
Óscar Aires dos Santos é um competente advogado e um cidadão com uma larga folha de serviços no capítulo da participação cívica e política. Questões que não interessam a esta crónica porque o advogado, o activista político, o dirigente associativo são apenas facetas de alguém que é apenas e tão só, um agricultor. Terra à terra, em comunhão com a natureza e os animais, capaz de andar às rolas nas noites mais frias.
Há no Óscar uma dimensão rural que o impele a conduzir o tractor, a andar pelos pinhais a cortar o mato, que o leva a tratar com desvelo cada cepa da sua vinha no Portinho. E por desvelo, paixão profunda, arrebatamento agrícola esparrou, mais do que seria necessário, as cepas herdadas do pai, Manuel Joaquim “Ferrador”.
Acontece que as videiras não suportam excessos românticos e as uvas são frágeis de tão femininas. Sim, há coisas tão importantes quanto uma boa poda. Mas quem sou eu para ensinar um professor, aquele que recusa a ráfia atando sempre as vinhas com verga original.
Adiante.
A esparradela apaixonada, excessiva, teve uma consequência trágica já que a produção vinícola revelou ser a mais baixa de todo o sempre. A coisa ficou-se pelos vinte seis baldes, quase nada.
Para mim, que ansiava retemperar as narinas com o cheiro do mosto, foi um duro golpe deparar com tão minguada realidade. Uma razia. Espreitei os dois palmos de uvas no fundo do lagar e percebi que estava perante um complexo desafio.
Foi um momento difícil, confesso-o. Sentindo quão dolorosa era a situação fiquei imóvel, atónito. Depois, intimidado por dois barris que de boca aberta me olhavam severamente, virei costas, fugi para a porta da adega. De camisa aberta, qual druida na fabricação da poção mágica, irremediavelmente optimista, o Óscar sentenciou sem deixar margem para dúvidas:
- É pouco mas de qualidade. O branco tem doze graus, vai dar uma boa pinga.
Pois, também o Asterix acreditava que o céu lhe podia cair em cima da cabeça, cogitei. É que sempre ouvi dizer que não basta ter uvas para se fazer um bom vinho. Sendo que também me disseram que até de uvas se faz tintol.
Vendo o olhar brilhante, a eloquência do bigode, o gesto convicto do meu anfitrião abraçando toda a adega logo concordei:”Vai dar uma boa pinga.”
Nesse dia ao chegar a casa, só por mera precaução, acendi uma velinha ao S. Martinho…

Belino Costa