14 de fevereiro de 2007

O DIA DECISIVO NA LUTA PELA SEPARAÇÃO DA MAMARROSA

Para a homenagem de 18 de Fevereiro de 1960 Jacinto Simões dos Louros tinha preparado um discurso onde narrava alguns dos momentos decisivos na luta pela emancipação da Mamarrosa. A pouca luz que iluminava o palco e uns olhos já cansados não lhe permitiram a leitura de tão importante documento, pelo que acabou por improvisar a sua intervenção na cerimónia. Mas uns meses depois, em carta de três de Maio, escreve a Vitorino Reis Pedreiras dizendo:
“Incluso envio uma cópia do que tinha escrito para ler na comemoração dos 40 anos da criação da freguesia que a falta de luz não permitiu. Como uma grande parte da gente nova não conhece os trabalhos que esse facto originou, e até muitos dessa época o desconhecem, a razão porque lhe envio essa cópia, para a tornar conhecida de todos pois que só o meu amigo e compadre Dr. Pato a leu.”
O documento acabou por ficar no fundo de uma gaveta até que hoje é finalmente divulgado, cumprindo-se assim a vontade do seu autor.

Jacinto dos Louros com um neto na Costa Nova


Exma. Comissão.



Os meus agradecimentos o pelo convite que V. Exas. tiveram a gentileza de me enviar para assistir a esta festinha comemorativa da criação desta freguesia. Tal acontecimento constitui padrão de honra para o povo de Bustos e ainda hoje é, e será para os vindouros, um marco a atestar a dedicação de quantos, pelo engrandecimento da terra onde nasceram. Encheu-nos de satisfação e constitui o coroamento de uma obra erguida com grande persistência, desinteresse e bastante sacrifício pessoal. Por isso é justa a vossa gratidão e aceito-a, na medida em que ela me é atribuída, mas nesta obra fui acompanhado por um grupo de homens de bem desta terra que por isso mesmo merecem também o vosso preito, muitos dos quais já faleceram. Mas mortos ou vivos, eu aqui os lembro sem os nomear porque foram todos os republicanos de Bustos, como também esse grande vulto já falecido que foi o Sr. Dr. Barbosa de Magalhães, que junto do governo patrocinou as minhas pretensões. Pelos que ainda são vivos, como eu, e em memória daqueles que já faleceram agradeço-vos o terdes lembrado da data da criação da nossa freguesia e a maneira como o lembrais. Muito obrigado.

ARRISCANDO A PRÓPRIA VIDA

E já agora a proveito a oportunidade para dizer que desde algum tempo eu vinha acalentando comigo a ideia de promover a criação da freguesia, em consequência das rixas constantes entre Mamarrosa e Bustos, rixas que iam sempre aumentando, quer por exigências injustas da sede da freguesia, quer por incapacidade de certos líderes locais. Alguns tendo originado conflitos gravíssimos que só a nossa intervenção evitou. Politicamente trabalhei sempre no sentido de fortalecer certas posições que permitissem, com a acção do tempo, alcançar a emancipação administrativa da minha terra. Trabalhando muito em tal sentido. Travámos duras lutas, arriscando muitas vezes, e não poucas, a própria vida e o bem-estar familiar. Tivemos grandes canseiras, mas também tivemos a compensação de atingirmos uma força tal que não podia deixar de ser atendida nas justas pretensões que se empenhasse.
Não vou maçar-vos com ao relato pormenorizado da conquista dessa força que obtivemos, através de actos praticados em largo período de tempo, porque isso demoraria muitas horas a contar mas não fujo à tentação de referir dois factos dessa força que conquistámos e por via da qual conseguimos a criação desta freguesia.
Quando fui eleito vogal e nomeado presidente da Junta de Freguesia da Mamarrosa, em 1915, apresentei no acto de posse o meu programa, que era de serem divididos os rendimentos líquidos da freguesia em 50% para a Mamarrosa e 50% para Bustos. Os elementos da sede protestaram contra o meu programa, mas ao fim e ao cabo, aparentemente, conformaram-se em virtude da nossa justa intransigência. E digo justa porque os rendimentos da sede eram muito inferiores aos de Bustos.
Em consequência desse meu programa Bustos alcançou uma posição que até ali nunca tivera. Dela só podíamos caminhar para a frente.

A ELEIÇÃO DE 1918

Vem depois a eleição da Junta de 1918 para a qual resolvemos, os republicanos da Mamarrosa e Bustos, disputar a maioria, sendo escolhidos dois representantes da sede e dois de Bustos, ficando a minoria para os monárquicos. Apesar desta resolução que tomámos em reunião conjunta, os republicanos e monárquicos da Mamarrosa vieram a fazer um acordo secreto para a oposição de Bustos no acto eleitoral. Como? Cortando os nomes dos representantes de Bustos nas listas e escrevendo o nome de João dos Reis. Mas o golpe não produziu efeito porque, conhecedor do facto há última da hora, ainda pude neutralizá-lo, levando os eleitores de Bustos a utilizarem o espírito do mesmo acordo mas em sentido contrário. E o resultado, depois na contagem das listas após o acto eleitoral, foi este: Bustos ficava na Junta com os dois representantes da maioria e com o da minoria. Claro, com este reverso com que não contavam, porque não sonhavam que o segredo fosse conhecido, os republicanos e monárquicos da Mamarrosa deram cavaco, e daí o terem resolvido, como represália, que os seus dois representantes não tomassem posse, como não tomaram. Durante algum tempo a Junta só funcionou com os representantes de Bustos.

APARECE O DR. BARBOSA DE MAGALHÃES



Podia eu, naturalmente, como presidente e de harmonia com a Lei chamar os suplentes, mas achei preferível não o fazer, manter em aberto o problema perante as instâncias superiores, e dar-me probabilidades de indicar a criação desta freguesia como única solução, e lá em cima admitirem-na.
Meu dito, meu feito. A indagar da questão política da freguesia aparece um dia em minha casa o Senhor Dr. Barbosa de Magalhães a quem eu pus, com lealdade, ao corrente do que se passava com a Junta de Freguesia sem os representantes da sede, por estes se recusarem a tomar posse. Momentos depois apareceram a bater-me à porta um grupo de republicanos da Mamarrosa que pretendiam falar com o Exmo. Sr. Barbosa de Magalhães. Mandei-os entrar e postos frente a frente comigo, pela própria boca dos homens da Mamarrosa pôde aquele ilustre político verificar que não fui eu quem lhe não quis dar posse, como eles o tinham informado, mas sim eles que não a quiseram tomar.
Em face desta prova diz-lhes: Os senhores não tomaram posse até agora mas vão tomá-la agora. O falecido senhor António Simões dos Santos diz: Nós não podemos tomar posse porque os nossos amigos diziam-nos que este senhor sempre nos tinha levado a beber água sem a gente querer. O Sr. Dr. Barbosa de Magalhães diz-lhes: Os senhores meteram-se num beco sem saída. Agora o que querem que eu lhes faça? Muita paciência tem tido o senhor Jacinto dos Louros, porque já vi que ele conhece bem a Lei e não quis chamar os suplentes para os não deixar mal colocados e os senhores teimam em não querer tomar posse. Repito: o que querem que eu lhes faça?

Como ninguém respondeu eu aproveitei esse silêncio e pedi licença para dizer: Como Vª Ex.ª há pouco disse, e muito bem, estes senhores meteram-se num beco sem saída. Se Vª Ex.ª concordar e estes senhores também eu vou indicar a única solução adequada ao problema de que estes senhores foram causa. Está mais do que provado de que não há possibilidades de nos podermos entender enquanto não estivermos separados.
É uma velha aspiração da minha terra emancipar-se para por cobro a estas rixas que vem de longe. Julgo ter chegado essa oportunidade de realizar essa justa aspiração para bem de todos.
É a solução que me permito indicar a V. Ex.ª para o problema que estes senhores levantaram, e eles mesmos hão-de reconhecer que é o meio para evitar grandes conflitos, que é de toda a conveniência evitar. Em face da minha proposta o Exmo. Sr. Dr. Barbosa de Magalhães, indagou dos representantes da Mamarrosa se concordavam comigo, ao que eles responderam: Em função do caminho que as coisas tomaram agora concordamos. Então o Exmo. Sr. Dr. Barbosa de Magalhães rematou a conversa com estes dizeres: O Sr. Jacinto dos Louros trata do plebiscito, e tudo quanto for necessário do Governo diga-me, porque tudo lhe será concedido.
Esta foi a fase final da luta que travámos para a criação desta freguesia, da qual saímos vitoriosos para honra e prestígio da nossa terra, criando-lhe assim esse padrão de glória. que fica eternamente a atestar aos vindouros o bairrismo e a dedicação dos republicanos dessa época.

Jacinto Simões dos Louros

13 de fevereiro de 2007

1º DE JANEIRO DE 1960 - COMISSÃO DE MELHORAMENTOS PROMOVE ASSEMBLEIA GERAL

No ano de 1960 também aconteceu
Junho, 16 - A Revolta de Mueda em Moçambique. Resultado cerca de 500 mortos.
Agosto, 14 - Morte de Jaime Cortesão
5 de Outubro - no 50º aniversário da Rotunda o Presidente Américo Tomás põe flores no túmulo de Manuel Arriaga no cemitério dos Prazeres.
Mário Soares é preso
...
De Belino Costa:
"Panfletos espalhados por toda a freguesia, colados nas montras dos cafés, nas portas das tabernas, aparecem a convidar a população para uma assembleia magna no Bustos Sonoro Cine ..."
Notícias de Bustos, 5.2.07, “1 DE JANEIRO DE 1960: ASSEMBLEIA POPULAR EM TEMPO DE DITADURA”.

Os panfletos eram a ' circular- convite' que foi redigida por Arsénio Mota, membro dinamizador e aglutinador de "um escasso grupo de ardorosos bairristas"[1] congrgados na Comissão de Melhoramentos.
Esta circular já continha as linhas programáticas a serem desenvolvidas em Bustos. Ainda hoje, uma ou outra realização está por cumprir.
[1] Arsénio Mota, Bustos - elementos paraa sua história, edição da Associação de Benefic~encia e Cultura de Bustos, 1983.
Eis a circular (com ligeira modificação na apresentação)
Comissão de Melhoramentos de Bustos
1ª Assembleia Geral (circular – convite)
….
"Conterrâneos bustoenses :
A nossa terra não é uma povoação qualquer. E nós, povo de Bustos, temos um princípio e um fim que é só nosso e apenas a nós compete realizar, para glória de nós mesmos.

Em 18 de Fevereiro de 1920 criou-se esta freguesia, quer dizer, há apenas trinta e nove anos. Quanto cresceu a nossa terra neste curto período de tempo! Cresceu tanto que se tornou depressa modelo de outras freguesias conhecidas, paradigma, exemplo de progresso a seguir. E isto honra a nossa capacidade de trabalho, glorifica a chama inapagável do nosso bairrismo!

Antigamente foi a Estação dos correios, a escola, o clube recreativo, a feira bi-mensal, a luz eléctrica, o clube desportivo; agora são os telefones automáticos e a nova Estação postal, a nova igreja, as indústrias, o comércio florescente, os modernos cafés», a piscina…

Mas se Bustos tem crescido, não se pode deixar de contemplar a necessidade orgânica de continuar, continuar sempre a crescer. As energias vitais de cada bustoense, do primeiro até ao último, são indispensáveis na tarefa comum da construção de uma Terra que nos mereça, como uma casa nossa. Todos são necessários, porque todos são bustoenses! Dormir à sombra dos louros já conquistados, quando podemos vir a merecer, a breve trecho, uma. «categoria» de Vila, é, pelo menos, uma renúncia criminosa.

Em Bustos tem-se falado, com insistência, de várias realizações e melhoramentos em perspectiva.

Lembramos aqui apenas estas:

1. Casa de Saúde
2. Colégio de Educação Secundária
3. A Igreja Nova
4. Agência Bancária
5. Agência de Viagens
6. Biblioteca Pública
7. Jornal semanal
8. Mercado semanal
9. Bair
[r]o de Casas Económicas
10. Aquisição do terreno da Feira para a Junta de Freguesia.

Quase todas estas realizações e melhoramentos estão dependentes apenas da iniciativa particular. E a Bustos sobram capitais e homens capacitados. Porque não estimular, então, a iniciativa particular, no sentido da concretização de todas (ou algumas) obras? Foi para responder a este quesito, que um grupo de conterrâneos de boa vontade e ideias arejadas se propôs organizar e pôr em funcionamento uma Comissão de Melhoramentos. E' para assistir à primeira Assembleia Geral que se convidam todos os bustoenses, sem excepção; por intermédio desta circular-convite.

A primeira Assembleia Geral. à qual deve assistir todo o povo da freguesia, terá lugar no próximo dia 1.° de Janeiro do vindouro 1960, às 4 horas da tarde, no Salão do Bustos Sonoro Cine.

Todos a assistir à sessão da Comissão de Melhoramentos, para o progresso da Nossa Terra!

A Comissão Organizadora

Dr. Jorge Micaelo
Dr. Assis Francisco Rei
Eng. Manuel Pato
Sr. Augusto Costa
Sr. Graciano Lusio
Sr. Arsénio Mota

...
(srg)

DIA DE BUSTOS/2007 NÃO OFICIAL HONRA A MEMÓRIA

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DIA DE BUSTOS
PROGRAMA OFICIAL DA JUNTA DE FREGUESIA DE BUSTOS
... Comemorações do dia 18 de Fevereiro, data da Elevação a Freguesia.

Programa:
08.00 h - Salva de 21 tiros

11.00 h - Missa Solenizada pelo Coral do Orfeão de Bustos

12.00 h - Romagem de Saudade ao Cemitério, com deposição de flores aos mortos

12.30 h - Sessão Solene no Salão Nobre, da Junta de Freguesia de Bustos

Será servido um Porto de Honra no final das comemorações nas instalações da Junta de Freguesia.


O Presidente da Junta de Freguesia
­­­­­­­­­­­­­­­________________________
(Manuel da Conceição Pereira)

...........................

Nota:
Este ano a previsível programação da Junta de Freguesia de Bustos para o Dia de Bustos inclui uma novidade: a celebração de missa acompanhada pela solene participação do Grupo Coral. – é também dia de festa aniversariante do Orfeão de Bustos.

Perante o vazio das celebrações oficiais do ‘18 de Fevereiro’ e o sistemático esquecimento das figuras e acontecimentos que ajudaram a construir a história de Bustos que o presidente da junta de freguesia de Bustos nos tem «brindado» ao longo dos seus reinados, chegou o momento de dizer: “Basta!”

Assim, uma comissão ‘ad hoc’ irá ao cemitério de Ílhavo prestar homenagem a Jacinto Simões do Louros, o grande obreiro e líder de deumgrupo de concidadãos que se bateram contra poderosos adversários locais para a criação da freguesia de Bustos.

Sendo 2007 o ano zero das comemorações do ‘Dia de Bustos’, o programa abrangerá outra(s) outras manifestação (ões) simbólica(s) em que os Bustuenses que ajudaram a engrandecer e que se sacrificaram pela sua terra não sejam esquecidos.

No entanto, aguarda-se que os discursos da sessão oficial na Sala da Assembleia de Freguesia tragam algum melhoramento (ou promessa) para o nosso terrunho.

“Abaixo os que pretendem destruir a história pré-colombiana de Bustos!”

“Viva o 18 de Fevereiro!”.
(participação pessoal de sérgio micaelo ferreira)

12 de fevereiro de 2007

REFERENDO SOBRE IVG: SIM VENCE

Resultados nacionais do referendo de ontem: Sim – 59,25%; Não – 40,75%; Abstenções – 56%.
*
No referendo de 1998 sobre a interrupção voluntária da gravidez o “não” venceu com uns escassos 51,3% dos votos, mas a percentagem das abstenções foi bem superior à de ontem.
Apesar de ter havido mais um milhão de votantes em 2007, ainda assim o número total não atingiu os 50% dos 8.832.628 eleitores inscritos, o que significa, de acordo com a Constituição, que o resultado deste referendo volta a não ser vinculativo.

Em 1998 respeitou-se o “não”, mantendo-se a lei penal inalterada durante 8 anos. Do mesmo modo, agora será respeitado o sentido do “sim”. Esta é a opinião quase unânime de políticos e analistas.
A tese dos que sempre defenderam a desnecessidade do referendo prevalecerá e bem.
Desde logo porque, em 1ª linha, se trata de alterar o artigo 142º do Código Penal, que passará a abranger numa das suas alíneas a despenalização da IVG “…se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde autorizado.
Seguir-se-á a regulamentação da lei, que envolve questões como a escolha dos estabelecimentos autorizados, a objecção de consciência dos profissionais de saúde, os procedimentos a adoptar relativamente à prática do acto e a inerente dimensão dos custos financeiros que o Estado suportará.

Importa ter presente que o Código Penal e em especial o seu art.º 142º não foram votados em referendo, antes resultaram de lei aprovada na Assembleia da República. Mas os limites da alteração legislativa a votar agora na AR terão de ser encontrados nos limites da pergunta referendada, isto é, nas 10 primeiras semanas de gravidez e em estabelecimento de saúde autorizado.

Cá por mim, não tenho dúvidas de que as grávidas ricas continuarão a ir a Espanha ou Inglaterra, nem que seja para garantir uma maior privacidade.
E as mulheres sem recursos financeiros? Irão sujeitar-se às mil e uma burocracias dos hospitais públicos, com a previsível devassa da sua vida privada? Alguém acredita que irão ser atendidas longe dos olhares da multidão?
E se a IGV for praticada em clínica particular devidamente autorizada, o Serviço Nacional de Saúde suportará alguma fatia dos custos? E se sim, qual?

As dúvidas que me assolam fazem-me pensar que pouco mudará se as mentalidades não evoluírem e se não houver um claro empenhamento da sociedade numa política de harmonização entre o chamado “direito à vida” e o “direito à IVG nas primeiras 10 semanas, por opção da mulher”.

O aborto sempre foi praticado em Portugal em larga escala, mas sob a maior clandestinidade e não será tão cedo que as mulheres portuguesas aceitarão sujeitar-se à via sacra dos serviços hospitalares, tal qual eles funcionam ainda hoje.

Em vez de esperar para ver,
é preciso intervir, para acontecer.
*
oscardebustos

SIM, MAS ...

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” foi a pergunta referendada em 11.02.2007.

Os resultados obtidos no País e em Bustos constam dos quadros seguintes.

A abstenção foi superior a 50%, ultrapassando, em Bustos, os três quintos dos inscritos.

No País, o “SIM” juntou mais de dois milhões de votos (excede ligeiramente um quarto dos eleitores inscritos) e o “NÃO” quedou-se pela franja do milhão e meio, representado um pouco mais de um sexto do eleitorado.

Em Bustos, o ‘SIM’ foi a opção de cerca de um sétimo dos inscritos, (313 votos) e o “NÃO” vai pouco além de um quinto do eleitorado local, atingindo 467 votos entre 2.161 eleitores inscritos.

Os ‘votos em branco’ alcançaram no País, 0,55% dos inscritos (que corresponde a 48.185 eleitores) e em Bustos 0,60%, (13 ). Bustos tem uma perccentagem ligeiramente superior (em 0,05%) à do País;

“Votos nulos”
. o País, com 0,30% do eleitorado (26.297 votos) ultrapassa metade dos “votos em branco”;
. e em Bustos, 0,14%, ( 3 votos) representa pouco menos do que a quarta parte dos ‘votos em branco’.

Conforme está confirmado pelos sucessivos resultados eleitorais, Bustos é uma fortaleza inexpugnável da direita e do centro-direita. Apesar do “Não” ter agregado 467 votos contra 313 do “Sim”, observando a repartição de votos nas duas Mesas, constata-se, com surpresa, que na «Urna 2» venceu a opção do ‘SIM’.

Por certo que este caso irá merecer alguma apreciação da parte das máquinas partidárias.
Ainda que esta "anomalia" não acarrete a mais pequena convulsão nas máquiansa partidárias do CDS ou do PSD.
Gráfico 1 (Urna 1)
Da leitura do gráfico 1, extrai-se: a opção do “Não” alcançou a vantagem de 16% dos respectivos votantes do “sim” e a soma das percentagens do “Sim” e do “Não” alcançam 37% dos votantes.

Gráfico 2 (Urna 2)
Do gráfico 2 extrai-se que a abstenção anda próxima dos dois terços do eleitorado (63,9%) e que as opções do “Não” e do Sim” atingem percentagens muito próximas, recolhendo o ‘Sim’ 18,7% (opção vencedora por estreita margem) e o ‘Não’ 16,5%.
A vitória da opção do ‘SIM’ na Mesa 2 foi a grande sensação dos resultados do referendo em Bustos, (como já está assinalado)

Gráfico 3 – Resultados das duas Mesas de voto de Bustos (em percentagem):
Em Bustos, a abstenção atinge uns expressivos 62,5% do seu eleitorado. [O peso deste absentismo deve provocar alguma preocupação à ‘classe política’ que quase tudo tem feito para afastar o cidadão de se preocupar com a ‘res publica’.]

O “Não” foi a opção de 21,6 % do eleitorado e o “Sim” alcançou 14,5% do eleitorado inscrito.

Os gráficos 4 e 5 permitem comparar a distribuição da percentagem dos votos expressos pelas quatro opções (“SIM”, “NÃO”, “Votos em Branco” e “Votos Nulos”) em cada uma das urnas da freguesia de Bustos.

Urna 1
O gráfico 4 mostra a maioria significativa alcançada pelo “NÃO” com 70,7% dos votos expressos contra 27,8% amealhados pelo “SIM”.

Urna 2
O gráfico 5 regista percentagem muito próxima entre asduas opções, com vantagem para o «SIM» : 45,7% dos votos expressos são a favor do “NÃO” contra 51,7% do “SIM”.

Do gráfico 6, pode-se extrair que cerca de dois terços dos votantes da freguesia de Bustos optaram pelo “NÃO”.
...
COMENTÁRIO DO FECHO:
A vitória do ‘SIM’ vem colocar na agenda política a problemática que envolve as condições sociais e pessoais relacinadas com a conservação da espécie através do tempo futuro e as sequelas adstritas à educação sexual, planeamento familiar, saúde, direitos, …

Mesmo que o “SIM” tivesse reunido uma expressiva votação, a elaboração do corpo jurídico terá de ser muito ponderada e não pode ser tratada em contra-relógio. O legislador tem de ter presente que a fronteira dos vencedores de hoje e os vencedores de ontem é muito difusa e, que a lei do estado tem de ser articulada na defesa da vida e proporcionando condições dentro da dignidade humana.

Votei na opção «SIM» por vários motivos e um deles foi o de não aceitar a hipocrisia do "estado de direito" que se permite (permitia) devassar a vida da mulher para depois vir a ser despenalizada.
Despenalização da interrupção voluntária da gravidez referendada,
SIM, MAS ...
sérgio micaelo ferreira (“Escrevam e anotem !”)

(nota; para editar o comentário é necessário clicar em # colocado antes de 'posted')

9 de fevereiro de 2007

SIM, VOU VOTAR


A questão do aborto é, todos o afirmam, uma questão de consciência. Há até organizações políticas (como é o caso do PSD) que não assumem uma “posição oficial” face ao referendo do próximo domingo porque, justificam, esta é uma questão de consciência. Querem assim dizer que cada um deve decidir em consciência e liberdade, pelo que o partido não se atreve a dar uma orientação de voto aos seus militantes. Significando isso que nem pessoas, nem grupos ou associações, nem o Estado devem atentar contra a consciência alheia e a liberdade individual.

Quem acredita que a vida começa no momento da fecundação ou quem defenda que todo o esperma é sagrado, pelo que só deve ser usado para procriar, tem todo o meu apoio e consideração. Nada tenho a contrapor. Mas é inadmissível que em nome de tão respeitosas convicções se persigam mulheres, se atire para a exclusão e clandestinidade uma das franjas mais carentes da sociedade. Não é sério, não é civilizado, não é cristão continuar-se a fazer de conta que o aborto clandestino não existe. Não é justo perseguir, podendo punir com prisão, quem mais necessita de ajuda, amparo e esclarecimento. É intolerável que por questões de fé se exclua do Serviço Nacional de Saúde os mais carenciados, aqueles que não podem ir já ali, a Badajoz.

Ir votar no próximo domingo e dizer SIM será uma afirmação de cidadania, mas também de tolerância e solidariedade. E de respeito pela consciência de cada um. E de consideração pela vida.

Belino Costa

MOURISQUENSE – UDBUSTOS (1 -2). AINDA JOGA NA SECRETARIA


MOURISQUENSE PROTESTA JOGO

O Mourisquense contesta um “erro técnico da arbitragem” no jogo com o Bustos, disputado a 5 de Novembro último, e que os “Pilatos” perderam por 1-2. Após o impasse criado pela Associação de Futebol de Aveiro, o clube vai fazer uma exposição dos factos à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Em causa está o facto de se encontrarem inscritos 19 atletas do Bustos na ficha de jogo.
Augusto Saraiva Santos, presidente da União Desportiva Mourisquense (foto), está agastado com a forma como o Conselho de Disciplina da Associação de Futebol de Aveiro está a encarar o “erro técnico cometido pelo arbitragem chefiada por João Salgueiro” no jogo frente ao Bustos.“Estou há um ano no futebol e enquanto aqui estiver quero estar de uma forma séria”, desabafou a SPD.O presidente do Mourisquense alega que o Bustos colocou 19 jogadores na ficha de jogo “e a lei não permite tais factos”. A exposição foi feita à AFA mas esta “não deu qualquer resposta até hoje, limitando-se a dizer que o Conselho de Arbitragem poderá punir o árbitro e mandar repetir o jogo”.
Augusto Saraiva Santos disse que já efectuou três reuniões com o presidente do CD da AFA, Almeida e Costa, mas “foram infrutíferas”. O caso vai agora avançar para a Federação Portuguesa de Futebol, uma vez que Augusto Saraiva Santos considera que “em parte alguma do mundo se joga com 19 jogadores”.
A ficha do jogo, a que SPD teve acesso, refere nas observações que “por motivos do jogador nº. 3 se ter lesionado no aquecimento jogou no seu lugar o jogador nº. 16 e no lugar do jogador nº. 16 entrou o jogador nº. 21, senhor Pedro Miguel Pereira Géni, cartão nº. 621158”.É exactamente a entrada em campo do atleta Pedro Géni, aos 80 minutos, que o Mourisquense contesta, alegando que “estiveram 19 jogadores ao jogo”.

SPD não conseguiu ouvir nenhum responsável do CD da AFA.
in Soberania do Povo

8 de fevereiro de 2007

18 DE FEVEREIRO DE 1960: DA HOMENAGEM À MANIPULAÇÃO

Foi grande o falatório sobre a reunião promovida pela Comissão de Melhoramentos, e a exaltação do prior, a ponto de ter dito que nada se podia fazer sem o seu consentimento e a sua participação. Entre o trabalho das vinhas, durante o jogo de cartas e do dominó, multiplicaram-se as críticas e os apartes, mas todos sabiam que o que o padre falara verdade. Ele não era apenas o líder espiritual da aldeia, também comandava os cordelinhos da política, não hesitando até em denunciar à polícia política as “ovelhas tresmalhadas”.
Nada se podia fazer contra a vontade de António Henriques Vidal que exigira um lugar à mesa. Inevitavelmente teriam que conciliar interesses. Diferentes, mas não antagónicos.
A Comissão de Melhoramentos queria homenagear os fundadores da freguesia, criar uma biblioteca, fundar um jornal, lutar pela instalação de uma casa de saúde, agitar consciências. O padre Vidal tinha outro objectivo, construir uma nova igreja. E sabia que só utilizando a seu favor a iniciativa, a energia, e a esmola de quem “não era frequentador da missa”, poderia lograr tal objectivo.
Jogou forte e claro na assembleia de 1 de Janeiro, sublinhando que não iria admitir iniciativas “independentes”. Os elementos da Comissão perceberam a mensagem, pois o pároco facilmente conseguiria proibir qualquer movimento, reunião ou homenagem. E os mais velhos logo se lembraram do ano de 1940, quando a festa do 18 de Fevereiro fora proibida pelo Visconde de Bustos, com o pretexto de que se podia ofender o povo da Mamarrosa.

O inevitável deu-se, e os festejos do 18 de Fevereiro de 1960 não só tiveram direito a missa, como contaram com a participação de dois padres, do presidente da Junta, Manuel Ferreira e do vereador da Câmara, Manuel dos Santos Vieira, todos ocupando lugar de destaque na mesa da sessão solene onde se homenageou Jacinto Simões dos Louros e Manuel dos Santos Pato.

O dia começou com uma salva matinal de 21 tiros. “Às 10,30 foi celebrada missa pelo pároco da freguesia, assistindo muito povo e as pessoas mais representativas do nosso meio” (…) “No final da missa, foi a romagem ao cemitério tendo tomado parte a irmandade de S. Lourenço”(1)

Jacinto Simões dos Louros, que tinha chegado a Bustos dois dias antes, participou na romagem e estranhou o ambiente religioso. Na ocasião nada disse, mas ficou de tal modo impressionado que, uns anos mais tarde quando escreveu as memórias, nas linhas dedicadas à homenagem de Bustos, apenas escreveu:
“Em 18 de Fevereiro de 1960 promoveu-se pela primeira vez a comemoração da criação freguesia em 1920, com um cortejo religioso ao cemitério em homenagem a todas as pessoas ali sepultadas.
Esse cortejo era justo mas devia de ser feito civilmente em homenagem aos republicanos, bem como a todas as pessoas que votaram o plebiscito favorável à criação da freguesia e até mesmo às pessoas que não podiam votar, mas que concordavam. Prestar homenagem a todos, inclusivamente aquelas pessoas que votaram contra, foi um autêntico contra senso. Eu discordei, nem logicamente podia concordar, muito embora no acto o não manifestasse, porque não quis ser desmancha-prazeres, como me poderiam alcunhar.” (2)

Pelas quatro da tarde, já com a presença de muito povo, no átrio do clube foram descerradas duas “lápides em honra de Jacinto Simões dos Louros, paladino e principal autor da criação civil da freguesia e do Dr. Manuel dos Santos Pato, paladino e autor da criação eclesiástica.” (3) Seguiu-se a sessão solene tendo falado: Dr. Assis Rei, Engenheiro Pato, Hilário Costa, Padre Rei (pároco da Moita), Vitorino Reis Pedreiras, Padre Vidal, Professor Pires, Jacinto Simões dos Louros e Dr. Manuel dos Santos Pato.
A sessão solene terminou com o discurso emocionado de Manuel dos Santos Pato, mas os trabalhos não terminaram aí.

Logo depois, quase sem intervalo, iniciou-se a segunda sessão pública da Comissão de Melhoramentos. Foi então que Padre Vidal fez alinhar o reforço trazido de fora, o reverendo Alfredo Simões Rei. Este, depois de dirigir à Comissão várias perguntas, introduziu a questão da construção da nova igreja.
“Indicou que a igreja devia ser a que tinha primazia em virtude de já estar em vias de começo. Depois dirigindo-se ao povo fez-lhe esta pergunta: Qual das obras considereis de maior urgência e necessidade, a igreja, a casa de saúde, ou outro qualquer melhoramento?
O povo não se manifestou. Nova pergunta do padre. É a igreja que quereis construir? Apenas meia dúzia de vozes disseram sim. Esta manifestação foi sintomática, não resta dúvida” (3)

Uns dias depois lia-se no “Jornal da Bairrada” (1):
“Tem sido o assunto de maior interesse nos últimos dias. Agitado o problema pela Comissão de Melhoramentos vemos que o povo quer começar por onde deve, a sua igreja nova. Tanto a Comissão de Melhoramentos como a Comissão da Nova Igreja estão de mãos dadas para levar a cabo uma obra que há 40 anos espera.”
A manipulação tomava forma impressa, espalhava-se a notícia de que a construção da nova igreja era a prioridade da recém formada Comissão de Melhoramentos. Isto escrito pelo correspondente local do “Jornal da Bairrada.” O qual respondia pelo nome de António Vidal e era padre. Em Bustos.

Belino Costa

(1) Jornal da Bairrada, 27 de Fevereiro de 1960, pag4
(2) Jacinto Simões dos Louros, Notas e recordações da minha vida particular e política, pag106
(3) Vitorino Reis Pedreiras, livro de memórias, volume VI

7 de fevereiro de 2007

QUEM SE LEMBRA DE CHICHARRO DE PAR?

A nova edição dos “Guardiãos (ou Guardiões) dos Sabores” teve lugar no dia 20 de Janeiro em casa do Fernando Silva, na Palhaça. Para aqueles que não puderam comparecer a esta assembleia, tais como os nossos conterrâneos residentes nos Estados Unidos (que já se queixaram de não poderem provar as nossas ementas tradicionais) tenho a dizer que desta vez comemos um prato de grande tradição local.

charros de par e camarinhas, de burro
Fechem os olhos e revejam na memória o chegar, a uma rua qualquer da nossa terra, de uma pessoa com um burro carregado de caixas de “chicharro de par” salgado ou fresco vindo de Mira ou da Vagueira. Quem se lembra das nossas mães comprarem um par de chicharros? Esses eram vendidos aos pares, enquanto as sardinhas e os carapaus compravam-se aos quarteirões ou fracções de quarteirões (naquele tempo, meio quarteirão eram treze). E quem se lembra de comprar, de vez em quando, camarinhas? Eram brancas ou rosadas, frescas e ligeiramente amargas, mas para os miúdos eram memoráveis e exóticas. Há vinte anos que não vejo camarinhas, quando nessa altura, as encontrei nos pinhais entre Mira e Tocha. Imagino que muitos dos mais novos da minha terra nem sabem o que são camarinhas pelas quais tanto ansiávamos quando éramos pequenos. Estas também vinham de burro das “areias (como se chamavam as terras para os lados do mar).
Pois o Fernando Silva foi à Vagueira e trouxe charro de par (o termo “charro” mudou com o tempo, mas garanto que não fumámos o peixe) e salgou-o durante três dias. Os charros que se compravam quando eu era pequeno eram maiores mas, infelizmente, os chicharros modernos já não têm o tamanho de outrora (este fenómeno de diminuição de tamanho e maturação sexual precoce de espécies é comum em peixes sobre-pescados).

guardiães/guardiões cumpridores
Estiveram presentes na ceia de “escorrido” de charro, batatas e grelos o Fernando Silva, Chico Pedreiras, Manuel Romão, António Sá, o “venerável” Agostinho Pires, Ulisses Crespo, Óscar Santos, Amândio “Azeiteiro” Ferreira, Milton Costa, Morais Aleixo, Mário Neto, José Carlos Santos e Paulo Barata.

Escorrido queria dizer antigamente que a comida era escorrida antes de a pôr na travessa ao contrário da sopa, por exemplo, que não se escorria. As pessoas muitas vezes usavam o termo “comida de azeite” porque se rega a comida com azeite (e tal como eu, também com vinagre).

aguardente bagaceira. método ancestral de medição do teor alcoólico
O chicharro estava salgadinho. A refeição foi regada com vinho tinto da Bairrada e no fim houve aguardente velha e aguardente bagaceira feita na máquina de destilar do pai de Fernando Silva, recordando velhos tempos quando eu também trabalhava na máquina de destilar do Manuel Simões da Costa (Manuel Serafim) e deliciava-me com o cheiro doce do bagaço e do produto. Tanto eu como o Fernando Silva tentávamos e conseguíamos fazer um produto final com um teor alcoólico por volta de 21-22 º Cartier (que corresponde a 51-52 % de álcool) quando destilávamos o bagaço nas máquinas de vapor. O teor alcoólico da aguardente bagaceira (ou de outra bebida forte) era fácil por observação do comportamento do “coral” (as bolhas que se formam quando se bate um copo meio de uma bebida alcoólica na palma da outra mão). Bolhas pequenas que se desfazem imediatamente indicam que o valor é menor que 20-21 º Cartier. Poucas bolhas grandes no coral indicam que a aguardente tem um teor alcoólico muito elevado. Bolhas com um diâmetro de 0,5 a cerca de 1,5 mm de diâmetro que perduram durante minutos indicam o teor alcoólico certo. Era, portanto, fácil calcular o teor alcoólico apropriado pela simples observação de bolhas num copo e, por isso, raramente se recorria a um alcoolímetro. O mais interessante é que por toda a Europa se calculava o valor alcoólico da mesma maneia quando não havia aparelhos para medir a densidade.
Eu sei que bebidas, com este teor alcoólico, são proibidas mas (só se permite até 40-43%, mas neste caso, a tradição é mais importante que a lei). Felizmente tenho mais de um almude de bagaceira guardado, porque sei que em poucos anos nada disto existirá na nossa terra.

guardiães/guardiões recordam antepassados
O Ulisses Crespo e o Fernando Silva disseram algumas palavras no fim. O Fernando Silva comoveu os amigos ao lembrar que estas ceias não serviam só para alguns amigos se juntarem para comer, mas sim para recordar os antepassados. Ainda há poucos dias foi lembrado o José Valério no “Notícias de Bustos” e espero que outras pessoas sejam continuamente lembradas para não nos esquecermos, nunca, de onde viemos.

para construir a história «escrevam e anotem!»
Há dias, ao reler um livro chamado “Holocaust” de Martin Gilbert, notei a história do massacre de muitos milhares de Judeus de Riga, na floresta de Rumbuli (onde já estive em homenagem a esses mortos). Nessa altura, o historiador Judeu de Riga, Simon Dubnov, gritou segundos antes de ser morto com um tiro na cabeça: “Escrevam e anotem!”. Dubnov estava a pedir aos possíveis sobreviventes do Holocausto que escrevessem tudo, porque todos os pormenores, por muito insignificantes que fossem, iriam contribuir para que as pessoas no futuro percebessem o que se passou nessa era de extermínio. Eu aconselho o mesmo, «Escrevam e anotem!» porque todos os pormenores, mesmo os mais insignificantes, ficam para a nossa história. E acreditem, … também estão a exterminar continuadamente e cada vez mais depressa os costumes, as tradições e a memória do nosso povo. Penso que em muitos casos, este extermínio é deliberado, propositado e com a finalidade de esquecer a história de uma terra.
E as histórias de Bustos precisam ser preservadas, nem que seja só em palavras.
“Escrevam e anotem !”

Milton Costa


“CHARROS DE PAR” À MESA DO HOSPITALEIRO FERNANDO SILVA

gente da nossa gente – 4


Em recente dia[1], o engenheiro FERNANDO SILVA, abriu as portas da sua elegante mansão, na Palhaça, para receber um grupo de amigos, na sua maioria Bustuenses. Tratava-se do grupo conhecido por ‘OS GUARDIÕES DOS SABORES”, (a saber), ... são o prolongamento dos que antes eram conhecidos por "os molhaqueiros" e "os taineiros",[2] mas agora este grupo incumbe-se de zelar pela continuação e cultivo das nossas velhas tradições.

Desta vez, tratava-se de um "ágape" de charros de par com batatas e grelos. O bodo ressaltava à vista, não só pela maestrina cozinheira (a irmã do anfitrião) e também por se desfrutar de um momento acolhedor.

O agasalho contou com a assistência de bons vinhos, de colheita particular com origem demarcada na zona de Sangalhos.

“charro de par”, porquê?
Antes da intervenção degustativa, abordou-se o porquê de se chamar "charro de par". Uns afirmavam que as suas mães lhes explicaram que antes vinham as sardinheiras e sardinheiros com charros salgados metidos um dentro do outro, outros insistiam porque eram vendidos a cada dois, ao fim concluiu-se que era charro de par, por ser "um par de dois".

Acto contínuo divagou-se sobre a degustação, afinando gostos e paladares: o Chico Humberto, jactando-se de batateiro credenciado, garantia que estes tubérculos estavam dentro da qualidade para este tipo de comida, e, para credenciar a robustez do seu parecer, afiançara que “de batatas sei eu”.

O amigo Manuel Romão, como técnico em panificação, foi insistente em afirmar, que “estes charros estavam bem adubados ao que ao sal se refere e foram preparados por quem é conhecedor”.

Mas o ponto culminante, tocou a Milton Costa, constante em afirmar que na qualidade de professor de microbiologia, era a pessoa indicada para falar de hortaliça, porque ademais de grelos sabia ele.

hora do “plus café”
Chegou a hora do "plus café" e com o decorrer das conversações que abonavam a dignidade do anfitrião, não podia haver silêncio, e foi aí que o “escriba destas linhas" ergueu a sua figura para expressar umas poucas palavras, por tão galharda recepção.

O anfitrião, não quis ficar impávido ante as palavras do "cronista da vila”, donde manifestou o regozijo da presença dos convivas. Fernando Silva foi terminante em afirmar que estas reuniões são salutares para a convivência e que contassem sempre com a sua modesta participação.

próximo capítulo[3]
Falou-se dos próximos encontros dos “Guardiões dos Sabores” e soaram algumas vozes a propor uma reunião para a xácara do Romão, o já conhecido “El Rincon”.

Oxalá que sim… que voluntários há sempre.

GENTE DE BUSTOS
a recordar os seus antepassados!

Ulisses Oliveira Crespo,
(Comendador, cronista da vila)
*
(notas de ‘altino’)
[1] Aconteceu no dia 20.01.2007
[2] “molhaqueiros”, fiéis ao culto da “molhaca” (?); “taineiros”; praticantes das ‘tainadas’
[3] Está marcado para o dia 08.02.2007