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16 de maio de 2015

O NOTÍCIAS DE BUSTOS VISTO DO CÉU

Dez anos é muito tempo na vida desta espécie de jornal de parede.
Podem dizer-me que foram 10 anos vividos com alguns tropeções, outras tantas zangas e até algumas birras.
Bem vistas as coisas, o NB espelha a vida amorosa de qualquer um de nós: com altos e baixos, mas sempre intensamente vivida.
Muito da História e das histórias de Bustos, dos bustuenses e das gentes e terras circunvizinhas passaram por aqui.
Não há quem não sinta paixão pelo NB. Para a malta da diáspora, então, o blogue é uma espécie de pão para boca faminta.
Deixá-lo morrer seria amputar a nossa terra e as nossas gentes deste elo de ligação com o passado e o presente. Lembremos: o blogue começou por chamar-se “Bustos – do passado e do presente”.
Já agora: apesar do antigo servidor o ter eliminado, ainda é possível reviver os textos do saudoso antecessor do NB, pegando, por exemplo, na ligação do 1º número e ir avançando para os meses que se lhe seguiram:
Se querem a minha opinião, o melhor texto alguma vez publicado no NB saiu das mãos do Milton Costa, um mestre da narrativa (e dos micróbios, mas isso é outra música), texto que comentei no local próprio. Aqui vai a ligação (link, diz-se, em linguagem cibernética):
Por falar nesse antro de conspiradores que é o Barrilito, ficam a saber da última novidade, que eu não sou de segredos de Estado:
Liderados pelo incansável Agostinho, está na forja a criação de mais uma confraria bairradina: a dos “Guardiões dos Sabores”, grupelho que já tem uns anitos de vida e com textos publicados no NB e até no seu antecessor.
Há dias, a meio duns petiscos bem regados, o Agostinho mostrou-nos alguns trajes pomposos, inquirindo sobre o tecido e o estilo que deveríamos adoptar.
Pus-me a pensar e cheguei à conclusão de que o caminho a seguir deverá ser o do contraciclo: em vez da ostentação, o despojamento total, como trajou o aio do nosso 1º rei perante mais uma malfeitoria do D. Afonso Henriques.
Em verdade vos digo: deveremos apresentar-nos nos chamados capítulos da futura confraria como o Egas Moniz e a família se apresentaram em Toledo perante o rei de Leão e Castela: mal vestidos, descalços e de corda ao pescoço.
Afinal, é assim que os portugueses gostam de aparecer ao mundo: submissos como carneiros.
 A propósito: há quem pense numa boa chanfana para o próximo conclave.
Em contraciclo, torço pela caldeira de enguias.
Vamos a votos, que o NB pela-se por uma boa polémica.
*
oscardebustos

10 de abril de 2014

NASCEU A CONFRARIA DOS ROJÕES COM GRELO E BATATA À RACHA


 
Nasceu no passado dia 5 de Abril, em Oliveira do Bairro, a confraria dos Rojões da Bairrad com Grelo e Batata à Racha. ,que, na igreja de Vila Verde, entronizou, os seus 30 confrades fundadores e 20 efetivos que juraram defender, divulgar e promover a gastronomia bairradina, nomeadamente no que toca à genuinidade e tradição do modo de confecção dos rojões desta região do país, para além das suas demais iguarias gastronómicas, cultura e tradições.
Estiveram presentes, a apadrinhar o ato, as confrarias: das Almas Santas da Areosa e do Leitão (de Aguada de Cima, Águeda) e dos Enófilos da Bairrada (de Anadia).Segui-se um repasto onde os rojões da Bairrada, confeccionados em tacho com lume brando, com grelos e batata à racha fizeram a delicia dos convivas.
Os órgãos sociais ficaram assim constituidos:Assembleia Geral- Presidente/Juiz: Joaquim de Almeida, Secretários: Carlos Pinheiro e Gilberto Martins Rosa; Direção- Presidente/Mordomo-mor: Miguel Roque Bouça, Vice-presidente Secretário/ Mordomo: Joel Reis, Vice-presidente Tesoureiro/Mordomo: Vítor Pinto, Vice-presidentes/Mordomos: Emília Abrantes, Maria Ivone Almeida, Fernando Clara e Armando Castro; e no Conselho Fiscal- Presidente: Fernando Pinhal, Relator: Ana Lina Gomes, e Vogal: João Rocha.

10 de maio de 2012

MAMARROSA


I- MEMÓRIA DE 1758


1. SUMÁRIO


SITUAÇÃO FÍSICA E ADMINISTRATIVA - Esta situada em “Planície inda que haja alguns valles piquenos” na província da Beira Baixa, parte era termo da Vila de Soza; do Couto e termo de Sorães; do termo da vila de Aveiro; do termo da vila de Cantanhede, do Bispado de Coimbra

POPULAÇÃO - 245 “vizinhos”; 857 pessoas “entre piquenos e grandes”

PRODUÇÕES – Milho “grosso”, vinho, trigo e cevada

PATRIMÓNIO RELIGIOSO - Igreja dedicada a S. Simão, com cinco altares e imagens do padroeiro, do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do Rosário, do Espírito Santo e de São Sebastião; uma ermida em honra de Nossa Senhora da Graça, situada dentro do lugar da Mamarrosa e outra ermida em honra de São Lourenço, situada dentro do lugar de Bustos.

GOVERNO ECLESIÁSTICO - O “Cura”, apresentado pelo reitor da Igreja Matriz de Soza e com renda de 120$000 réis, era a principal autoridade religiosa. Havia uma irmandade de almas consagrada a São Sebastião e as confrarias do Santíssimo Sacramento, da Senhora do Rosário e do Espírito Santo.

GOVERNO CIVIL - Partes da freguesia estavam sujeitas aos juízes ordinários das vilas de Soza, de Sorães, de Cantanhede e ao juiz de fora da vila de Aveiro.

COMUNICAÇÕES - Servia-se do correio com destino ao Porto que passava em Avelãs de Caminho.

OUTROS – Ao S. Lourenço dedicavam as pessoas grande devoção porque acodia “ (…) muita gente de romagem a mesma capella (…) por terem o dito santo mártir para advogado das maleytas (…) ”. As pessoas acreditavam que se levassem uma telha de oferta ao S. Lourenço este lhes tirava as doenças


2. TEXTO


Resposta aos inte[r]rogatorios da minuta e relaçaõ do que pertence a freguezia de Sam Simaõ do lugar da Mamaroza, anexa á matris de Sam Miguel da villa de Soza feyta pelo reytor da mesma igreja matris por lhe ter inviádo a dita deligencia.

1º A Freguezia de Sam Simaõ do lugar da Mamaroza está na provincia da Beyra Bayxa pertence ao Bispado de Coimbra, parte desta freguesia he commarqua de Esgueyra e parte commarqua de Coimbra; parte desta freguesia he termo da villa de Soza, parte della do coito e termo de Soreis e parte do termo da villa de Aveyro, e parte do termo da villa de Cantanhede; há nesta freguezia igreja parochial cuja se acha no termo da villa de Soza.

2º O Illustrissimo e Excellentissimo Duque de Lafões he senhor da comeenda de parte desta freguezia, inquanto o illustrissimo e excellentissimo Duque de Lafões como comendador da comenda da igreja matriz da villa de Soza á dita comenda lhe pertencem os Dizimos de parte desta freguezia da Mamaroza, e em os lugares que saõ do termo da mesma villa de Soza tão bem lhe pertencem os foros e reçoiz por serem da mesma comenda, e de parte desta freguezia he senhor o Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marques de Marialva, e os Dizimos desta parte da freguezia pertencem ao Reverendo Cabido da Sé de Coimbra.

3º Tem esta freguezia da Mamaroza Duzentos quarenta e sinco vezinhos, e entre piquenos e grandes ointocentas sincoenta e sete pessoas.

4º Esta freguezia está cituada em planície, inda que entre huns lugares e outros haja alguns valles piquenos. Della se discobrem e avistam alguns lugares da freguezia de Soza; de Eyxo; de Requeijo; do Troviscal; de Oliveyra do Bayrro; de Sangalhos; de Sam Lourenço do Bayrro, de Vilarinho do Bairro; Soreis; e de Vagos. Estes lugares distaraõ dos confins desta freguezia da Mamaroza huns mais de legoa, outros de legoa, outros de meya, e outros de menos.

5º Parte desta freguesia da Mamaroza he termo da villa de Soza, parte da villa de Soreis, parte do termo da villa de Aveyro, parte do termo da villa de Cantanhede.

6º A parochia está dentro do lugar da Mamaroza, e no seu destricto que hé do termo de Soza; tem esta freguezia seis lugares e sinco aldeyas, chamão-se os lugares Mamaroza, Bustos, Barreyra; Azurveyra; Sobreyro; Caneyra. Chamão-se as aldeyas Coladas; Quinta da Ferreyra; Quinta do Gordo; Molhapão; Quinta da Galla.

7º O orago desta igreja do lugar da Mamaroza he o apostolo Sam Simão; tem a igreja cinco altares, o altar mór tem a imagem do mesmo apostolo Sam Simão; o coletral de parte do Evangelho he o Santyssimo Sacramento; o de parte da Epistola tem Nossa Senhora do Rozario, tem outro altar do divino Espirito Santo; outro de Sam Sebastião. Há na dita igreja huma irmandade de almas cujo protetor he o mesmo mártir São Sebastião e tem mais as comfrarias do Santissimo Sacramento; Senhora do Rozario e Espirito Santo.

8º O Parocho desta freguesia é cura ao coal anualmente apresenta ao Reytor da igreja matriz de Soza por ser esta da Mamaroza sua anexa e filial da dita matriz, e renderá anulamente pouco mais ou menos para o mesmo cura cento e vinte mil réis ainda que casualmente haverá anno em que renda mais, ou menos, por constar a sua renda de congrua que se lhe dá de comenda da igreja de Soza e o pé de altar.

9º Nada deste.

10º Nada deste.

11º Nada deste.

12º Nada deste.

13º Há nesta dita freguezia da Mamaroza duas ermidas huma de Nossa Senhora da Graça no dito lugar da Mamaroza cuja comcervaçaõ e reparos corre por conta da confraria de Nossa Senhora do Rozario da dita igreja e esta dentro do lugar; e outra ermida do martir Sam Lourenço dentro do lugar de Bustos cuja conservaçaõ e reparos pertence aos mesmos moradores do mesmo lugar de Bustos Barreyra e Azurveyra e Sobreyro.

14º Em dois de Agosto dia do dito martir Saõ Lourenço acode muita gente de romagem a mesma capella e tambem em dias diversos algumas pessoas particulares por terem ao dito santo mártir por advogado das maleytas, e que levando-lhe huma telha de oferta tem fé de que lhas tira.

15º Os frutos da terra que os moradores da freguezia recolhem a mayor quantidade, he o milho grosso e também vinho, trigo e cevada.

16º Não tem o lugar da Mamaroza e freguezia juiz ordinário ou camera porque parte desta freguezia esta sujeita ao juiz ordinario da villa de Soza, parte ao juiz ordinario da vila de Soreis; parte ao juiz ordinario da villa de Cantanhede e parte ao juiz de fora da villa de Aveyro e as cameras dos ditos destritos

17º Nesta freguezia da Mamarroza não há coito, cabeça de concelho, honra ou behetria, porem parte do lugar de Bustos, parte do lugar do Sobreyro e lugar da Barreyra que pertencem ao termo da villa de Soreis lograõ seus moradores previlegios da religiaõ de malta por serem foreiros da Comenda de Ansemil que he da mesma religiam.

18º Não ha deste interrogatorio nada.

19º Nesta freguesia naõ há feyra alguma senão somente dois mercados, hum que se faz no lugar de Bustos ao pe da cappella do mártir Sam Lourenço em dez de Agosto e somente neste dia; e outro no lugar da Mamaroza junto a igreja della em vinte e oito de Oitubro dia do apostolo Sam Simaõ e tambem só neste dia, e ambos os ditos dois mercados contaõ de coisas comestiveis.

20º Nesta dita freguezia não há correyo e a gente della se serve do correyo que passa para o Porto por Avelãs de Caminho que dista desta dita freguezia duas legoas.

21º Dista esta freguezia da Mamaroza da cidade de Coimbra cappital do bispado seis legoas, e da corte e cidade de Lisboa capital do reyno corenta legoas.

22º Alguns lugares e parte delles desta freguezia lograõ os previlegios de foreiros de Malta como foi dito no interrogatorio dezassete.

23º Não ha deste interrogatorio coiza alguma.

24º Da mesma sorte.

25º Da mesma sorte.

26º No terremoto do primeyro de Novembro de mil Setecentos sincoenta e sinco não [h]ouve ruina alguma nesta dita freguezia só sim abalou o remate do zimborio da torre da igreja que ainda naõ esta reparado.

27º Naõ há nesta dita freguezia coisa alguma mais digna de mimoria.

O reytor da igreja matriz de Soza

Thome de Sacramento e Britto [assinado]



Transcrição Paleográfica de Alberto Zenha Martins



QUESTIONÁRIO


1.º Em que Provincia fica e que Bispado, Commarca, Termo e Freguesia pertence?

2.º Se hee del-Rei, ou Donatario, e quem o hé ao prezente?

3.º Quantos visinhos tem e o numero das pessoas?

4.º Se está situada em campina, valle ou monte; e que povoações se descobrem della e quanto dista?

5.º Se tem termo seo: que logares ou aldeas comprehende, como se chama[m]? e quantos visinhos tem?

6.º Se a Parochia está fora do lugar ou dentro delle? E quantos lugares ou aldeias tem a Freguezia, e todos pelos seos nomes?

7.º Qual hé o seo =Orago=, quantos altares tem e de que Sanctos; quantas naves tem; se tem Irmandades: quantas e de que Sanctos?

8.º Se o parocho hé cura, vigairo ou reitor ou prior ou abbade, e de que apresentação hé e que renda tem?

9.º Se tem beneficiados: que renda tem e quem os aprezenta?

10.º Se tem conventos e de que religiosos ou religiosas e quem são os seus padroeiros?

11.º Se tem hospital: quem o administra e que renda tem?

12.º Se tem casa de Misericordia e qual foi a sua origem e que renda tem? E o que houver de notavel em qualquer destas cousas.

13.º Se tem algumas ermidas e de que Sanctos e de outros, dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem?

14.º Se acodem a elles romagem sempre ou em alguns dias do anno e quaes são estes?

15.º Quaes são os fructos da terra que os moradores recolhem com maior abundancia?

16.º Se tem juis ordinario de camara ou se está sujeita ao governo das Justissas de outra terra e qual hé esta?

17.º Se hé couto, e a cabesa do conselho, honra ou behetria?

18.º Se há memoria de que florecessem ou della sahiram alguns homens insignes de virtude, letras ou armas?

19.º Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, e se hé franca ou captiva?

20.º Se tem correio e em que dias de semana chega e parte? E se o não tem de que correio se serve e quanto está a terra aonde elle chega?

21.º Quanto dista da cidade capital do Bispado e quanto de Lisboa, capital do Reino?

22.º Se tem alguns privilegios, antiguidades ou outras cousas dignas de memoria?

23.º Se há na terra ou perto della alguma fonte ou lagos celebre; e se as suas aguas tem alguma especial virtude?

24.º Se for porto de mar, descreva-se o sitio que tem por arte ou por natureza, as embarcaçoens que o frequentam e que pode admitir.

25.º Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seos muros; se for praça d’armas, descreva-se a fortificação; se há nella ou no seu districto algum castelo ou torre antiga e em que estado se acha ao presente?

26.º Se padeceo alguma ruina no Terramoto de 1755 e em quê e se está já reparado?

27.º E tudo mais que houver digno de memoria de que nam faça menção o presente interrogatorio.

5 de abril de 2010

VISITA PASCAL: a tradição renasce

Num texto de 13 de Abril de 2009, dei notícia do que foi a visita pascal na freguesia de Bustos: recomendo a sua leitura, para o que basta clicar AQUI. Está tudo lá, até um pouco de história.
Terminei esse texto deixando na sombra algo que acabou por se tornar uma realidade conhecida: a reabilitação da capela que foi dos Ferreiras e que sempre conhecemos pelo nome do Dr. Santos Pato. A foto está lá, sem qualquer explicação, assim como que a modos de grande mistério.
Como a visita (ou compasso) demora dois dias, ao fim do dia de domingo de Páscoa sempre foi costume deixar a Cruz do Senhor naquela capela, retomando-se a visita no dia de hoje. A degradação e posterior abandono da capela e da própria casa puseram fim a essa tradição.
Com o excelente restauro da casa e capela, a família Dr. Pedro Vaz Serra desejou que se retomasse a tradição. 
 O Padre Arlindo Valente e a Confraria do Senhor também assim quiseram, razão porque ao princípio da noite de ontem a visita do domingo de Páscoa terminou na bonita capela, em cujo altar o símbolo de Cristo ressuscitado ficou até hoje de manhã.
Em jeito de epílogo: a identidade e riqueza das comunidades locais passa pela preservação das  suas tradições. Sem elas, perde-se a alma e o sentir dos povos.

6 de outubro de 2009

"A Viticultura Bairradina Oitocentista" [Resenha Histórica] em livro de Mário Jorge Santiago

História do Cultivo da Vinha na Bairrada.

Acaba de ser publicado um interessante livro que nos conta a história do cultivo da vinha na região bairradina. O livro, intitulado A Viticultura Bairradina Oitocentista, é da autoria do eng. Mário Jorge Santiago. A Confraria dos Enófilos da Bairrada deu-lhe o seu apoio.
O que torna esta publicação interessante, do meu ponto de vista, é que não só nos informa da história da viticultura nacional e bairradina durante os séculos XIX e XX, como também nos relata as actividades humanas e comportamentos sociais associados a uma vida espartana que foi dominada pelo cultivo da vinha, a produção do vinho e a sua comercialização.
O autor conta-nos da importância social e económica do cultivo da vinha e da produção do vinho na vida dos bairradinos, a qualidade e quantidade do vinho produzido na Bairrada entre eventos tais como as moléstias da videira, o oídio e a filoxera, e as políticas do marquês de Pombal que afectaram, de maneira dramática, o cultivo da vinha e a produção de vinho na nossa região.
O livro descreve-nos a vida dos nossos antepassados no século XIX, mas o leitor não terá dificuldades em identificar o mesmo estilo de vida existente no tempo dos nossos pais e avós, até meados do século passado.
O autor inclui na publicação um vocabulário vitivinícola e dizeres populares que reflectem muito da cultura da nossa gente e da nossa terra ainda presentes nas nossas memórias.
A Viticultura Bairradina Oitocentista, uma edição da Confraria dos Enófilos da Bairrada, pode ser obtido através do Museu do Vinho em Anadia.

Alcides Freitas
( Califórnia)

15 de agosto de 2009

Imagem regressa à sua Capela

(vista actual do interior da Capela)

Bem pode dizer-se que as Festas em Honra de S. Lourenço - 2009 apenas se completam hoje, sábado.
Depois da missa das 20H00 terá início uma procissão de velas, presidida pelo Sr. Padre Arlindo e acolitado pela Confraria da Cruz do Senhor, procissão que seguirá até à Barreira.
O Povo de Bustos está convidado a participar na procissão e na cerimónia de entrega da imagem à Família Dr. Pedro Vaz Serra, actual titular daquela que começou por ser a "Capela dos Ferreiras" e que, a partir de 1918, fomos conhecendo como "Capela Dr. Santos Pato".
Os actuais donos do imóvel manifestaram o seu desejo de receber e franquear as portas a todos quantos desejem acompanhar o cortejo que conduzirá a imagem do Santíssimo Imaculado Coração de Maria, Padroeiro da Capela, à sua casa-mãe.
As razões do grande empenhamento da Comissão de Festas são simples, lineares.
Trata-se de "ir à raiz das coisas. Ser solidários com as gerações passadas. Criar diálogos. Encantamentos. Olhares inteligentes. Sentimentos de pertença. De identidade.
Enfim, ligar as pessoas ao seu património".

E assim fecharemos com chave de ouro as Festas do nosso encantamento.
____
- O texto em itálico reproduz o prefácio do trabalho que a Comissão de Festas publicou sob o título "A CAPELA DOS FERREIRAS DA BARREIRA".

23 de julho de 2009

S. LOURENÇO: AS FESTAS DE BUSTOS

Desde a 1ª hora, foi preocupação da numerosa comissão organizadora imprimir aos festejos um cunho que não se ficasse pela matriz de sempre: arraial, procissão e pouco mais. Apesar do grande empenhamento e espírito de sacrifício das anteriores comissões, o nosso Grupo de Cantares de Bustos vinha sendo uma espécie de pérola atirada a um arraial gasto e repetido.
Parecia impossível ir mais longe, mas a actual comissão estava decidida a dar o 1º passo em frente.
Em jeito de refrão, sugeri que o título a dar aos cartazes reflectisse a vontade de inovar, de ir mais longe. O mordomo Virgílio Ferreira deu a dica: vamos chamar-lhes FESTAS DE BUSTOS EM HONRA DE S. LOURENÇO!
Mas tudo o que for inovação e ousadia fere susceptibilidades, sacode demais o torpor das pessoas. Para não chegarmos ao céu duma assentada, preferimos recuar no mote, não fosse o Diabo tecê-las enquanto os Santos dormiam.
Também recuámos numa exposição ilustrativa de rádios antigos do Manuel dos Rádios, o que se deveu a razões de segurança e evitar riscos que pusessem em causa a integridade do fantástico património do Manuel, único em Portugal e Europa e dos mais completos e ricos do mundo.
Recuámos ainda na realização de 2 conferências, por outros temores.
Eis o que nos ficou, depois de alguns avanços e outros tantos recuos:
a) Parte cultural:
- Dia 8; 22H00: Espectáculo ao ar livre, pela Companhia de Dança de Aveiro.
- Dia 9; 17H00: Apresentação dum trabalho do Li Mota (Moncas) sobre a Capela dos Ferreiras, que conhecíamos por "Capela do Dr. Pato", mas era assim denominada em finais do séc. XIX. (1)
(Santíssimo Imaculado Coração de Maria - 1873)

- 18H00: Actuação dos Cantares de Bustos.
- Dia 10; 18H00: Concerto da Banda Filarmónica da Mamarrosa.
b) Parte religiosa:
- Dia 9; 11H00: Benção, no decorrer da missa de domingo, da nova imagem da padroeira da Capela dos Ferreiras, entretanto desaparecida e documentada como Santíssimo Imaculado Coração de Maria, consagrada em 12 de Dezembro de 1873. (2)
- Dia 10; 15H15: 1º Cortejo, da Feira do Sobreiro até ao local das palmeiras, frente à Igreja, conduzindo o Reverendíssimo Bispo, D. Ximenes Belo, enquadrado por carros antigos (Fernando Luzio) e com a participação especial da Banda Filarmónica da Mamarrosa.
- 15H30: Recepção do Reverendíssimo D. Ximenes pelo nosso Padre Arlindo, seguida dum
- 2º Cortejo, ao longo daquela que ficou conhecida por Praça Vermelha. Integram-no a Irmandade das Almas e a Confraria da Cruz do Senhor e o Diácono Lourenço de Huesca e suas Riquezas.
- 16H00: Missa de S. Lourenço.
- 17H00: Prisão do Diácono Lourenço e das suas Riquezas à saída da missa, pelas tropas do imperador romano Valeriano (VIV'ARTE, acolitado por alguns artistas locais).
- 17H15: Procissão Solene, de acordo com as usanças, mas desta vez enriquecida pela honrosa presença do reverendíssimo Sr. Bispo/Nobel da Paz e pela Padroeira da Capela dos Ferreiras, bem como por Gentes de Bustos vestidas à moda antiga e pela costumeira Fanfarra da Costa do Valado, tudo sob a inestimável protecção duma pequena força a cavalo da GNR, também fardada a rigor, que a procissão quer-se reluzente, de encher o olho. (3)

- 22H00: Encenação pelo VIV'ARTE da morte do Diácono Lourenço, seguida da Canonização do nosso S. Lourenço.
c) Parte pagã:
- Os conjuntos do costume, no caso, Central (dia 9; 22H00), Fax (dia 10; 22H00) e TV5 (dia 11; 22H00) e, ainda, Karaoke (dia 8; 24H00), onde pontificam o preocupado Joãozito do Jó e a Gladys Del Carmen da linda voz de sempre.

- Aguardamos a confirmação dum pequeno Concerto, a entremear a apresentação do trabalho do Li, a cargo da violoncelista Raquel Reis (Orquestra da Gulbenkian) e da irmã Joana, violinista nas horas vagas da medicina e ambas filhas de Oliveira do Bairro.
*
comes e bebes para muitas bocas. Bocas que esperemos sejam bem mais do que as dos maledicentes e temerosos do costume, que isto da malta se arrimar a qualquer obra é terreno propício a ter que ouvir o que não merece.
Deixo aqui a minha - e de uns quantos mais - ambição: que o S. Lourenço sirva de regaço às GRANDES FESTAS DE BUSTOS EM HONRA DE S. LOURENÇO.
Não vos parece que vai sendo tempo de Bustos sair do marasmo?
__
(1) Apenas adianto que o Li recuou
com sucesso até ao séc. XVII na busca documental da árvore genealógica da família Ferreira da Barreira.
(2) Uma viagem a Braga com o James e uma antiga foto a cores (a Clarita já anda no terreno das raízes de Bustos há mais anos do que se pensa), conduziu-nos facilmente à reprodução em madeira da bonita imagem.
3) Só ontem e após um indeferimento inicial, motivado pelo empenhamento total das forças da GNR na prevenção e combate aos incêndios e considerando a presença de D. Ximenes Belo, me foi transmitida a participação de 2 cavaleiros na procissão.

- NOTA: a 1ª imagem é do antigo S. Lourenço (séc. XVI) e estava no nicho superior à porta da antiga Igreja.

13 de abril de 2009

A Visita Pascal

Mudam-se os tempos, mas não muda a vontade das aldeias de Portugal renovarem a tradição da Páscoa, de longe a festa religiosa mais enraizada na alma portuguesa. A Páscoa é a mais antiga celebração católica com referências documentais que remontam ao Concílio de Niceia (ano 235 depois de Cristo).
Por mais profanos que reclamemos ser, as festividades da Semana Santa entram-nos casa adentro nem que seja para o copioso almoço de domingo ou segunda feira de Páscoa.
Embora sem a intensidade de outros tempos, os bustuenses continuam a abrir as portas à cruz de Cristo crucificado, onde todos (ou quase todos) participam no acto solene de "beijar o Senhor". Atenta a dimensão humana da freguesia e pelo menos no caso dos que vivem no lugar de Bustos, a festa é mais hoje, 2ª feira de Páscoa. Já no vizinho Montouro de Covões a Páscoa é celebrada no próximo domingo, dito da pascuela ou 8ª da Páscoa.
Por cá e renovando uma tradição que se perde na noite dos tempos, o dia de ontem foi dedicado à visita pascal ou da Cruz do Senhor.
Quando seriam umas 9 horas da manhã e mal estoirou o 1º dos muitos foguetes que irão assinalando o sítio do compasso, teve início o corre-corre da visita; ao Corgo e Avenida da Igreja seguiram-se os seguintes lugares da freguesia, pela ordem indicada: Picada, Sobreiro (sul), Quinta Nova, Coladas, Sobreiro (norte), Azurveira e Barreira. Hoje, a comitiva percorre a parte sul da Barreira, Rua da Fonte, Cabeço, Salgueiro, Póvoa e o resto da Quinta Nova, até terminar no lugar de Bustos.
Como ontem o Padre Arlindo teve de ir pregar a mensagem para outra freguesia, a comitiva foi dirigida pelo acólito prof. Nelson Figueiredo, acompanhado por sete membros da Confraria da Cruz do Senhor, a saber: Lupério da Silva (Juíz), Alípio Santos (escrivão), os gémeos Carlos e Mário Canão, Emitério Alves, Manuel Romão e Alberto Santos, sem falar no rapaz do sino avisador.
Acompassei a visita pelo Sobreiro e Azurveira e entrei nalgumas casas: engalanadas e de mesa farta, eram o espelho dos seus donos e das visitas de amigos, familiares e vizinhos, às vezes aos verdadeiros magotes; e ainda bem que a malta jovem continua a marcar presença, o que faz crer que a tradição da visita pascoal está para durar.
Pela 1ª vez, dei-me conta de que o compasso entra em todas as pequenas capelas da freguesia, onde a cruz é dada a beijar aos zelosos féis do Santo de cada uma. Demorei mais na visita ao Romão da Azurveira e ao Acílio Teixeira: porque são amigos do peito, o último dos quais desde os tempos da escola.
Se calhar também porque ambos integram a Comissão de Festas de S. Lourenço - 2009 e esta se propõe mudar a face das festividades locais.
Se calhar porque a fome apertava e o preparar da chanfana e do cabrito assado no forno cá de casa me tirou o apetite para o almoço.
Se calhar porque tudo o que sejam RAÍZES DE BUSTOS me aguça o apetite e enche a alma de esperança num futuro de referências ao passado glorioso das Gentes de Bustos.
Se calhar porque é tempo de sacudir as consciências e reavivar as nossas referências culturais e patrimoniais. Se calhar, se calhar...
Por tantos calhares, houve um outro que me marcou quando regressava a casa e encheu de justificado júbilo. Deste calhar se fará luz a seu tempo, porque
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera m branco frio os campos.
...
- 1ª estrofe de "Cada coisa a seu tempo tem seu tempo", de Ricardo Reis / Odes.
oscardebustos

12 de agosto de 2008

S. Lourenço do Povo

Só mesmo o muito empenho e dedicação dum grupo de bustuenses permitiu que este ano os festejos não se ficassem pela vertente religiosa. E festa religiosa sem o paganismo dos arraiais está condenada ao esquecimento, coisa que S. Lourenço não perdoaria.
Quando tudo parecia perdido, Alcino Caetano da Rosa decidiu pôr mãos à obra levando consigo para o acompanhar na comissão de festas gente que também ama Bustos e gosta de desafios, ainda por cima com Agosto mesmo à beirinha: Mário Capão, Manuel Romão, David Arroz, Fernando Almeida, Arsénio Ferreira, Fernando Nunes, Basílio Almeida, Lupério da Silva (Juiz da Confraria do Senhor), mais a generosa ajuda do Arsénio Loureiro.
A eles se deve a festa civil, que é a que mais diverte a malta e maior brilho dá aos festejos cristãos.
Deve-se a eles - pois deve - mas que beleza teria o S. Lourenço sem o brioso grupo de mulheres dirigido pela Aida do Alcino e pela Dorinda Capão? Isto sem esquecer as demais que contribuíram para o brilhantismo dos festejos e para os arranjos florais: Zaida Silva, Elsa Azenhas, Belina da Aríete, Cléria Campolargo, Olga Barros, Dolores Tarrafo, Lila e se calhar mais umas quantas cujos nomes me escaparam. Lembro também a exposição de artes decorativas instalada ao lado da igreja e que devemos ao esforço da Mila Rei e do seu/nosso Orfeão de Bustos.
A procissão foi um sucesso, para muitos a melhor de que há memória e a festa do dia 10 à noite não lhe ficou atrás. Valha a verdade que o grupo Salsa Rosa de Pontevedra foi outro sucesso, tal era o mar de gente a encher a nossa Praça Vermelha.
As novidades do cortejo foram algumas e a que mais chamou a atenção terá sido a do novo santo oferecido à Igreja: o Menino Jesus de Praga, que encarna a devoção do povo pela meninice de Jesus. Ainda bem, porque a história pouco nos revela sobre os seus tempos de criança, embora esteja em crer que teria sido rabino e traquinas como todas as crianças do mundo.
Bustos é fértil em santos das nossas devoções; ao todo e se bem os contei são agora 11: começando pelos adstritos à Igreja, temos S. Lourenço, Santo António, Nª Senhora de Fátima, Nª Senhora do Leite e o jovem Menino Jesus de Praga; mais da devoção dos lugares da freguesia, viva o S. João e a Nª Senhora das Necessidades (ambos do Sobreiro); e vivam também o S. Martinho do Cabeço, a Sr.ª dos Emigrantes que é da Azurveira e o Sr. dos Aflitos aqui da minha vizinha Póvoa.
Deixei para o fim a Nª Senhora da Saúde, que é da Barreira e tem a particularidade de substituir – digamos assim - o vizinho D. Gregório Hernandez (El siervo de Dios), cujo estatuto me disseram estar em vias de ser revisto. Aliás, reparei que este ano o beato Gregório esperou pela procissão virado de frente para a Igreja do Corgo, em jeito de quem espera ser reconhecido pela cristandade e passar a caminhar entre os seus.
*
Falta a surpresa final.
Assim como quem não quer a coisa e quando a actual comissão temia não encontrar sucessores, eis que surgiu do nada um grupo de 12 bustuenses decididos a continuar a tradição. Vou revelá-los em primeiríssima mão, salvo o anúncio do costume a meio do arraial de ontem à noite:
- Juíza da festa: Zaida Silva (Sobreiro), acolitada pela Cacilda Gala (Sobreiro), a Gina do Sofia (Picada) e pela Maria Leonor Micaelo (Sobreiro).
- Seguem-se os rapazes, por ordem alfabética:
Acílio Teixeira (Azurveira); James Ray (Bustos), que recebeu o ramo em nome da nova comissão; Jhonny dos
Santos (Barreira); Jó Duarte (Bustos); José Eduardo dos Santos (Cabeço); Mário Licínio Mota (Póvoa); Mário Quintaneiro (Sobreiro); Oscar Santos (Bustos) e Virgílio Ferreira (Quinta Nova).
A promessa é continuar a tradição e aproveitar para introduzir iniciativas que recordem e registem as origens locais do padroeiro e da criação da paróquia. E recriar momentos do passado de Bustos. Até me constou que aceitam mais braços e…sugestões válidas.
Em suma: a Comissão de Festas de 2009 não esquecerá as RAÍZES DE BUSTOS.
*
- Nota final: Visitem a procissão de 2007 AQUI. E a de 2005 mais ALI.
E vejam o álbum das fotos deste ano (da Zaida Silva e do oscardebustos), no seguinte sítio:

8 de agosto de 2008

OLHA LÁ VAI PASSANDO A PROCISSÃO ... (GILBERTO GIL)




“Olha os irmãos da nossa confraria!

Muito solenes nas opas vermelhas!

Ninguém supôs que nesta aldeia havia

Tantos bigodes e tais sobrancelhas!”


(excerto de ‘A Procissão’, poema de António Lopes Ribeiro alusivo ao quadro de Sarah Afonso com o mesmo título "A Procissão".)

4 de março de 2008

CONFRARIAS E LEITÃO ASSADO

A História
A partir do séc. XII eram usuais no reino as Confrarias ou associações de cidadãos dedicadas à caridade e assistência dos mais desfavorecidos dentre os seus.
Tal como as Corporações dos Ofícios, estas uma espécie de sindicatos medievais dos vários ramos profissionais, as confrarias representavam na idade média aquilo que passou a ser o movimento associativo e o corporativismo dos nossos dias.
A mais famosa confraria (em rigor, irmandade) foi e continua a ser a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, criada em 1498 pela mão régia de D. Leonor, rainha viúva de D. João II.
A grande distinção entre ambas as instituições medievais reside nos seus destinatários: enquanto as Confrarias estavam viradas para o seu interior – os confrades, que eram sempre profissionais do mesmo ofício –, as Misericórdias estavam abertas a todas as pessoas, sem qualquer discriminação de sexo ou profissões, classes ou condições sociais.

As confrarias dos nossos dias
Nos dias de hoje e com especial incidência na gastronomia, há confrarias para todos os gostos: do vinho, da cerveja, dos vários queijos, da chanfana, do bacalhau, da broa, das tripas à moda do Porto e até dos deliciosos maranhos, ou seja, de tudo quanto é bom de comer e beber.
Vive-se uma espécie de solidariedade gustativa, virada para a preservação dos sabores e paladares herdados dos nossos antepassados.
A capa ou gabão, o chapéu e a insígnia são os sinais mais marcantes dos confrades, preservando uma tradição que já vêm dos tempos medievais. Muito próprios são também os rituais que acompanham as suas reuniões ou “capítulos”.

Pois foi ao 30º aniversário e 2º Capítulo da Confraria Gastronómica do Leitão da Bairrada que eu e o meu confrade de escritório tivemos o prazer de assistir no passado sábado como convidados.
É do que vos proponho falar, aqui do soberbo Palace Hotel do Buçaco, paraíso terrestre onde teve lugar o evento.
Esta Confraria do nosso leitão congrega 33 fundadores, tudo gente dos concelhos de Oliveira do Bairro, Anadia, Águeda, Mealhada e Cantanhede, que vem estando na linha da frente pela criação da zona demarcada do leitão assado à moda da Bairrada. Como é bom de ver, nos seus objectivos estatutários está a defesa do nosso leitão assado e da sua confecção tradicional.
Foram dois os pontos altos do capítulo: a entronização de dois confrades - um de mérito e outro honorário - e a participação do nosso VIV’ARTE, sobre quem já dissemos muito
AQUI. Aconselho mesmo um clique na azulada hiperligação para ficar a saber quase tudo sobre tão boa gente das nossas gentes.
Sua Majestade, o Rei!
Todos as entradas e pratos servidos no Buçaco beberam a sua matriz nos ingredientes do famoso bácoro. Degustada a cabidela, foi com toda a pompa e circunstância medievais que deu entrada no magnífico salão nobre SUA MAGESTADE, O REI. Sim, ele mesmo, o nosso Rei, todo ele esguio e bem tostadinho pelo calor das vides dos nossos fornos, como mandam as regras e a boa tradição!

No meio de tão cativante convívio, confesso que me seduziu especialmente a intervenção do famoso mestre de cozinha, Chefe Helmut Ziebell, entronizado como Confrade de Honra.
Nascido em 1939 numa pequena vila de Áustria, o Chefe descende duma família ligada às artes culinárias. O fascínio por Portugal e pela sua culinária acompanhava-o desde pequeno, pelo que acaba por fixar-se entre nós em 1964 como cozinheiro do Hotel Ritz, onde termina a carreira como chefe executivo. É o único cozinheiro em Portugal com um prédio com o seu nome – o Prémio Inovação Helmut Ziegell.


E eis como, quase sem querer, se fala das novas pides
O Presidente da Direcção da confraria do delicioso bácoro, o sangalhense António Duque, resolveu terçar tímidas armas com os D. Godofredos dos nossos dias, esses personagens medievais que parecem ter renascido das cinzas e se dão ares de quem sabe governar o Reino.
Muito a propósito, lembrou o risco que corremos em perder o genuíno leitão assado, mercê da rigidez da legislação em vigor. Daí as perguntas que deixou no ar: que futuro terá a gastronomia tradicional portuguesa? Que será dos valores culturais dessa gastronomia?

Termino, lembrando que os regulamentos comunitários admitem uma flexibilidade das suas normas, chegando a apontar para as boas práticas de higiene em substituição da chamada “monitorização dos pontos críticos de controlo”.
Por exemplo, o Regulamento da Comunidade n.º 852/2004, relativo à higiene dos géneros alimentícios, admite que aquela flexibilidade “é também apropriada para permitir a continuação da utilização de métodos tradicionais em qualquer das fases de produção e em relação aos requisitos estruturais para os estabelecimentos.
Daí que o legislador comunitário convide os Estados Membros a estabelecer normas orientadoras que tenham em conta as especificidades de cada um deles.
Mas Portugal sempre gostou de se armar em bom aluno e daí a subserviência com que aplica às cegas os regulamentos comunitários.
E como não gostamos de fazer trabalho de casa, normas orientadoras que tenham em conta as especificidades de cada região e a diferenciação entre pequenas, médias e grandes empresas, nem vê-las, quanto mais lê-las!
Leva tudo pela medida grande, à boa maneira da pidesca ASAE!
Por este andar, não há confraria gastronómica que nos valha…

*
oscardebustos

30 de abril de 2007

Algumas considerações - locais - sobre a resposta ao inquérito de 1758

Em resposta ao inquérito de 1758, enviado aos párocos por ordem do Marquês de Pombal, informava o reitor da igreja matriz de Soza, Thomé de Sacramento e Brittos,(...) "Há nesta dita freguezia da Mamaroza duas ermidas huma de Nossa Senhora da Graça no dito lugar da Mamaroza, cuja conservação e reparo corre por conta da confraria de Nossa Senhora do Rozario da dita igreja, e está dentro do lugar; e outra ermida do Martir São Lourenço dentro do lugar de Bustos cuja conservação e reparos pertence aos mesmos moradores do mesmo lugar de Bustos, Barreira, Azurveira e Sobreiro."
Informa-nos o documento que haviam na freguesia da Mamarrosa duas ermidas, uma de Nossa Senhora da Graça, no lugar da Mamarrosa, e que a sua conservação e restauro estava a cargo da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, e que havia outra ermida do mártir São Lourenço, situada no lugar de Bustos e que a sua conservação e reparação estava a cargo dos moradores dos lugares de Bustos, Barreira, Azurveira e Sobreiro.

Informa ainda o documento "(...) Em dia dez de Agosto dia do dito martir São Lourenço acode muita gente de romagem a mesma cappella e tambem em dias diversos algumas pessoas particullares por terem ao dito Santo Martir por advogado das maleytas, e que levando-lhe uma telha de oferta tem fé de que lhes tira."

O documento transmite-nos ainda pelo punho de Thomé de Sacramento e Brittos, que no dia dez de Agosto se dirigiam muitas pessoas de romagem a capela, e que tendo fé em São Lourenço acreditavam que levando-lhe uma telha ele os protegia. Considerando que a conservação e restauro da Capela de São Lourenço estava a cargo dos moradores dos lugares acima referidos, poder-se-á concluir que a fé aliava-se aqui a necessidade de conservação e restauro da capela.

O dia dez de Agosto para além de dia de Romaria, era também dia de mercado (...) "Nesta freguezia não ha feira alguma senão somente dois mercados, hum que se faz no lugar de Bustos ao pé da Cappella do Martir São Lourenço em dez de Agosto e somente neste dia; e outro no lugar da Mamaroza junto a igreja della em vinte e oito de oitubro, dia do apostollo Sam Simão e também só neste dia, e ambos os dois mercados contam de coisas comestíveis."
Alberto Martins

4 de outubro de 2006

SILÊNCIOS: HOMENAGEM


O nosso eng.º Manuel dos Santos Pato foi ontem a enterrar na terra que adoptou.
Bustos esteve presente: a freguesia fez-se representar pelo Presidente da sua Assembleia, Mário Vitorino Reis Pedreiras (com coroa de flores) e ainda pelo Presidente da Junta, Manuel Pereira.
Registo a presença da Igreja de Bustos, na pessoa do juiz da confraria, Manuel Francês; de manhã, o Manuel Grangeia, juiz da irmandade, pedira-me desculpa por não poder estar presente no funeral, realçando de forma muito sentida a justeza da homenagem a um bustuense a quem se deve a construção da bonita igreja de Bustos.
Os homens simples são assim e não precisam das lições de doutores e engenheiros.


O reencontro com duas das filhas, netas e netos de Jacinto dos Louros não teve o sabor doce e alegre de domingo passado: foi amargo, triste e doeu muito.
*
Exaltemos a vida e vamos em frente, que se faz tarde!
*
Oscar Santos

15 de agosto de 2005

PROCISSÃO DE S. LOURENÇO: UM ACTO DE FÉ, DE TRADIÇÕES..e algumas contradições


Teria de remexer bem o meu baú das recordações de menino e moço para relembrar ao pormenor a Procissão de S. Lourenço e toda a sua parafernália de ritos e símbolos físicos.
Confesso que guardo melhor na memória o que chamávamos, nos princípios de 60, de “Santo Sacrifício da Saída da Missa”: era no adro da velha Igreja com inscrições setecentistas que ansiosamente aguardávamos a saída das beldades, sacrílego acto que mais não era do que o despontar da rebeldia de quem começava a conviver mal com tempos de tamanha contenção e fome da outra…
Mas ontem, confesso-vos, tirei a barriga de misérias. Soube-me bem reentrar nos meandros da antiquíssima tradição da procissão do padroeiro de Bustos, o nosso querido S. Lourenço, mais tarde consorciado ao também muito nosso Santo António, decisão tomada há uns 15 anos pelo Povo das festas e romarias por razões que julgo ligadas a regras de economia festeira.

Mas vamos ao que interessa: a profanada procissão do S. Lourenço:
Já passava bem das 5 horas da quentíssima tarde e terminada que foi a longa e concorrida missa, quando a procissão se pôs a caminho, iniciando o percurso na muito nossa Praça Vermelha.
O extenso cortejo seguiu pela rua de S. Lourenço, virou à direita para a rua 18 de Fevereiro, Barreira abaixo, onde contornou o novíssimo cruzeiro que a Sra. Junta teve o cuidado de inaugurar no dia do padroeiro e em ano de eleições autárquicas.
Dada a volta ao reluzente cruzeiro de calcárea pedra, a concorrida procissão subiu a mesma 18 de Fevereiro até reentrar na Igreja, não sem voltar a pisar a Praça Vermelha, esse novo ex-libris da freguesia de todos nós.

Abriu a procissão a fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, seguida dos guiões das Irmandades de Bustos (1), Mamarrosa (2) e Troviscal (1). Vinham a seguir os estandartes ou bandeiras das seguintes Irmandades: de S. Lourenço e de Santo António (ambas de Bustos), de S. Simão da Mamarrosa (2), de S. Bartolomeu do Troviscal (2) e as de S. Martinho da Amoreira da Gândara (2), estandartes estes que, como se viu, vinham desacompanhados do respectivo guião.
Uma falta que tenho pouca vontade de perdoar, como não sou de perdoar aos aguerridos vizinhos da Palhaça, ao que se diz zangados com a organização dos nossos festejos por razões que os cristãos deveriam ultrapassar ou, vá lá, resolver no segredo do confessionário.
Mas adiante, que a procissão não pode parar: é o ritmo que se perde e com ele o belo impacto que o ritual transmite aos nossos olhos e aos corações.
Foram essas as maiores preocupações dos dois mandantes da procissão: o Manuel Grangeia, que é o Juiz da Irmandade e o Manel Francês, Juiz da Confraria, que sabem da poda e se dão ao respeito.

Atrás dos estandartes vinham os 10 andores, tantas são as Santas e Santos que protegem a nossa freguesia e que passo a ordenar: N.ª Sra. do Leite (também chamada do Ó) e N.ª Sra. de Fátima (ambas adstritas à Igreja); S. João (santo do Sobreiro e da total devoção desse penitente pagão que é o Milton Costa); N.ª Sra. dos Emigrantes, da Azurveira; S. Martinho, do Cabeço; N.ª Sra. das Necessidades, da sobreirense rua dos Vieiras; N.ª Sra. da Saúde, da capelinha da Barreira, que ali convive mal com o controverso “S. Gregório” e do qual falarei mais abaixo; Sr. dos Aflitos, da Póvoa e, finalmente, o Santo António e o S. Lourenço, estes também sediados na Igreja e os verdadeiros padroeiros da festa.

Atrás do S. Lourenço caminhavam solenemente os Arautos de Fátima, também apelidados de Oratórios de N.ª Sra. do 3º Milénio, companheiros estes que eram seguidos do estandarte em metal bem pintado do S. Miguel, quadro que data de 1966 e faz lembrar a iconografia ortodoxa. Desde há 3 anos que este padroeiro passou a acompanhar a procissão, que isto de solidificar a fé também se mede pela profusão dos seus ícones e água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

O Orfeão de Bustos vinha logo a atrás do S. Miguel, a ponto de eu ter chegado a pensar que alguém tinha encontrado o novo guardião das cristalinas vozes dos nossos orfeonistas; o presidente Belinquete apressou-se a desmentir-mo ia a procissão a chegar ao recém inaugurado cruzeiro da Barreira.

A fechar a parte sacra da procissão e imediatamente antes do pálio debaixo do qual imperava o nosso Padre Arlindo, ladeado pelos seus 2 acólitos, vinha a cruz do Senhor. A excelente Banda de Música da nossa Mamarrosa encerrava o cortejo.

Ao invés da cruz, a sagrada custódia, essa, só sai nas procissões do Santíssimo Sacramento e sem os andores dos Santos. A Igreja tem as suas regras e apesar de alguma maleabilidade, há limites que não podem ser ultrapassados.
Que o diga o Povo da Barreira! Depois do seu S. Gregório ter participado em várias procissões (chegou a ser levado ao colo, sem direito a andor e até a entrar na procissão quando ela já estava no adro), este ano a Igreja não transigiu: o S. Gregório foi saneado, que ele nem beatificado ainda está, quanto mais santo, diz o Padre Arlindo e com razão.

A Barreira é que não esteve pelos ajustes: se o S. Gregório não vai à procissão, pois a procissão há-de vir ao S. Gregório!
E foi o que aconteceu, como bem ilustra a foto ao lado: guiões, estandartes, santas e santos (mesmo os mais pecadores), cruzes, padre, acólitos, pegadores de pálio, meninos vestidos de anjinhos, à S. João ou à 3 pastorinhos, aguadeiros, tocadores, cantadores e demais seguidores da procissão, todos deram a volta em seu redor.
Bastou-lhe esperar de pé, na base do novo cruzeiro da Barreira, bem rodeado de lindos e frescos cravos de vermelho-tinto!
Queriam melhor homenagem ao S. Gregório?
Julgavam que levavam a melhor ao bom Povo da Barreira?
Estão “muito mal enganados”!
O S. Gregório pode não ter entrado na procissão, mas lá que foi ele a marcar o passo da dita, isso ninguém lhe pode negar!

E VIVAM OS SANTOS POPULARES do nosso encantamento!!
*
Oscar de Bustos