutoras
Ela é como um castelo de fadas
De crianças torna homens e faz senhoras

Companheiros, a Escola
É o pão da instrução
Com a graça de uma esmola
Dá luz e dá razão

Ó Escola, mãe espiritual
Que tens dado tanta luz
Fazes grande o Portugal
Grandes louros tu tens juz!

Agradecemos os favores
À União Liberal
Vivam os senhores Professores!
Viva a República! Viva Portugal!

Nota final: Os quadros oferecidos por Hilário Costa foram retirados das escolas poucos anos depois (1937) em consequência de “ordens superiores”. Nas paredes escolares apenas eram admitidos os retratos de Salazar e Carmona. Também a União Liberal de Bustos foi vítima da repressão, tendo a polícia política apreendido o livro de actas, estatutos e a bandeira da associação cívica (1936). Apenas com seis anos, Arsénio Mota assistiu ao momento em que quatro polícias chegaram à Barreira e confiscaram a bandeira, então à guarda de seu pai, episódio que muito o marcou e motivou a escrita do magnífico conto “A Bandeira Escondida” (edição Campo das Letras,1998).

Belino Costa